Por Franklin Távora (1876)
Notou-se também uma espécie de moderação, ou de suspensão de hostilidades, ou ao menos de cessação de crueldade nestas, de parte dos salteadores em certas quadras do ano, durante as quais não figuravam nos acometimentos nem o Cabeleira nem seu pai. Daí se inferiu, com todo o fundamento, que os dois matadores não limitavam as suas correrias àquelas redondezas, mas, que pelo contrário, deixando os seus esconderijos, visitavam novos termos, percorriam outros lugares, como os selvagens mudam de região quando, na que preferiram para a sua transitória residência, não encontram mais com que alimentar a sua indolência e bárbara voracidade.
Esta conjuntura foi dentro de pouco tempo confirmada pelos clamores que se levantaram nas freguesias e termos vizinhos, e nos lugares remotos aonde o Cabeleira e seu pai foram levar o assombro e o terror de que já tinham enchido a província natal. As pacíficas ribeiras do rio Paraíba e do rio Grande do Norte, os engenhos, povoações e vilas das duas províncias, que trazem os nomes destes dois grandes rios, começaram a pagar, como as ribeiras do Capibaribe, e as propriedades rurais e os pontos populosos de Pernambuco, o terrível imposto a que por mais de uma vez nos temos referido no correr desta narrativa. Os bandos dos salteadores escolheram para centros das suas operações as matas próximas dos rios, as catingas pegadas aos caminhos donde podiam facilmente espreitar e acometer a seu salvo os inofensivos viajantes que, com o fruto do trabalho honesto e da indústria esforçada, deixaram muitas vezes nessas medonhas solidões o seu sangue, a sua própria vida.
Cresceram a par a idade de Luisinha e o nome odioso do Cabeleira, nome que, principiando como um boato ou uma dúvida, se foi de dia em dia condensando e se constituiu afinal uma fama que ecoou, com os uivos das feras carniceiras do sul ao norte, do sertão ao litoral, engrossando sempre com as novas façanhas, como um fraco regato acrescenta o volume das águas e se faz rio caudal com os subsídios que cada dia recebe em sua longa e demorada passagem pelo deserto.
Do fundo da obscuridade, que envolvia a sua existência, a menina acompanhou com os olhos inundados de lágrimas as fases sucessivas que atravessou esse nome destinado a ter uma página enlutada na história da pátria. E que bem dentro no seu coração estava a imagem do companheiro de infância a quem ela nunca pôde esquecer, ainda quando esta imagem lhe aparecia, como tantas vezes aconteceu, envolta em uma nuvem de sangue, e acompanhada de uníssonas maldições.
A notícia de um novo atentado cometido pelo moço que por uma lei natural da imaginação sempre se lhe representava com as feições do menino de outrora, Luisinha sentia no coração uma dor semelhante à que produz a dentada de uma serpente.
No terço, que se rezava de noite em casa de Florinda; na missão que o coadjutor celebrava de madrugada: em qualquer ocasião própria para elevar o pensamento às regiões onde flui a eterna fonte das consolações em cujas águas se retemperam das dores da vida os espíritos resignados e crentes, a pobre moça tinha sempre uma oração para que Deus abrandasse a natureza de José e o tornasse, pela contrição e pela emenda, digno do perdão da sociedade. Ela não podia crer que, tendo sido esta tantas vezes indulgente para outros criminosos, fosse inexorável para o mancebo que por algum tempo andara apartado do caminho do dever. Pobre, ingênua e crédula criança !
Mal sabia que, para grande lição da sociedade do futuro, estava escrito que o cometa que assim abrasava a terra percorreria a vastíssima órbita que a Providência lhe traçara, e se afundaria nos espaços, não entre refulgentes auroras, mas dentro de profundas e medonhas escuridões.
Uma tarde Luisinha foi buscar água no rio Tapacurá, que banha a cidade da Vitória, então povoação de Santo Antão, à qual pertencia Glória de Goitá donde era natural o Cabeleira. Santo Antão distingue-se na história pernambucana pela circunstância de lhe estar próximo o Monte das Tabocas no qual se verificou em 3 de agosto de 1645 a batalha que iniciou a insurreição portuguesa contra o domínio holandês, e exercitou direta e decisiva influência no futuro político, comercial, industrial e religioso do Brasil. Esta memorável batalha, depois de seis longas horas de fogo, declarou-se em favor dos nossos primeiros dominadores. Em comemoração deste acontecimento, uma lei provincial de B de maio de 1843 erigiu a antiga povoação em cidade a que chamou da Vitoria como acima se vê.
O Tapacurá, que de inverno tem enchentes formidáveis, estava então cortado pelo rigor da seca de que tratamos no capítulo anterior. No seu largo leito viam-se unicamente, a espaços como de ordinário, pequenos poços onde os habitantes mal achavam água para o consumo diário.
Luisinha, não querendo levar para a casa água chafurdada, passou pelos primeiros poços, já muito remexidos, e foi encher a sua vasilha em um que distava pouco menos de quarto de légua da povoação.
O poço ficava à beira de um capão de mato. De um lado o terreno elevava-se gradualmente, e acidentava-se mais adiante, formando ziguezagues quase inacessíveis e esconderijos escuros, a que a espessura das árvores dava um aspecto medonho. Do lado oposto a margem plana, igual e descampada, formava com a banda fronteira um admirável contraste.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.