Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Viuvinha

Por José de Alencar (1857)

Pouco depois ouviu-se um tiro; os trabalhadores das obras que iam chegando encontraram um cadáver mutilado e a carta de Jorge; ao mesmo tempo o moço e o senhor Almeida ganhavam pelo lado oposto a praia de Santa Luzia.

Passava um bote a pouca distância de terra; o velho acenou-lhe que se aproximasse.

— O acaso nos favorece, disse ao moço; sai amanhã para os Estados Unidos um navio que me foi consignado; é melhor embarcar agora, para não excitar desconfianças; hoje mesmo lhe tirarei um passaporte.

O bote aproximou-se; o embarque nestas paragens é incômodo; mas a situação não admitia que se atendesse a isto.

Eram 9 horas quando o senhor Almeida, tendo deixado Jorge na barca americana e tendo tomado um carro na primeira cocheira, chegou à casa de D. Maria.

A boa senhora recebeu-o com um sorriso; estava sentada na sala próxima ao

quarto de sua filha e esperava tranqüilamente que seus filhos acordassem.

O velho, vendo aquela serena felicidade, hesitou; não teve ânimo de enlutar esse coração de mãe.

Nisto a porta do quarto abriu-se e Carolina, branca como a cambraia que vestia, apareceu na porta, tendo na mão a carta de Jorge.

A mãe soltou um grito; a filha não podia falar; e assim passou um momento de tortura, em que uma dessas dores procurava debalde adivinhar a desgraça e a outra se esforçava por achar uma palavra que a revelasse.

No dia seguinte, Jorge partia para os Estados Unidos e Carolina trocava, suas vestes de noiva por esse vestido preto que nunca mais deixou.

Seria longo descrever a vida desse moço, morto para o mundo e existindo, contudo, para sofrer; durante cinco anos, alimentou-se de recordações e de uma esperança que lhe dava forças e coragem para lutar.

O amor de Carolina, talvez mais do que o sentimento da honra, o animava; trabalhou com uma constância e um ardor infatigáveis e ganhou para pagar todas as dívidas de seu pai.

Logo que se achou possuidor de uma soma avultada, Jorge preferiu vir acabar a sua expiação no seu país, onde ao menos se sentiria perto daqueles que amava.

De fato chegou ao Rio de Janeiro com o nome de Carlos Freeland; dava-se por estrangeiro; alguns, porém, julgavam que nascera no Brasil e que aí vivera muito tempo mas não se recordavam de o ter visto.

A desgraça tinha mudado completamente a sua fisionomia; do moço tinha feito um homem grave; além disso, a barba crescida ocultava a beleza dos seus traços.

O seu primeiro cuidado foi procurar o senhor Almeida e pedir-lhe que o auxiliasse no resgate das letras, que devia ser feito de modo que ninguém o suspeitasse. O que fez o velho negociante, já o sabe.

Como disse, Jorge ocultava sua vida de todos e do próprio velho ; sofria corajosamente a miséria a que se condenara, mas não queria que ela tivesse uma testemunha.

O senhor Almeida, porém, surpreendera o segredo.



CAPÍTULO XV

Vou levá-la, D..., à mesma casinha do morro de Santa Teresa, onde começou esta pequena história.

São 10 horas da noite. Penetremos no interior.

D. Maria acabava de recolher-se, depois de ter beijado sua filha; toda a casa estava em silêncio; apenas havia luz no aposento de Carolina.

Esse aposento era a mesma câmara nupcial, onde cinco anos antes aquela inocente menina adormecera noiva para acordar viúva, no dia seguinte ao do seu casamento.

Nada aí tinha mudado, a não ser o coração humano.

Cinco anos que passaram por esse berço de amor, transformado de repente em um retiro de saudade, não haviam alterado nem sequer a colocação de um traste ou a cor de um ornato da sala.

Apenas o tempo empalidecera as decorações, roubando-lhes a pureza e o brilho das coisas novas e virgens; e a desgraça enlutara a rola, que se carpia viúva no seu ninho solitário.

Carolina estava sentada na conversadeira, onde na primeira e última noite de seu casamento recebera seu marido, quando este, trêmulo e pálido, se animara a transpor o limiar desse aposento, sagrado para ele como um templo.

Justamente naquele momento, esse quadro se retraçava na memória da menina com uma força de reminiscência tal que fazia reviver o passado. O seu espírito, depois de saturar-se o amargo dessas recordações, desfiava rapidamente a teia de sua existência desde aquela época.

Quer saber naturalmente o segredo dessa vida, não é, minha prima?

Aqui o tem.

Nos primeiros dias que se seguiram à catástrofe, Carolina ficou sepultada nessa letargia da dor, espécie de idiotismo pungente, em que se sofre, mas sem consciência do sofrimento.

D. Maria e o senhor Almeida, que a desgraça tinha feito amigo dedicado da família, tentaram debalde arrancar a moça a esse torpor e sonolência moral. O golpe fora terrível; aquela alma inocente e virgem, bafejada pela felicidade, sentira tão forte comoção que perdera a sensibilidade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1617181920...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →