Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Em 1817, o Sr. D. João VI mandou pintar de novo e dourar a capela real, obra que se executou com tanta presteza como feliz desempenho, e para a qual concorreram os melhores artistas que então possuía a capital, e notavelmente o nosso habilíssimo José Leandro de Carvalho, pintor histórico e o mais fiel retratista da época, tendo neste gênero, diz também o Sr. Porto Alegre, um dom particular, pois bastava ver o indivíduo uma única vez para conservar perfeitamente de memória suas feições e pintá-lo ao vivo.
José Leandro fez todos os quadros da capela real, e no concurso que houve entre diversos pintores levou a palma na execução do quadro do altar-mor da mesma capela, no qual retratou de uma maneira admirável toda a família real.
Em 1831, foi esse quadro delirante e violentamente condenado pelo ódio ao passado. A gratidão nacional e a arte ressentiram-se por certo desse descomedimento repreensível, que seria uma indignidade, se não fosse a loucura de um dia de vertigem. Mas a gratidão nacional não se apagou com o quadro destruído, a arte pôde regenerar a obra do mestre. O mestre, porém, que foi testemunha do insulto, sentiu-o tanto que perdeu a saúde com o abalo e veio a morrer não muito depois.
Faz-me conta supor que me perguntam agora como, em um país tão novo e ainda abatido pelo jugo colonial, pôde, em 1808, o príncipe regente vir encontrar artistas de tanto merecimento como esses que executaram a reforma da capela real em 1817.
Pois sabei que desde a última metade do século XVII já as artes contavam fiéis e esclarecidos intérpretes no Rio de Janeiro. Os artistas acudiram como por encanto à voz de Bobadela e de Luís de Vasconcelos, e ensejo terei de demonstrar esse fato na continuação deste passeio.
E sabei mais que não foram somente pintores amestrados que a família real portuguesa teve de admirar, chegando ao Brasil.
Nos púlpitos e no coro da então capela real, fizeram-se desde logo sentir grandes e brilhantes inteligências que a corte portuguesa mal podia esperar que estivessem florescendo no Brasil e que devessem por ela ser admirados.
Nos púlpitos apareceram, entre outros, muito notavelmente, São Carlos, Sampaio, e Mont’Alverne, três franciscanos, três frades da ordem que professa a pobreza e que eram a imensa riqueza da nossa tribuna sagrada. No coro avultava não menos o padre José Maurício Nunes Garcia, indisputavelmente um desses homens privilegiados em cujo espírito Deus acende a flama do gênio.
Dir-se-ia que a natureza virgem e portentosa do Brasil supria com suas inspirações patrióticas e arrebatadoras as academias e os mestres abalizados que faltavam na América portuguesa a esses e a todos os belos talentos. Certo é que eles excederam a expectativa da família real e dos fidalgos portugueses, que reconheceram não ter deixado na culta Lisboa quem os levasse a palma na eloqüência e na música sagrada.
São Carlos foi, além de brilhante orador, um literato profundo e grande poeta. A sua oração fúnebre pelas exéquias da Rainha D. Maria
I é um verdadeiro e magnífico triunfo de inteligência. O seu poema a Assunção, uma glória da pátria. São Carlos era ainda notável pela facilidade com que improvisava sermões, quando era inesperadamente arrancado da sua cela para subir à sagrada tribuna.
Sampaio arrebatava o seu auditório por uma graça natural, que falava a todos os corações. Às vezes, interrompia o fio do discurso para aproveitar um incidente que ocorria, e de que tirava sempre surpreendente partido.
Um dia em que rebentara uma forte trovoada na ocasião em que ele se achava pregando, Sampaio, ao escutar o ribombo de um horrível trovão, cortou de súbito a ligação das idéias em que ia, e em uma apóstrofe ardente e bem cabida, inspirada pelo estampido que ouvira, encheu de assombro e deixou em êxtase a todo o concurso que se reunira na igreja.
A um desses dois pregadores refere-se um belo repente que não deixarei de lembrar aqui.
Solenizava-se na capela real a Santíssima Senhora das Dores. Um incômodo não tinha permitido vir assistir à festa a Rainha D. Maria I. Não se contava com ela. O orador subira ao púlpito e ia já em meio do sermão, quando, aparecendo a rainha, teve de tornar a começá-lo. Então, voltando-se para a tribuna real, exclamou, repetindo o verso de Virgílio:
“Infandum, regina, jubes renovare dolore...”
Mont’Alverne foi dos três ilustres franciscanos o que fulgurou ainda nos nossos dias, floresceu em todo o reinado do primeiro imperador. Algum tempo depois, porém, achou-se em vida sepultado no horror da cegueira, e não tornou ao púlpito. O Sr. D. Pedro II conseguiu fazê-lo pregar de novo, e no dia 19 de outubro de 1854 Mont’Alverne entoou o seu canto do cisne em um eloqüentíssimo panegírico de D. Pedro de Alcântara na capela imperial. Esse sermão foi um acontecimento que abalou a população da capital, e o que se passou então na capela não se pode explicar nem descrever. Sentiu-se. Não se diz.
O padre José Maurício Nunes Garcia conquistou naquela época
a reputação de um fertilíssimo, severo e notável compositor de músicas sacras,
e era, além disso, recomendável pelo seu nobre caráter, como por sua instrução.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.