Por Bernardo Guimarães (1872)
Portanto, no dia seguinte pela manhã Eugênio apressou-se em ir pagar a visita às suas boas vizinhas. Era em princípio de outubro; a manhã estava risonha e brilhante, as primeiras chuvas já tinham lavado os horizontes desse vapor fumacento que os abafa nos meses de agosto e setembro, e que, desbotando-lhes as cores e confundindo-lhes as formas, os envolve como em um véu místico de saudade e melancolia. O ar estava tão transparente, o céu era de um azul tão puro e límpido, que permitiam ver distintamente em toda, a sua nitidez as formas e ondulações das últimas colinas nos mais remotos longes. O sol cintilava sobre o tapete orvalhado dos espigões, e a fresca aragem da manhã sacudia da coma das árvores as lágrimas da noite.
À medida que se ia aproximando da casa de Umbelina, à vista daqueles sítios, onde não havia uma, árvore, uma restinga, que não tivesse recebido os vestígios de seus passos, uma fonte ou arroio que não lhe tivesse lambido os pés ou umedecido os lábios sequiosos, ia-se cada vez mais exaltando na imaginação de Eugênio a viva e profunda impressão que na véspera nele deixara a presença de Margarida. Era a encantadora e pitoresca moldura que circundava, a imagem de um anjo.
Aquela, alva casinha atufada entre as ramagens da grande figueira, silvestre, aquele vargedo coberto de fresca e macia grama, a ponte, a tronqueira, as paineiras vizinhas, o caminho da vila, que ia serpeando entre os capões e galgando de colina em colina, todo esse panorama o enlevava, e lhe afogava o coração num pego de mil suaves emoções.
O rumorejo daquelas folhagens, o murmúrio daquele córrego, o canto dessas aves, o eco dessas brenhas, como que lhe sussurravam ao ouvido um hino de amor, de felicidade e de esperança.
Todos aqueles seres eram também seus conhecidos, seus amigos de infância, que festejavam sua volta, e com ela exultavam de prazer.
Como respirava à larga o peito do mancebo através dos campos e colinas da terra natal! que bálsamo salutar e vivificante lhe entornavam na alma aquelas auras impregnadas de aromas silvestres, que lhe bafejavam a fronte e brincavam com seus cabelos!
Quão tristonhos e acanhados lhe pareceram então os horizontes e os outeiros de Congonhas do Campo à vista das risonhas campinas e largas perspectivas da fazenda paterna! como lúgubre e sombria se lhe afigurava a fachada do seminário em comparação do aspecto faceiro e festival da casinha da tia Umbelina!
Adeus, seminário!... adeus, místicas e devotas veleidades! adeus, rezas e penitências!... adeus, projetos eclesiásticos e sacerdotais! tudo isso fugiu-lhe de roldão da fantasia, como um bando de corujas, fugindo espavoridas da lôbrega caverna, onde o sol enfiou de chofre uma réstia de luz viva.
Eugênio sentia reverdecer em seu seio a flor da pura e inocente afeição da sua infância e aspirava-lhe os últimos e inebriantes perfumes.
Margarida, que já esperando Eugênio o tinha avistado de longe, foi ao seu encontro na ponte das paineiras. Ali, à vista daquelas mudas testemunhas de todos os seus brinquedos de infância, todo o seu medo e acanhamento esvaeceu-se como a névoa da montanha ao sopro da brisa matinal. Quando chegaram à casa de Umbelina com semblante risonho e as mãos entrelaçadas, já toda a afeição e intimidade entre eles estavam restabelecidas no antigo pé.
Eugênio soube retribuir com usura as visitas que lhe fizeram as vizinhas; ficou o dia inteiro em casa delas.
À tarde, depois de ter Eugênio desenferrujado a língua em plena liberdade, contando-lhes todas as particularidades da sua vida de seminarista, e de ter Margarida esgotado os capítulos da crônica de casa durante a ausência do seu amigo, esta convidou Eugênio a passear.
Sem que tivesse precedido ajuste algum, os passos dos dois adolescentes se encaminharam instintivamente para o sitio favorito de seus brinquedos de outrora e dirigiram-se através do vargedo para a ponte das paineiras. Chegados ali, Eugênio encostou-se ao tronco de uma das paineiras, e de braços cruzados ali ficou por alguns instantes silencioso e pensativo. A lembrança das horas de puro e inocente prazer, que ali outrora havia fruído em companhia de Margarida, se elevava como um perfume do íntimo do coração, e remontando ao espírito o envolvia como em um ambiente de odor e suavidade.
— Que está aí a cismar? — disse Margarida, sacudindo-lhe o braço. — Volte-se e veja o que é que está aí na casca dessa paineira e daquela também.
Eugênio reparou para o tronco das duas paineiras, e viu neles entalhados em um a letra E, e no outro a letra M.
— Eugênio e Margarida! — exclamou ele. — Aposto que é isto que querem dizer estas letras.
— É isso mesmo; adivinhou. Fui eu que fiz essas letras aí com a ponta de um canivete.
— Que bonita lembrança você teve! eu também no seminário às vezes tive essa idéia, quando estava traduzindo Virgílio... se você soubesse latim, eu havia, de jurar, que já leu aquele autor...
"Crescent illae, et vos crescetis, amores."
— Não entendo nada desses latinórios; o que sei é que esta árvore sou eu, e essa lá é você. Assim como elas nasceram aqui juntas e juntas hão de morrer, assim desejo que aconteça a nós dois, que também nascemos perto um do outro e fomos criados juntos. Nós também havemos de viver juntos como estas duas árvores, entrançando no ar os ramos uns nos outros, não é assim, Eugênio!
— Quem dera, Margarida!... se Deus permitisse isso era tão bom!... mas... eu sei?...
— Há de permitir; por que não? que necessidade temos nós de nos apartar um do outro?
— Mas eu não sou senhor de mim, Margarida; hei de fazer o que o meu pai mandar.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.