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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

E, apresentando a larga mão, apertou com tal forca as de Cirino e Pereira que lhes fez estalar os dedos.

Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objetos que trazia a tiracolo, colocando-os cuidadosa e metodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam rodeando.

Na verdade, digna de reparo era aquela figura à luz da bruxuleante vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabelos quase brancos, de tão louros que eram.

—Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cirino a Pereira.

—Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão bem limpo!

Entrara José com uma canastra ao ombro e, descarregando-a no canto menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importância da pessoa que lhe servia de amo.

—O Senhor aqui é doutor, disse ele apontando para o alemão e dirigindo-se para Cirino...

—Doutor?! exclamou este com despeito.

— Sim, mas doutor que não cura doenças. É alamão lá da estranja, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro caçando anicetos e picando borboletas...

— Borboletas? interrompeu com admiração Pereira.

— Acui cui! Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem... aquele saco que ele traz...

—O meu camarada, avisou com toda a tranqüilidade e pausa o naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciência... Ande, Juque, deixe de tagarelar! ...

—Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida... Então o Senhor vem matando anicetos? mas para que, Virgem Santíssima! . . .

—Para quê? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá para as terras dele... —Depois o país fica sem borboletas, respondeu Cirino, num assomo de despeitado patriotismo.

—Mas, como é que o senhor se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o alemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios lepidópteros, da espécie dos esfinges.

—Juque, disse ele sem lhe importar a interpelação e acenando para o camarada, depressa... um alfinete, dos grandes... dos maiores: . .

—Temos história, avisou José, fazendo expressivo sinal a Cirino, o senhor vai ver...

O naturalista, de posse de um comprido acúleo, fincou-o com segura e adestrada mão bem no meio do inseto, o qual começou a bater convulsamente as asas e girar em torno do centro a que estava preso.

—A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, Juque.

Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde ia estavam enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.

— É uma satúrnia ... e não comum, murmurou o alemão fisgando num pedaço de pita o novo espécime, sobre o qual derramou algumas gotas de clorofórmio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.

—O senhor é viajante zoologista, não é? perguntou Cirino, depois que viu terminada a operação.

O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:

— Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o senhor o soube? Viajante naturalista, sim senhor! Eu vejo que o senhor e muito instruído... Muito bem, muito bem! Muita instrução!

E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.

—Ah! este também e doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.

—Oh! Doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra ?

—Sim, senhor, respondeu com gravidade o próprio Cirino. — Ah! ... Ah! muito bem.

Pereira, porém, voltara à carga.

—Mas, como é que o senhor se chama?

—Meyer, respondeu o alemão, para o servir.

—Mala? perguntou o mineiro.

— Não, senhor, Meyer; sou da Saxônia, da Alemanha.

—Isto deve ser o mesmo que Mala na terra dele, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.

O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem-cerimônia alguma intrometeu-se na conversação.

—Este Mochu, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de barboletas, e com o negócio ganha coco grosso... Quanto a mim — Juque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animais no pasto.

—Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia, roerão o que acharem; há por aí muito resto de milho nos sabugos...

—Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este alamão, que é um homem muito de bem.

— É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.

Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sinal gutural que ecoou em toda a sala.

—Ele o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo, sempre: Mochu, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira à-toa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Também a gente anda por estas estradas afora como se fosse alma do outro mundo a penar... algum currupira... ou boitatá ...

Cruzes!

—Pois, senhor Mala, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua... Se quiser uma rede...

—Muito obrigado, muito obrigado!... minha cama é canastra. Não se incomode...

(continua...)

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