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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Gonçalo, recolhido em um dos compartimentos da taba do cacique, foi ali deitado sobre um leito de macias peles e confiado aos cuidados de Andiara, o mais venerável e mais sábio dos pajés, e que primava na arte de curar golpes e toda a qualidade de enfermidades. Guaraciaba prestou-se graciosamente a auxiliá-lo, e quis ser ela mesma com encantadora solicitude a enfermeira do prisioneiro ferido. Andiara examinou com atenção o corpo de Gonçalo, e reconhecendo que a vida ainda não o tinha de todo abandonado, administrou-lhe os primeiros cuidados e concebeu esperanças de salvá-lo.

Inimá, sombrio e cabisbaixo, retirou-se no fundo de sua taba, ruminando na mente as cruéis palavras de Oriçanga e entregue aos mais sinistros pressentimentos.

Enquanto Gonçalo sem sentidos jaz entre a vida e a morte, entregue aos cuidados do pajé e da mimosa Guaraciaba, vejamos o que fizera ele depois da horrível e encarniçada luta em que matara seu amigo, e por que série de acontecimentos viera ele cair nas mãos dos ferozes Chavantes.

Gonçalo, crivado de graves e profundos golpes e perdendo muito sangue depois daquele furioso e desesperado combate, desatinado e torturado pelas dores do corpo e pelas tormentas da alma, dirigiu-se o mais depressa que pôde para sua casa. Aí tratou de estancar o sangue das feridas e pensá-las à pressa e do melhor modo que pôde; e como ali mais do que em outra qualquer parte estaria em perigo a sua segurança, arrecadou todo o dinheiro e objetos de valor que pudesse levar consigo, e sem nada dizer a seus domésticos, abandonando a casa, escravos e haveres de toda espécie, montou de novo a cavalo, e tomando por trilhos escusos e desconhecidos com grande dificuldade pôde chegar exausto de força e quase desfalecendo à casa de um velho caboclo, que lhe era muito afeiçoado e que habitava um miserável ranchinho escondido entre matos em um sítio retraído e ignorado. Aí esteve por muitos dias oculto curando-se de suas feridas e recuperando suas forças. Por felicidade o caboclo era grande curandeiro, e graças aos remédios que aplicou, e que consistiam em ervas e raízes silvestres, cujas virtudes conhecia, ao zelo e dedicação com que tratava o seu jovem hóspede, e à admirável robustez da organização de Gonçalo, este viu suas feridas irem-se prontamente cicatrizando, e seu vigor e saúde de dia a dia restabelecerse.

Entretanto em seu obscuro esconderijo Gonçalo não podia estar muito tranqüilo. A justiça de Goiás ativava diligências sobre diligências para descobri-lo. As milícias e esbirros passaram algumas vezes por perto do pobre rancho do caboclo sem a mais leve suspeita de que ali se achava aquele que com tanto afã procuravam por toda a parte, e muitas vezes Gonçalo em seu leito de dores tinha de escutar as ameaças, pragas e maldições com que aqueles homens o acabrunhavam. O matreiro caboclo os acompanhava na ladainha das imprecações, dando a todos os diabos o nome de Gonçalo, a quem mimoseava com os mais horripilantes epítetos, chamando-o de Satanás, tigre, canguçu, etc.

Outras vezes dando falsas informações e indícios por ele mesmo excogitados iludia e desorientava completamente as diligências.

Por sua parte também as inumeráveis vítimas das valentias de Gonçalo, que lhe guardavam secreto rancor, e os amigos de Reinaldo, que os tinha muitos e dedicados, desejosos de vingá-lo, procuravam Gonçalo por toda a parte e faziam altas diligências para descobri-lo, dispostos a fazer pronta justiça por suas próprias mãos.

A vida de Gonçalo andava pois pendente de um fio.

Ele portanto, que avisado pelas próprias patrulhas que o procuravam, não ignorava estas circunstâncias, logo que se sentiu com algumas forças e em estado de poder montar a cavalo, depois de ter agradecido e remunerado generosamente os serviços do bom caboclo, desapareceu, e dirigindo-se para os sertões do norte, embrenhou-se pelas matas que demoram entre a Serra Geral e o rio Tocantins.

Sozinho naqueles ermos sem recurso, vivendo de frutos silvestres, de mel e de caça mal assada e sem adubo algum, pedindo raras vezes furtivamente agasalho em alguma pobre choupana, sofrendo trabalhos e privações, a que só sua robusta compleição podia resistir, foi-se entranhando de mais em mais pelos sertões, procurando fugir para bem longe de uma terra que se lhe tornara odiosa, e cuja lembrança lhe oprimia o coração como um pesadelo. Com as mãos manchadas no sangue de um amigo, a quem perfidamente assassinara, com a alma atassalhada de remorsos e em um sombrio desespero, vagava a esmo pelos desertos esperando morrer às garras de alguma fera ou entre as mãos dos gentios, se não sucumbisse à mortal tristeza que por dentro o corroía.

Assim vagou por muito tempo até que chegou às margens do Tocantins, onde sendo bem acolhido entre uma tribo de índios Coroados, foram-se com o tempo acalmando as angústias que o flagelavam, viveu largo tempo entre eles, adotou os seus costumes, aprendeu a sua língua, e já por sua inteligência, já por sua grande força e destreza no manejo de armas de qualquer espécie, gozou de grande respeito e prestígio entre eles.

Decidido a romper completamente com a sociedade dos homens

(continua...)

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