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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

BRÁULIO – O quê?

CINCINATO – Ficar o senhor com o meu dinheiro, e eu sem a rapariga: declaração formal. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha.

BRÁULIO – Pode estar tranqüilo: o senhor trata com um homem de bem.

CINCINATO – Isso está fora de questão; mas, em todo caso, há de ser como lhe disse: três contos de réis à portinhola do carro, estando o passarinho dentro.

BRÁULIO – De acordo; mas... o senhor nem respeita as conveniências...

CINCINATO – Quais? as suas?... e esta! quando lhe vou dar três contos de

réis!...

BRÁULIO – Não é isso: é que o senhor nunca namorou seriamente Dionísia... nem mesmo hoje...

CINCINATO – Como é que se namora sério?... o namoro sempre me pareceu passatempo ridículo... eu gosto do positivo.

BRÁULIO – Ajude-me: faça a corte à Dionísia sentimentalmente; ataque-lhe o coração.

CINCINATO – Sentimentalmente, e atacando-lhe o coração?... vá feito: protesto que hei de tocar-lhe na tecla.

BRÁULIO – Sobretudo não comprometa o negócio, fazendo alguma das suas costumadas estúrdias: é o seu único defeito (Soa o piano em prelúdio.) ouça... creio que ela vai cantar, deixo-lhe o campo livre. (Vai-se.)

CENA III

CINCINATO e, depois do canto, DIONÍSIA

DIONÍSIA (Cantando dentro: lundu) – Bonita e marotinha.

Eu sou como andorinha

Que, só, não faz verão.

Voando a sós no espaço,

Cair quero no laço

Que prende o coração.

CINCINATO (Canta.) – Caído e enrabichado

Sou peixe, teu pescado,

Com o anzol no coração.

Não fiques mais sozinha,

Vem cá, minha andorinha,

Vamos fazer verão.

DIONÍSIA (Rindo-se dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Canta.)

O amor de uma andorinha

Na sombra se amesquinha,

Quer lúcido esplendor.

Voando a sós no espaço,

Só cairei em laço

De enleio encantador.

CINCINATO (Canta.) – Meu laço é um tesouro,

Jóias, brilhante, ouro,

Súcia, teatro, ceia,

Sedas, e até veludo,

Coques, anquinhas, tudo,

E a bolsa sempre cheia.

DIONÍSIA (Canta dentro.) – Sou terna e já me inflama

Aquela viva flama.

Que abrasa o coração:

Pressinto que a andorinha

Não fica mais sozinha.

E vai fazer verão...

CINCINATO (Canta.) – Por mim estou em brasas...

Se queres, bate as asas,

Me deixa ser ladrão;

Vamos tecer um ninho,

Voa, meu passarinho,

Vamos fazer verão.

DIONÍSIA (Dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Rindo-se.) mamãe, já viu moço mais engraçado! (Cincinato vai para a frente, mas observa.)

GERTRUDES (Dentro.) – Que te importa o moço?... tens às vezes modos que não parecem de uma menina recatada! (Cincinato põe a mão na boca para conter o riso e vendo que Dionísia vem, tira a carteira e põe-se a contar o dinheiro.) DIONÍSIA (Chegando.) – Ah! era o sr. Cincinato! que bela voz!

CINCINATO – Minha linda senhora... a sua voz é que é estupenda mesmo quando não canta; mas devo confessar que neste momento me atrapalhou!

DIONÍSIA – Como?...

CINCINATO – Fez-me errar a conta... eu dava balanço no capital e nos lucros desta noite e já não sei, se estava em cinco ou em sete contos... é claro que com a senhora a meu lado não me é possível somar... e ainda menos poderei multiplicar o dinheiro... diminuir há de ser fácil, não acha?... (Guarda o dinheiro que Dionísia olhava.)

DIONÍSIA – O senhor é original.

CINCINATO – Dizem isso: mas eu não creio. Que formosa moça!... (Toma-lhe a mão.) Que mãozinha de cetim! (Beija-a.)

DIONÍSIA – Deveras o senhor ama-me? ...

CINCINATO – Com furiosa paixão; eu, porém, sou franco e nítido: não sei alambicar finezas como o feliz Adriano... vou logo direito ao coração, e ao sentimento... encantadora Dionísia! queres ajudar-me a devorar em poucas semanas o miolo desta carteira, e mais três dúzias de contos de réis que tenho depositados no tesouro?... é logo sim ou não para poupar emoções... sim ou não, andorinha?...

DIONÍSIA – O senhor ou brilha pela franqueza, ou perde pela zombaria.

Falemos seriamente: que pensa de mim, e como é o seu amor?...

CINCINATO – Penso que tens enganado a cinqüenta, e que contas comigo para enganar a cinqüenta e um. Eu te adoro apesar disso; mas não respondo pela constância do meu amor... fica a teu cuidado perpetuá-la.

DIONÍSIA – Mas o senhor fala ainda melhor do que canta!

CINCINATO – É que conheço as claves, e canto conforme a letra, e o espírito

(continua...)

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