Por Visconde de Taunay (1871)
Assim, pois, tomou o comandante a resolução de manter, por algum tempo, na Bela Vista; e numa expedida pelo viajante Joaquim Augusto, que determinou que a Nioac lhe enviassem munições, a bagagem dos soldados e o arquivo da coluna. Avisara aos oficiais que, a seu turno, deviam mandar vir tudo quanto haveriam de precisar para uma assaz larga estada. Mas a falta de gado tornava insustentável a própria posição de Bela Vista. Começávamos a sentir a penúria nas distribuições de viveres. Era preciso sem mais detença procurar uma solução ou avançar na esperança de bater o inimigo, que, à nossa frente, não podia ter grandes contingentes, visto como a guerra ao Sul da República para ali atraíra a maior parte das suas forças (e então, após algum feito feliz, teriam as nossas patrulhas mais largo raio de ação sobre o gado errante nas campinas); a não ser assim convinha retrogradar para os distritos da fronteira, menos desprovidos de recursos.
Esta alternativa, semelhante opção, veio por completo arrancar a calma ao nosso comandante. Tornou-se-lhe a agitação do espírito visivelmente violenta. Pôsse de novo a imaginar a calúnia a abocanha-lo em toda a província de Mato Grosso, sobretudo na capital, e assim, pois, como a refletir, em voz alta, deixava escapar exclamações que debalde tentava sufocar: "Por toda parte me atassalham, dizia, apregoam que até agora nunca tivemos encontro sério com o inimigo e apostam que jamais o teremos".
Nesta perturbação e à falta de dados exatos para a escolha de um alvitre, os refugiados, indiretamente consultados, começaram, com maior insistência do que até então o haviam feito, a falar de uma fazenda chamada Laguna, cerca de quatro léguas de Bela Vista, pertencente aos domínios do Presidente da República e destinada à criação do gado.
Ali acharíamos, afiançavam, grandes rebanhos, posições firmes e base para operações. Depois, como esta sugestão não parecesse desgostar ao Coronel, vários oficiais que o cercavam, e a quem parecia consultar, deixaram convencer-se. "Por que, exclamaram, não haveremos de ir até Concepción como nos desafiam? Viemos parar tão longe para recuar? Contanto que possamos contar com um quarto de ração, não há um único soldado que hesite em seguir os chefes, e com eles não deseje tentar a fortuna do Brasil".
À testa dos mais ardentes via-se o capitão Pereira do Lago, oficial tão ousado quanto positivo e obstinado. Dotado desta coragem que facilmente se exalta, e jamais decai do nível a que se alçou, coube-lhe, certamente, a maior responsabilidade nas nossas temeridades. Mas, também, soube sempre, mais tarde, nos transes mais difíceis de nossa retirada, fazer frente a todas as necessidades do momento, pela atividade, poderosa iniciativa e perspicácia do descortino, grandes qualidades que lhe vinham realçar a doçura, a singeleza e o bom gênio.
CAPÍTULO IX
Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionário. O mascate italiano. O major José Tomás Gonçalves. Surpresa e tomada do acampamento paraguaio da Laguna.
Acabara o coronel Camisão de determinar que marcharíamos sobre a Laguna. A 30 de abril levantamos acampamento para estacar á margem do Apa-Mi, ribeirão que dista uma légua do forte da Bela Vista.
Pareciam os soldados ressentir-se da insuficiência do rancho. Corria a marcha silenciosa e como ensombrecida pela tristeza. Para a animar ordenou-se que os cornetas de todos os corpos alternadamente tocassem; e a tropa gostou disto. Era como um desafio, uma provocação lançada aos paraguaios, que de longe viam seguir a coluna.
Avançavam os nossos diferentes corpos em quatro divisões distintas, formadas na previsão dos ataques de cavalaria que, com efeito, deveríamos esperar. Em conselho de guerra, anterior á nossa ocupação de Bela Vista, fizera o Coronel adotar uma ordem de marcha apropriada à feição da zona atravessada e da campanha. Propusera, ao mesmo tempo, duas disposições de defensiva para duas hipóteses: de planície descampada, ou coberta de capões de mato, combinações de grande simplicidade que, na prática, nos prestaram grandes serviços, obstando qualquer confusão ao se travarem os combates. Se, realmente, foram em geral as cargas da cavalaria inimiga frouxas e impersistentes, é de se supor, contudo, que o seu único fito não vinha a ser simplesmente avaliar-nos a resistência. Poderia um primeiro momento de hesitação, ser sempre decisivo e trazer-nos o completo destroço.
No caso, pois, em que estivéssemos pelas proximidades de alguma moita, ou cerrado, ou ainda de algum ribeiro, devíamos convergir para este amparo natural, nele apoiar as carretas de munições e de feridos, com as bagagens, e cobrir-lhes a testa com uma curva formada pelas quatro divisões da coluna, levando cada uma a sua boca de fogo. Em campo raso e desabrigado formariam estes corpos, sempre alternados com as peças, quadrado em volta do nosso material. Em todo o caso deviam os comandantes ser avisados pelos ajudantes-de-campo ou por próprios, da formatura escolhida, de acordo com as circunstâncias.
Primeiro de mato. Após uma noite tranqüila recomeçamos a marcha, e sem incidente, até a fazenda da Laguna, a localidade designada pelos nossos refugiados do Paraguai. Ali havia, então, apenas uma choupana de palha que o inimigo, retirando-se, desdenhara incendiar. Ao chegarmos vimos um dos nossos soldados dirigir-se ao nosso encontro trazendo um papel que achara pregado, com um espinho, ao tronco de uma macaubeira; variante da primeira ameaça em verso. Dirigida ao comandante, assim dizia: "Malfadado o general que aqui vem procurar o túmulo; o leão do Paraguai, altivo e sanguissedento, rugirá contra qualquer invasor".
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.