Por José de Alencar (1857)
O mundo ao longe corria às vezes o pano a uma das suas brilhantes cenas e mostrava à menina refugiada no seu retiro e na sua saudade a auréola que cinge a fronte das mulheres belas; auréola que aos outros parece brilho de luz, mas que realmente é para aquelas que a trazem, chama de fogo.
Carolina resistia, envolvendo-se na branca mortalha de seu primeiro amor; mas a tela fez-se transparente e não lhe ocultou mais o que ela não queria ver.
Sentiu-se arrastar e teve medo.
Teve medo de esquecer.
Não descreverei, minha prima, a luta prolongada e tenaz que travaram n'alma dessa menina a saudade e a imaginação.
A senhora, se algum dia amou, deve compreender a luta e o resultado dela. O mundo venceu. Carolina tinha 15 anos e não havia libado do amor senão perfumes.
Mas, ainda vencida, ela defendeu contra a sociedade as suas recordações, que se tornaram então um culto do passado.
Entrou nos salões, porém com esse vestido preto, que devia lembrar-lhe a todo o momento a fatalidade que pesara sobre a sua existência.
Excitou a admiração geral pela sua beleza. Não houve talento, posição e riqueza que se não rojasse a seus pés. Sabiam vagamente a sua história; suspeitavam a virgindade sob aquela viuvez e se lhe dava um toque de romantismo que inflamava a imaginação dos moços à moda.
Chamavam-na a Viuvinha.
A senhora deve tê-la encontrado muitas vezes, minha prima, no tempo em que começou a freqüentar a sociedade. Estava ela então no brilho de sua beleza. Na menina gentil e graciosa encarnara a natureza a mulher com todo o luxo das formas elegantes, com toda a pureza das linhas harmoniosas.
A influência que o vestido preto devia exercer sobre essa organização ardente revelou-se logo. O vestido preto era o símbolo de uma decepção cruel; era a cinza de seu primeiro amor; era uma relíquia sagrada que respeitaria sempre. Enquanto ele a cobrisse parecia-lhe que nenhuma afeição penetraria o seu coração e iria profanar o santo culto que votava à imagem de seu marido.
Era uma superstição; mas que alma não as tem quando a crença ainda não a abandonou de todo!
Assim, Carolina tornou-se coquette; ouvia todos os protestos de amor, mas para zombar deles; o seu espírito se interessava nessa comédia inocente de sala; a sua malícia representava um papel engenhoso; mas o coração foi mudo espectador.
Era quando voltava do baile, à noite, na solidão do seu quarto, que o coração vivia ainda no passado, no meio das tristes recordações que despertavam quando o mundo dormia. Ali tudo lhe retraçava a noite fatal; só havia de mais o luto e de menos um vulto de homem, porque a sua imagem, ela a tinha nos olhos e n'alma.
Dizem que não se pode brincar com o fogo sem queimar-se.
O amor é um fogo também e Carolina, que brincava com ele, zombando dos seus protestos, acabou por crer.
Ela se tinha preparado para combater o amor brilhante, ruidoso, fascinador, dos salões; mas não se lembrou de que ele podia vir, modesto, obscuro e misterioso, enlear-se às cismas melancólicas de sua solidão.
Esta parte da vida de Carolina é um romance.
Havia 18 meses que, um dia, sua vista, ao acordar, fitou-se na janela que a mucama acabava de abrir para despertá-la.
Há um prazer indizível em embeberem-se os olhos na luz de que durante uma noite estiveram privados.
Carolina gozava desse prazer que nos faz parecer tudo novo e mais belo do
que na véspera, quando descobriu entre o vidro da janela um papel dobrado como uma sobrecarta elegante. A curiosidade obrigou-a a erguer-se, levantar a vidraça e tirar o objeto que lhe despertara a atenção.
Era realmente uma sobrecarta, fechada com este endereço: — A ela.
Não creio que haja mulher no mundo que não abrisse aquela sobrecarta misteriosa. Carolina hesitou dez minutos, no que mostrou uma força de vontade admirável, porque outras no seu lugar a abririam no fim de dez segundos.
Não havia dentro nem carta, nem bilhete, nem uma frase, nem uma palavra; mas uma flor só, uma saudade.
Este pequeno acontecimento ocupou mais o espírito da moça do que os bailes, os teatros e os divertimentos que freqüentava. Pensou no enigma esse dia e os seguintes, porque todas as manhãs achava a mesma carta sem palavras e a mesma flor.
Quando isso tomou ares de uma perseguição amorosa, a moça revoltou-se e deixou de tirar as cartas, que ficaram no mesmo lugar onde as tinham posto. Parecia que o autor dessa correspondência ou não se importava com a indiferença que lhe mostrava Carolina ou contava vencê-la à força de constância.
Uma vez Carolina, não sei como, teve uma idéia extravagante: começou a sonhar acordada, e, como não há loucura que não roce as asas pelo delírio da imaginação, acabou por ver naquela flor misteriosa uma saudade que lhe enviava de além-túmulo aquele que a amara.
Abraçado assim o romance da flor com o culto do seu passado, é fácil adivinhar como ele não caminharia depressa ao desenlace: por mais absurda e impossível que a razão lhe apresentasse semelhante aliança, o coração a desejava, e ela se fez.
Uma noite resolveu conhecer quem era o seu desconhecido.
Recostou-se por dentro da vidraça, na penumbra da janela. O aposento não tinha luz; era impossível vê-la de fora.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.