Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

E Honorina é sua filha querida. Ela tem dezesseis anos, é de estatura regular, longas e negras madeixas se mostravam presas com avultada trança ao mesmo tempo que dos lados lhe caem, como esquecidos, bastos anéis delas, que voam em caracol, beijando-lhe o nascer dos seios; a fronte é lisa, branca e elevada; os olhos pretos, grandes, cheios de doçura e langor; a tez de seu rosto é alva, fina, transparente mesmo, sem fogo, e deixando apenas adivinhar longínquo rubor, e entrever neste ou naquele ponto um azulado ramúsculo venoso, que para logo desaparece. No entanto, admira-se aí essa palidez, que interessa e arrebata; nada mais majestoso que o seu colo, nada mais perigosamente belo do que o seu peito cor de leite com a mais feliz perfeição encarnado, transpirando amor e desejos de cada vez que, respirando, se eleva; a sua compleição é fraca e delicada; e há no seu sorrir, nas suas menores ações, em todos os seus traços, enfim, um não sei quê de tocante e melancólico, que quem a vê, a observa, a estuda por força; a sua voz é doce, melíflua, como o gemer saudoso da flauta noturna e afastada; e pela angélica pureza da sua vista, pela celeste candura do seu semblante parecem transluzir todos os pensamentos da sua alma; o seu pisar é subtil e imperceptível; dir-se-ia ao vê-la passar silenciosa, que não é uma mulher que anda, mas a imagem de um anjo que, refletida em um espelho, se desliza por ele, e desaparece impalpável e bela.

Posto que já um ano tivesse decorrido depois da morte de seu avô e tio, trajava Honorina ainda nesse dia vestido preto, que mais fazia realçar a alvura de suas mãos, perfeitamente torneadas e a encantadora palidez de seu rosto; o bico de um sapatinho também preto, que a furto tinha escapado por baixo da barra do longo vestido, deixava adivinhar um pé tão delicado como bem-feito.

Na manhã desse dia lera Honorina a carta misteriosa, que com Raquel achara na janela de seu quarto; ela estava pensativa e melancólica.

Apenas Honorina acabava de sentar-se junto de sua avó, seu pai, que ao pé da janela lia com avidez uma extensa carta, voltou-se para elas e exclamou:

— Loucuras sobre loucuras!...

— Eu o previa, disse a velha, ele é um fruto degenerado!... o que diz-nos, portanto, nesse papel?...

— É uma longa história; quer minha mãe ouvi-la?

— Seja: os meus derradeiros dias são votados ao desgosto de ver uma a uma perdidas todas as belas heranças de nossos velhos pais! Ouvirei, pois, a carta desse, que foi o primeiro a ferir-me no coração.

Naquelas palavras ia uma indireta atirada contra Hugo, que, fingindo não entendê-la para não entrar em novas questões com sua mãe, arrastou uma cadeira e, sentando-se perto dela, principiou a ler:

“Meu tio”

Depois de sete longos anos de ausência de minha família, que julgou dever tão completamente esquecer-me, que nem ao menos me quis dar parte da morte de minha adorada mãe, que, sucumbindo um ano depois da minha partida, foi talvez vítima das saudades dum carinhoso filho, horrível e injustamente lançado fora da casa de seus pais, recebi finalmente uma carta de Vossa Mercê, em que me mandou a fatal notícia da morte de meus amados avô e pai; foi, portanto, preciso que a mão da desgraça pesasse sobre nós todos, para que fosse lembrado por aqueles a quem o dever ordenava, que de mim muito se lembrassem. Eu já respondi com todo o sentimento, com toda a dor pungidora da orfandade a essa pungente carta.

“Ultimamente, Vossa Mercê escreve-me de novo, mostrando-se admirado de me não ver chegar ao Rio de Janeiro para tomar conta dos bens que devo herdar de meu avô e de meu pai, os quais, segundo Vossa Mercê diz, devem montar a mais de sessenta contos.

“Meu tio, há sete anos que sofro em silêncio todos os meus infortúnios; há sete anos que engulo os meus gemidos; mas o gemido é a expressão da dor, e tarde ou cedo é necessário que o homem gema, quando o seu padecer é longo e não acaba. Leia, pois, esta carta como se fosse um gemido que estivesse ouvindo, e dê-me o seu perdão, se em algum ponto dela eu abusar da sua bondade.

“Meu tio, declaro que não voltarei ao Rio de Janeiro, que não aparecerei diante de vós nem de minha avó, enquanto lhes não puder provar que foi uma calúnia infame de que se serviram para me perderem, esse crime, que meu pai e todos os meus parentes não duvidarão de julgar-me capaz de o haver cometido.

“Vossa Mercê lembrar-se-á que no fim do ano de 1837 tinha eu feito dezessete anos e concluído os meus estudos preparatórios, quando desapareceu do gabinete de minha prima Honorina, menina então de nove anos de idade, uma cruz, chamada por nós todos — a cruz da família —, toda crivada de riquíssimos brilhantes. Um jovem caixeiro de nossa casa acusou-me de a haver furtado; algumas aparências pareceram justificar essa infame imputação; e, apesar de todos os meus protestos de inocência, apesar do grito saído do coração de minha mãe, que então vivia, e que foi a única que defendeu seu filho, fui lançado fora de casa dos meus maiores e, se escapei das mãos da justiça, foi porque, pensaram eles, cumpria esconder a vergonha de que todos participavam.

“Lembro-me perfeitamente do que então se passou. Meu avô disse: — Vai-te para sempre de meus olhos! e, se tens piedade de nós, muda o teu nome.

“Minha avó disse: — Torne-se em pedra o pão que comprares com o dinheiro pelo qual vendeste os brilhantes da cruz da família. O ladrão não me faça corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim.

“Meu pai disse-me: — Consuma o fogo todas as minhas riquezas antes que tu possas tocar em uma só moeda dos meus cofres.

“E minha mãe disse: — Vai, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar a tua inocência.

“Na sala estavam ainda três pessoas que nada disseram: Vossa Mercê, meu tio, que hesitava; Honorina, minha prima, que nada parecia compreender; Lúcia, que me tinha dado de mamar, e que chorava como minha mãe.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1617181920...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →