Por Bernardo Guimarães (1875)
As outras escravas a contemplavam todas com certo interesse e comiseração, porque de todas era querida, menos de Rosa, que lhe tinha inveja e aversão mortal. Em duas palavras o leitor ficará inteirado do motivo desta malevolência de Rosa. Não era só pura inveja; havia aí alguma coisa de mais positivo, que convertia essa inveja em ódio mortal.
Rosa havia sido de há muito amásia de Leôncio, para quem fora fácil conquista, que não lhe custou nem rogos nem ameaças. Desde que, porém, inclinou-se a Isaura, Rosa ficou inteiramente abandonada e esquecida.
A gentil mulatinha sentiu-se cruelmente ferida em seu coração com esse
desdém, e como era maligna e vingativa, não podendo vingar-se de seu senhor, jurou descarregar todo o peso de seu rancor sobre a pessoa de sua infeliz rival.
— Um raio que te parta, maldito! — Má lepra te consuma, coisa ruim! — Uma cascavel que te morda a língua, cão danado! — Estas e outras pragas vomitavam as escravas resmungando entre si contra o feitor, apenas este voltoulhes as costas. O feitor é o ente mais detestado entre os escravos; um carrasco não carrega com tantos ódios abominado mais do que o senhor cruel, que o muniu do azorrague desapiedado para açoitá-los e acabrunhá-los de trabalhos. É assim que o paciente se esquece do juiz, que lavrou a sentença para revoltar-se contra o algoz, que a executa.
Como já dissemos, coube em sorte a Isaura sentar-se perto de Rosa. Esta assestou logo contra sua infeliz companheira a sua bateria de ditérios e remoques sarcásticos e irritantes.
— Tenho bastante pena de você, Isaura. disse Rosa para dar começo às operações.
— Deveras! — respondeu Isaura, disposta a opor às provocações de Rosa toda a sua natural brandura e paciência. Pois por quê, Rosa?...
— Pois não é duro mudar-se da sala para a senzala, trocar o sofá de damasco por esse cepo, o piano e a almofada de cetim por essa roda? Por que te enxotaram de lá, Isaura?
— Ninguém me enxotou, Rosa; você bem sabe. Sinhá Malvina foi-se embora em companhia de seu irmão para a casa do pai dela. — Portanto nada tenho que fazer na sala, e é por isso que venho aqui trabalhar com vocês.
— E por que é que ela não te levou, você, que era o ai-jesus dela?... Ah! Isaura, você cuida que me embaça, mas está muito enganada; eu sei de tudo. Você estava ficando muito aperaltada, e por isso veio aqui para conhecer o seu lugar.
— Como és maliciosa! — replicou Isaura sorrindo tristemente, mas sem se alterar; pensas então que eu andava muito contente e cheia de mim por estar lá na sala no meio dos brancos?... como te enganas!... se me não perseguires com a tua má língua, como principias a fazer, creio que hei de ficar mais satisfeita e sossegada aqui.
— Nessa não creio eu; como é que você pode ficar satisfeita aqui, se não acha moços para namorar?
— Rosa, que mal te fiz eu, para estares assim a amofinar-me com essas
falas?...
— Olhe a sinhá, não se zangue!... perdão, dona Isaura; eu pensei que a senhora tinha esquecido os seus melindres lá no salão.
— Podes dizer o que quiseres, Rosa; mas eu bem sei, que na sala ou na cozinha eu não sou mais do que uma escrava como tu. Também deves-te lembrar, que se hoje te achas aqui, amanhã sabe Deus onde estarás. Trabalhemos, que é nossa obrigação. deixemos dessas conversas que não têm graça nenhuma.
Neste momento ouvem-se as badaladas de uma sineta; eram três para quatro horas da tarde; a sineta chamava os escravos a jantar. As escravas suspendem seus trabalhos e levantam-se; Isaura porém não se move, e continua a fiar.
— Então? — diz-lhe Rosa com o seu ar escarninho, — você não ouve, Isaura? são horas; vamos ao feijão.
— Não, Rosa; deixem-me ficar aqui; não tenho fome nenhuma. Fico adiantando minha tarefa, que principiei muito tarde.
— Tem razão; também uma rapariga civilizada e mimosa como você não deve comer do caldeirão dos escravos. Quer que te mande um caldinho, um chocolate?...
— Cala essa boca, tagarela! — bradou a crioula velha, que parecia ser a priora daquele rancho de fiandeiras. — Forte lingüinha de víbora!... deixa a outra sossegar. Vamos, minha gente.
As escravas retiraram-se todas do salão, ficando só Isaura, entregue ao seu trabalho e mais ainda às suas tristes e inquietadoras reflexões. O fio se estendia como que maquinalmente entre seus dedos mimosos, enquanto o pezinho nu e delicado, abandonando o tamanquinho de marroquim, pousava sobre o pedal da roda, a que dava automático impulso. A fronte lhe pendia para um lado como açucena esmorecida, e as pálpebras meio cerradas eram como véus melancólicos, que encobriam um pego insondável de tristura e desconforto. Estava deslumbrante de beleza naquela encantadora e singela atitude.
— Ah! meu Deus! — pensava ela; nem aqui posso achar um pouco de sossego!... em toda parte juraram martirizar-me!... Na sala, os brancos me perseguem e armam mil intrigas e enredos para me atormentarem. Aqui, onde entre minhas parceiras, que parecem me querer bem, esperava ficar mais tranqüila, há uma, que por inveja, ou seja lá pelo que for, me olha de revés e só trata de achincalhar-me.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.