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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Lourenço voltou do engenho perdido por ele. A festa tornara-o expansivo e contador de historias, tudo o que com ele se passara, e o que vira, foi referido circunstancialmente a Marcelina, não esquecendo o menino nem as quedasde-corpo que pegará com outros meninos na bagaceira.

- Se meu pai tivesse um engenho, a coisa havia de ser outra – dizia ele de quando em quando no curso da narração.

- E porque não há de ter? inquiriu Marcelina. Se tu nos ajudares, no fim de alguns anos poderemos comprar uma engenhoca, ou ao menos um torcedor. Do torcedor vai á engenhoca, e da engenhoca ao engenho. Tu bem vês que todos nós trabalhamos. Onde está Francisco? Foi á vila vender abacaxis. Eu, como vês, estou fazendo minhas esteiras para ele levar a quem as encomendou aqui adiante, na encruzilhada. Só tu não trabalhas ainda. E queres um engenho! Sem trabalhares não hás de ter nem de comer nem de vestir, quanto mais engenho.

Pensando consigo só, Lourenço levantou-se sem dizer palavra, deu volta pelo sitio, e tornou á salinha da casa, que era a oficina de Marcelina. Esta o viu arrastar um tamborete para junto dela e uma rodilha de cipós para junto de si. Sentando-se no tamborete, o menino cortou os cipós pelo modo e medida que Marcelina lhe ensinou, e hei-lo a trabalhar pela primeira vez depois da sua chegada ao Cajueiro.

Vendo-o exercitar tão vem a sua atividade espontaneamente, como tocado de celeste inspiração, Marcelina não pôde suster as lagrimas. Lourenço, a seus olhos, acabava de dar testemunho de emenda, resultado da constância e paciência com que ela o dirigia para o bem desde o dia de sua chegada.

Estava de feito ali uma conquista do seu esforço abençoado por Deus, inquebrantável esteio dos crentes.

VII

Uma manhã encaminhou-se Lourenço á mata, armado com um facão afim de cortar sambaquis de que precisava para umas gaiolas, que lhe tinham encomendado. Este serviço ele o costumava realizar nas horas vagas. Trabalhar já era uma lei de seu espirito. Adquirir meios de comprar um engenho foi idéia que nunca mais o abandonou, antes constituiu a sua primeira e mais forte ambição. Por isso não perdia tempo, ou antes Marcelina o não deixava perder.

Tinham já passado muitos meses depois dos primeiros acontecimentos referidos nos capítulos anteriores. Colocado em novo centro e sujeito a novas leis morais, Lourenço avançava admiravelmente na requesta do bem, despertando cada dia em seus pais, por seu procedimento , novas esperanças e sendo para eles origem de inefáveis satisfações.

A transformação era obra das mãos deles, na qual se reviam não sem justo orgulho, como na fonte limpa, outr’ora charco, se revê o que lhe tirou as imundícies.

Por isso Lourenço era já, não somente estimado mas acariciado pelos dois consortes, que o consideravam o futuro esteio da casa, de seu natural fraca, o amigo e protetor deles, quando velhos, de seu natural forte.

A esse tempo não era a habitação de Francisco a única existente na estrada do Cajueiro. Obra de trezentas braças para o sul via-se outra de melhor parecer, de paredes de pedra e coberta de telha. Pertencia a um padre que, tendo por ali aparecido não se sabia como nem porque, fora convidado pelo sargento-mór João da Cunha para capelão do engenho. O padre Antônio escolheu aquele local para sua residência, desprezando uma boa morada que o senhor do engenho possuía dentro do cercado, e até a residência que lhe ofereceu na própria casa grande. Escolhido o local e feito o prédio, o padre chegou-se a João da Cunha e lhe disse que de há muito cumpria o voto de só morar em propriedade que fosse sua, e por isso lhe pedia declarasse por quanto vendia, com os respectivos terrenos, a casa feita. O sargentomór, que achará aquilo singular, e enxergará no ato inocente do padre um assomo de independência e altivez, não querendo por vaidade própria da nobreza daqueles tempos ficar por baixo, declarou que lhe dava de mão beijada casa e terrenos, e disso se lavrou termo.

O novo vizinho foi recebido com alvoroço pela família do Cajueiro. Quem era que por então não tinha em alta estima o sacerdote da religião santa do Crucificado?

Francisco, saltando de contente, para me servir da frase do povo, dizia a Marcelina que dava mostras de sentir dobrado prazer com a nova vizinhança.

- Bem-dita foi a hora em que abri meu sitio nesta estrada. Olhe lá como o Cajueiro está honrado. E daqui a pouco já não haverá quem não queira vir levantar sua casa aqui por perto. Basta saber-se que o capelão de Bujari quis antes morar no Cajueiro do que no engenho, para todo o povo correr para este ponto.

- É verdade, Francisco, é verdade, respondeu Marcelina. Temos agora bem perto de nós quem nos confesse e unja em caso de morte, o que Deus tal não permita.

- E que gloria tenho eu de se dizer que fui eu que fundei o Cajueiro! acrescentou o matuto. Se ele não prestasse, não havia de querer morar nele o capelão do engenho. O que eu quero é que a todo tempo se saiba que fui o

(continua...)

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