Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CINCINATO – Facílimo: eu te explicarei tudo, e te darei as necessárias
instruções... agora vamos jogar... (Indo-se.)
DEMÉTRIO – É sublime!...mas explica-me...
CINCINATO – Temos tempo: vamos jogar? (Vão-se.)
CENA V
FÁBIO e ADRIANO, que entram.
FÁBIO – Aposto que se eu não chegasse, não deixavas Dionísia?...
ADRIANO – Hoje mesmo jurei não tornar a vê-la, e vim arrebatado cair a seus pés... esta mulher é a minha perdição... ah! se a visses e a ouvisses há pouco... é irresistível.
FÁBIO – Mas pareces aflito...
ADRIANO – Toca a hora de uma ação indigna, que repugna a minha consciência, e a que me arrasta o delírio da paixão; vou insultar publicamente minha mulher, dando a Dionísia casa e tratamento! É uma revolta contra a sociedade e contra Deus.
FÁBIO – Que puerilidade! até ontem exagerei as proporções e conseqüências do erro que vais cometer: porque era dever de amigo procurar impedi-lo; mas agora... digote a verdade; não praticas uma boa ação; o teu pecado porém é o mais comum dos pecados.
ADRIANO – E Helena?...
FÁBIO – Fará como tantas outras no seu caso: a princípio, lágrimas e desespero, logo depois, consolação nos teatros e bailes.
ADRIANO – Não! eu sinto que a minha traição será fatal a Helena! eu o sinto...
e ainda assim... Oh! basta o primeiro passo na ladeira escorregadia das paixões!... imprudente, o homem conta demais consigo... cedendo a capricho insensato, ousa uma vez levar aos lábios a taça do vício... e a embriaguez lhe anula a vontade... deprava-lhe os sentidos... e o escravo do demônio, embalde o clamor da consciência, vai de rojo caminho de opróbrio e de condenação!
FÁBIO – Eu conheço mais de cinqüenta maridos que rir-se-iam muito da tua ingenuidade!
ADRIANO – Fábio!
FÁBIO – Tua paixão por Dionísia é talvez um favor da Providência, porque te arrancará ao frenesi do jogo que te arruinou. Trabalharás, e, com o concurso da minha amizade, hás de reerguer o teu crédito abalado no comércio. Não torna a jogar: tens muito que despender com Dionísia...
ADRIANO – Tens razão; mas jogarei esta noite pela última vez, Meu Deus!... se
eu ganhasse muito hoje!
FÁBIO – Adriano, cuidado! (Sussurro dentro.)
ADRIANO – Pesa-me sobre o coração o depósito de seis contos de réis que amanhã não poderei restituir.
FÁBIO – Pela terceira vez te asseguro que o usurário me prometeu a espera de um mês... é negócio concluído...
ADRIANO – Meu amigo, tu me salvas... e nem pensas do que me salvas.
FÁBIO – Vou jogar... se absolutamente queres também fazê-lo, vem.
ADRIANO – Vamos... até a meia-noite... ah! se eu ganhasse muito!... (Vão-se.)
UMA VOZ (Dentro.) – Eu jogo com as cartas viradas... cem mil réis na dama!
CINCINATO (Dentro.) – O dote é provocador; mas eu prefiro ficar solteiro.
CENA VI
DIONÍSIA e GERTRUDES
DIONÍSIA – Coitado! adora-me, como um cãozinho à sua dona! se o outro fosse bonito assim!... o Cincinato é feio que espanta; mas tem a carteira tão cheia que faz gosto ver!
GERTRUDES – E além da carteira tem quarenta casas de sobrado de dois andares para cima...
DIONÍSIA – Diabo do feio! Hei de ser um incêndio que lhe queimará em quarenta dias os quarenta sobrados. Há de me pagar caro o sacrifício do belo Adriano.
GERTRUDES – Esse é que é bom rapaz; já é porém um crivo de dívidas, é uma esteira velha de pobreza.
DIONÍSIA – Pois olhe mamãe, por mim não foi, comigo pouco despendeu:
cinco vestidos de seda, um colar de pérolas e outro de brilhantes, dois pares de brincos, e uma flor das mesmas pedras, duas pulseiras, este relógio de ouro, um toilette completo de veludo carmesim, um leque de madrepérola, e este pince-nez... creio que não passou daí... eu o amo tanto que trago de memória os seus presentes...
UMA VOZ (Dentro.) – Cinqüenta mil réis.
CINCINATO (Dentro.) – Agora sim; eu sou dez.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Cincinato joga por fora para pescar de caniço.
CINCINATO (Dentro.) – O pior é que muitas vezes vocês me comem a isca.
GERTRUDES – Cuidado com o Quebra-louça, Dionísia. Vê como ele é ladino...
DIONÍSIA – Está destinado a viver num inferno... começarei por obrigá-lo a convidar Adriano para cear conosco três ou quatro vezes por semana...
CENA VII
DIONÍSIA, GERTRUDES e BRÁULIO
BRÁULIO – A hora se aproxima... os dois carros já estão à porta. Dionísia, não nos deixes por mais de um mês... eu irei fazer as pazes contigo... tu voltarás.
DIONÍSIA – Desta vez com toda a certeza; porque vou-me com um homem tão feio, que é mesmo de obrigação reduzi-lo em pouco tempo a cambista de teatro.
BRÁULIO – Sangue frio e rapidez na execução da fuga: Fábio não nos atrapalha, porque conta com o negócio, mas Adriano está com os olhos no relógio...
DIONÍSIA – Coitadinho!
BRÁULIO – Dois minutos antes da meia-noite foge; acharás à porta da rua dois carros, sobe para aquele que é puxado por cavalos... olha, não te enganes.
DIONÍSIA – Bem: e depois?
BRÁULIO – O Cincinato, levando o rosto coberto com um lenço branco que é o sinal ajustado, subirá a assentar-se a teu lado... o carro partirá, e... adeus pombinhos!
feliz viagem, e boa noite.
DIONÍSIA – Com o diabo do feio!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.