Por Franklin Távora (1879)
Ângelo nada respondeu. O que fez foi volver sobre seus passos sem demora. Maurícia e Virgínia tinham já desaparecido nas sombras da estrada.
CAPÍTULO VIII
Eugênia, vendo Sinhazinha entrar, levantou-se, foi ao seu encontro e, tomando-lhe o braço, encaminhou-se com ela para junto do salgueiro.
Aí estavam a conversar à meia voz, quando uma escrava de D. Rosa lhe entregou um papel. Era a carta de Maurícia.
Eugênia, na porta da casa, leu à luz que da sala se projetava até o pátio, as palavras seguintes:
“Minha querida irmã,
Mal sabia eu que no meio da maior ventura que ainda encontrei na terra, reapareceu o dragão que já devorou os meus últimos bens e agora se propõe a devorar a minha existência.
Fujo dele como quem foge de um mal mortífero. Não te canses em comunicar-me sua chegada. Eu já sei que ele está na terra. Fui eu a primeira que o vi; não; foi meu coração atemorizado, que adivinhou.
Mas defende a minha causa como se fosse tua.
Estas palavras vão ser-te entregues agora mesmo. Naturalmente, hás de lêlas, tendo o meu algoz a olhar para ti.
Rogo-lhe que digas que eu o detesto hoje mais do que nunca.
Tem coragem, minha irmã e amiga, para arrostar com o espectro que me persegue, ameaçando empolgar-me com suas garras que já uma vez me puseram as carnes em sangue.
Não lhe digas onde eu moro, e seja teu particular empenho em dissuadi-lo de se aproximar de mim e tentar uma reconciliação, que tenho por impossível.
Falta-me tempo e espaço para dizer-te tudo o que meu coração sente há um quarto de hora.
Virgínia manda-te um beijo em despedida; eu mando-te lágrimas. Tua irmã e amiga”
Maurícia.
Quando Eugênia terminou a leitura destas linhas, Bezerra acabava de contar o que se passara entre ele e Albuquerque no engenho.
Martins ouvira-o atento. silencioso, sem mudar a vista. Não o conhecia. Era aquela a primeira vez que lhe falava. Quando recebera o seu retrato, enviado do Pará por Maurícia alguns dias depois do casamento, Martins dissera como fisionomista experiente: “Esta cara não é a de um homem de bem”. Agora, ouvindo o original falar com ares de contrito, vendo-lhe no rosto estampado certa expressão de quem sentia mágoa íntima, disse consigo: “Neste homem, há, pelo menos, um grande arrependido”.
Ângelo sentara-se em uma cadeira de balanço que ficava afastada da mesa, ao lado da qual estavam os dois homens conferenciando. Estava pálido, comovido. Ouvira as últimas palavras de Bezerra, tocantes à sua entrevista com Albuquerque, e conheceu que corria risco o sossego de Maurícia. Isto o consternou por extremo. Mas, que fazer?
— O que mais me está custando é não ver minha mulher e minha filha, observou Bezerra.
Martins ia falar, quando Eugênia, penetrando na sala, disse:
— Maurícia, não sabendo que o senhor estava aqui, retirou-se com Virgínia. — Retirou-se! — exclamou Bezerra com espanto.
E acrescentou logo:
— É singular. Eu tinha que a má fortuna já me havia deixado de mão; mas, enganei-me; vejo agora que ainda conspira contra mim.
Martins interveio:
— Minha cunhada há de voltar. Veio passar com a irmã o dia dos seus anos, e não é natural que se retire, antes de terminado o dia, sem se despedir de nós.
— Maurícia não volta, acudiu Eugênia. Escreveu-me, dizendo que um súbito mal-estar de Virgínia a obrigara a tornar ao engenho.
Ouvindo estas palavras, não pode Bezerra ocultar o seu desgosto.
— Vejo, Sr. Martins, que minha mulher foge de mim. Mas... perdão! disse, moderando a voz, ao dar com os olhos em Ângelo e Sinhazinha que entrara. Parece que tudo isso se deve antes atribuir a ser inoportuno o momento de apresentar-me do que à recusa formal de um dever. Eu procurarei ocasião oportuna. A casa está em festa, e eu sou de mais entre os que devem tomar parte nela. — Não é de mais. Fique, disse Martins.
Volvendo os olhos a Eugênia, que se conservava silenciosa, Bezerra respondeu:
— Preciso falar-lhe, Sr. Martins, quando estivermos desacompanhados de qualquer testemunhas. Voltarei, amanhã, e rogo-lhe que indique a hora que lhe parecer mais conveniente para a nossa conferência.
— Venha jantar conosco. Depois do jantar, conversaremos.
No dia seguinte, por ocasião de Martins sentar-se à mesa para almoçar, vieram trazer-lhe uma carta. Era de Maurícia. Dizia:
Sr. Martins,
Passei a noite em claro.
Não sei como ainda tenho forças para lhe escrever, tal é a prostração em que estou.
Mas a desgraça não tem piedade, não se condói de suas vítimas.
Estou resolvida a divorciar-me por justiça.
Venho por isso pedir-lhe que se entenda com algum advogado de sua confiança para defender os meus interesses.
Todas as economias que durante estes três últimos anos pude realizar ficam à sua disposição para qualquer despesa com a causa.
Eugênia que não se esqueça de mim.
Sua cunhada e amiga
Maurícia
Martins, passando a carta à mulher que estava sentada a seu lado, disse, não sem desgosto.
— Isto não pode ir assim.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.