Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Filipa — Nada; o comendador acha-se possuído da mais acerba melancolia, e lança olhares fulminadores sobre o coronel Reinaldo, a quem supõe um rival preferido...
Fabiana — Melhor; tornar-se-á, portanto, mais verossímil uma fuga do que um rapto; e o coronel Reinaldo receberá daqui a pouco uma carta que o fará deixar o baile inesperadamente, dando-me ocasião de fazer sobre ele recair as primeiras suspeitas do atentado, enquanto o senhor Frederico se põe a salvo. (A Frederico) E a carruagem?...
Frederico — Já está no lugar determinado.
Fabiana — O cocheiro?...
Frederico — Respondo por ele.
Fabiana — Tudo corre à medida dos nossos desejos: até o velho roceiro teimou em não ficar para o baile.
Frederico — Coitado! Apenas acabou de jantar, deitou a correr para a cidade antes que aparecesse algum máscara: é um montanhês lá de Minas, que ainda tem medo de máscaras!
Filipa — Foi uma pena que não ficasse, tomá-lo-ia à minha conta a noite toda.
Fabiana — E eu digo que foi muito melhor que se tivesse ido embora. Senhor Frederico, que horas são?...
CENA III
Fabiana, Filipa, Frederico e Anastácio, vestido de dominó preto: os três põem as máscaras.
Anastácio — É meia-noite.
Filipa — Que voz! Pareceu-me ouvir o sino grande de S. Francisco de Paula dando horas.
Frederico — Belo máscara, quem és tu?...
Fabiana — Qual belo! Quem és tu, feio máscara!
Anastácio — Todos podem dizer o que foram; poucos os que são; nenhum o que há de vir a ser. O que fui, não vos importa; o que eu sou agora, acabastes de testemunhar; sou o cronômetro vivo que vos anuncia a hora que desejais saber; o que hei de ser ainda hoje...vê-lo-eis.
Frederico — Bravo! É um dominó que toca o sublime.
Fabiana — Mas estás me fazendo raiva; porque sou obrigada a reconhecer que és o primeiro máscara do baile.
Anastácio — Não te desconsoles; tu és a primeira máscara do mundo.
Fabiana — Senhor!...
Frederico (Dando um passo) — Dominó, confundes o espírito com o insulto!...
Anastácio — Às vezes, quando a verdade pode ser um insulto...
Fabiana (A Frederico) — Voltemos à sala...este homem assusta-me...
Filipa (Tomando o braço de Frederico) — Venha, senhor Frederico, venha...
Frederico (Voltando a cabeça para trás) — Encontrar-nos-emos de novo, não?...(Vão-se)
Anastácio (Seguindo-o) — Malgrado vosso, palavra de honra que sim!...
CENA IV
Maurício e Hortênsia. (A música toca uma valsa brilhante; movimento de máscaras. Anastácio, que tem ido até a escadaria, pára, vendo Maurício e Hortênsia; volta, observa-os um momento à distância e retira-se para um dos lados até encobrir-se).
Hortênsia — Maurício...meu amigo...
Maurício — Deixa-me fugir dessa multidão que me exaspera; eu tenho a morte no coração, Hortênsia.
Hortênsia — Silêncio...cuidado...(Olhando) Talvez nos escutem, Maurício.
Maurício (Olhando) — Não...estamos sós...livres de todos...menos da desgraça; sabes que recebi hoje uma carta em que o meu principal credor me previne de que amanhã ao meio-dia em ponto se apresentará apara receber quinze contos de réis ou para entregar-me à justiça, como um vil estelionatário?...pois bem: ainda há pouco no meio da confusão e do tumulto, uma voz soou a meus ouvidos, e disseme: “Amanhã ao meio-dia, Maurício!...”
Hortênsia — E essa voz...
Maurício — Não sei de quem foi: olhei e vi-me rodeado de máscaras: ouvi zombarias e gargalhadas: zombariam de mim?...Rir-se-iam de mim, Hortênsia?..oh, isto é horrível!...Estas músicas soam a meus ouvidos como um canto infernal; este ruído me ensurdece...eu enlouqueço!...Hortênsia!...Hortênsia!...dize-me uma palavra de esperança...uma palavra que me faça esquecer essa ameaça sinistra: Amanhã ao meio-dia, Maurício!...”
Hortênsia — A nossa situação tornou-se realmente grave: Leonina tem desde ontem tratado com azedume e até com desprezo ao comendador...
Maurício — Meu Deus! E que recurso então nos resta?...
Hortênsia — Lancei mão do último. Acabo de expor à nossa filha as circunstâncias desesperadas em que nos achamos; apelei para a sua generosidade, e conto vencer a sua repugnância: pediu-me dez minutos para refletir, e eu corro, porque é tempo de receber a sua resposta a fim de comunicá-la já ao comendador.
Maurício — O sacrifício da vida inteira e da felicidade de Leonina?...oh!...o luxo! A vaidade! Eis aí as suas conseqüências!...
Hortênsia — Nossa filha há de ser feliz, eu te afianço...
Maurício — Não pareces mãe, Hortênsia!...
Hortênsia — Maurício, é a primeira vez que me maltratas.
Maurício — Oh! perdoa-me! Eu não sei o que digo...minha cabeça desgoverna...salva-me, Hortênsia...
Hortênsia — Sossega e confia em mim; mas onde encontrarei agora Leonina?...
CENA V Maurício, Hortênsia e Anastácio, sempre de dominó.
Anastácio — Meditando e a chorar junto à última janela da galeria. (Vai-se)
Maurício — Esta voz!...quem é este máscara?...
Hortênsia — Sabê-lo-emos depois; agora cumpre salvar-nos. (Vai-se)
CENA VI Maurício, só
— Continua a música alegre.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.