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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

A conversação continuou por algum tempo ainda. Quando enfim a velha e o moço ergueram-se para sair, Anacleto disse:

– Senhora Irias, nós somos conhecidos velhos; quanto ao sr. Cândido, declaro que simpatizei muito com ele e o quero ver assiduamente nesta casa. Somos vizinhos... seremos bons amigos.

CAPÍTULO VII

UMA HORA DA VIDA PASSADA

CONCEDA-SE agora um olhar sobre o passado...

Era uma dessas belas noites de inverno dos países tropicais, onde, para vencer o frio, é de sobra o movimento e a lã.

A cidade do Rio de Janeiro estava em suas horas de poesia. A modesta fada do vale tinha sobre sua cabeça a lua cheia e graciosa que a inundava de luz; o orvalho noturno molhava-lhe as tranças; em redor dela animava-se a sua natureza opulenta e variada; e a seus pés dormia tranqüilo, ressonando apenas, seu mar de águas verde-claras, que simulava então um lago de pirilampos.

A natureza estava em festa. Os homens tinham também a sua. Ouvia-se o ruído de um sarau; mas não era no centro da alegre cidade, era no mais mimoso de seus arrabaldes.

O que havia de mais belo, de mais primoroso e rico na cidade do Rio de Janeiro, tanto pessoal como material, se achava reunido em uma elegante casa em Botafogo. Dava-se esplêndida festa; importa pouco conhecer a origem dela; o essencial é saber que havia uma festa.

A casa brilhantemente iluminada, ostentando riqueza imensa e luxo desmedido, era, apesar de vasta, pequena para a multidão que a pejava.

O jogo, a dança, a música exerciam ali seu império em salas diversas, e sobre vassalos diferentes.

Aqueles a quem a idade ou o estado afastava do amor, e enfim os poucos de todas as idades e estados que eram escravos da mais terrível paixão, prestavam vassalagem ao jogo.

Os outros todos corriam para as salas de dança e música: lá estava a mulher.

Haviam sobre cem ainda muitas senhoras.

O estrangeiro curvava-se gostoso sob o poder dessas vistas ardentes jogadas pelos olhos negros das brasileiras. Ali o árabe lembraria baixinho suas canções aos olhos das gazelas...

Mas no meio dessas mulheres todas, entre mais de cinqüenta virgens belas em todo fulgor de verdes anos, com todo interesse de sua intacta pureza, de sua quase angélica inocência, ainda assim levantava sua cabeça de rainha uma senhora já casada, e que não se podia dizer menina como as outras.

Alta, elegante, extremamente bem feita, de cabelos e olhos negros, cor morena, lábios grossos e belos dentes, ostentava uma beleza especial. Havia em seus modos uma mistura de segurança e nobreza que impunha respeito e admiração; de voluptuosidade e ardor, que desafiava lascivos desejos. Era uma beleza como que selvagem e perigosa. Essa mulher tinha sobretudo um olhar insolente, uma voz melodiosa, e um andar provocador.

Trazia ela os cabelos primorosamente penteados e ornados com uma preciosa borboleta de brilhantes; rosetas das mesmas pedras nas orelhas, e o colo cor de jambo, nu, para melhor ostentar sua perfeição; seu vestido era de seda cor de Isabel, e adivinhavam-se enfim dois pequenos pés presos em sapatinhos de cetim. Tinha na mão direita um ramalhete de violetas, e na gola do vestido, mesmo junto da axila, um cravo rajado, que exprimia um não sei quê de provocadora graça.

Não era uma incógnita: a assembléia toda conhecia o seu nome e respeitava-o. Tão encantadora como honesta, contentavam-se com admirá-la.

Formara-se defronte, mas um pouco longe dela, um círculo de mancebos que faziam por mil maneiras o seu elogio, depois de haverem discutido e concedido a coroa de rainha daquela festa à bela senhora:

– É um homem verdadeiramente feliz, disse um deles, o marido de uma tal mulher.

– Feliz por todas as razões, acrescentou um segundo.

– Como por todas as razões?... perguntou terceiro mancebo.

– Oh! pois será preciso explicar-me?...

– Bem entendido, se for de sua vontade.

– Pois bem: feliz porque possui uma mulher formosa.

– Convenho.

– Dotada de bastante espírito.

– Tenho ouvido dizer.

– Que é fiel aos laços que a ligam.

– Devo crê-lo.

– Que ama a seu marido exclusivamente.

– Quem sabe?

– Agora, meu caro, sou eu que tenho o direito de pedir explicações.

– Estou pronto para dá-las.

– Vamos, pois.

– Digo que estou fatigado de ouvir falar na pureza e lealdade daquela senhora. Oh!... chamar-me-ão dissoluto... dirão que tenho a moral pervertida... pode ser; mas confesso que no ostracismo de Aristides votaria como o camponês que o desterrava por se achar cansado de ouvi-lo chamar – o justo.

– Com efeito!...

– E ainda mais: eu respeito muito as leis da natureza. Creio firmemente que todos podemos ser escravos do erro, e que portanto se a interessante senhora, que segundo creio, faz parte do gênero humano, ainda não errou, pode errar.

– Mas ao menos ainda não errou.

– Dá-me às vezes vontade de tentar... eu daria metade da minha riqueza para ser uma verdadeira tentação!

Alguns sorrisos aplaudiram o leviano; um só dos que estavam no círculo moveu-se com sentimento de reprovação e disse:

– Senhor, sou amigo do marido da senhora de quem se trata e me penaliza que com tanta ligeireza se fale dela em minha presença.

(continua...)

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