Por José de Alencar (1853)
Um mendigo, coberto de andrajos e arrimado a uma muleta, aproximou-se e parando em frente ao velho esteve por muito tempo a olhal-o, e á casa, que aliás não merecia tamanha àttenção.
Notou afinal o velho Duarte aquella insistencia, e remexendo no largo bolso da vestia lá sacou um real, com que acenou ao mendigo.
Este com um riso pungente, que lhe contrahiu as feições já decompostas, achegou-se para receber a esmola. Apertando convulso a mão do velho, beijou-a com expressão de humildade e respeito.
Não se demorou porém, arrancando-se á com moção e afastou-se rapido. Sentiu o velho Duarte ao recolher a mão que ella ficára humida, do pranto do mendigo. Seus olhos cangados da veIhice acompanharam o vulto coberto de andrajos; e já este havia desapparecido, que ainda elles estendiam pelo espaço a sua muda interrogação.
Quem havia no mundo ainda para derramar aquelle pranto de ternura ao encontral-o a elle, pobre peregrino da vida que chegava só ao termo da romagem?
— Antonio de Caminha! murmuraram os frouxos labios do velho.
Não se enganára Duarte de Moraes. Era de feito Antonio de Caminha, quem elle entrevíra mais com o coração do que com, a vista já turva, entre a barba esqualida e as rugas precoces do rosto macilento do mendigo.
Que desgraças tinham abatido o gentil cavalheiro nos annos decorridos ?
Partido do porto do Rio de Janeiro, Antonio de Caminha aproou para Lisboa, onde contava gozar das riquezas, que lhe havia, legado Ayres de Lucena, quando morrêra para o mundo.
Caminha era d'essa tempera de homens, que não possuindo em si bastante fortaleza de animo para resistir ao infortunio, buscam atordoar-se.
O golpe que soffrêra com a perda de Maria da Gloria o lançou na vida de prazeres e dissipações, qual outrora a vivêra Ayres de Lucena, si não era ainda mas desregrada.
Chegado á Bahia, por onde fez escala, foi Antonio de Caminha arrastado pelo fausto que havia na então capital do Estado do Brasil, e de que nos deixou noticia o chronista Gabriel Soares.
A escuna, outrora consagrada á Virgem Purissima, transformou-se em uma taverna de brodios e convivios. No tombadilho onde os rudes marinheiros ajoelhavam para invocar a protecção da sua Gloriosa Padroeira, não se via agora sinão a meza dos banquetes, nem se escutavam mais que falas de amor e bocejos de ebrios.
A dama em tenção de quem se davam esses festins, era uma cortezã da cidade do Salvador, tão notavel pela formosura, como pelos escandalos com que affrontava a moral e a igreja.
Um dia teve a. pecadora a fantasia de trocar o nome de Maria da Gloria que tinha a escuna, pelo de Maria dos Prazeres que ella trouxera da pia, e tão proprio lhe sahíra.
Com o espirito annuveado pelos vapores do vinho, não teve Antonio de Caminha força, nem vontade de resistir ao requebro d'olhos que lançou-lhe a dama.
Bruno, o velho Bruno, indignou-se quando soube d'isso, que para elle era uma profanação. Á sua voz severa, os marujos sentiram-se abalados; mas o capitão afogou-lhes os escrupulos em novas libações. Essas almas rudes e virís, já o vicio as tinha enervado.
N'aquella mesma tarde consummou-se a profanação. A escuna recebeu o nome da cortezã : e o velho, da amurada onde assistira a ceremonia, arrojou-se ao mar, lançando ao navio esta praga:
— A Senhora da Gloria te castigue, e aquelles que te fizeram alcouce de barregans.
XIX
A PENITENCIA
Antes de findar a semana largou a escuna Maria dos Prazeres do porto do Salvador, com o dia sereno e mar de bonança, por uma formosa manhã de abril.
Tempo mais de feição para a partida não o podiam desejar os marujos; e todavia despediam-se elles tristes e soturnos da linda cidade do Salvador, e de suas formosas collinas.
Ao suspender do ferro partíra-se a amarra, deixando a ancora no fundo, o que era mau agouro para a viagem. Mas Antonio de Caminha riu-se do terror de sua gente, e metteu o caso á bulha.
— Isto quer dizer que havemos de tornar breve a esta boa, terra, pois cá nos fica a ancora do navio, e a de nós outros.
Singrava a escuna dias depois com todo o panno, cutellos e varredouras. Estava o sol a pino; os marujos dormitavam abrigados pela sombra das velas.
Á proa assomava d'entre as ondas um rochedo, que servia de pouso a grande quantidade de alcatrazes ou corvos do mar, cujos pios lugubres ululavam pelas solidões do oceano.
Era a ilha de Fernando de Noronha.
Ao passar fronteira a escuna, eahiu um pegão de vento, que arrebatou o navio e o despedaçou contra os rochedos, como si fôra uma concha da praia.
Antonio de Caminha que sestéava em seu camarim, depois de muitas horas, ao dar acordo de si, achou-se estendido no meio de uma restinga sem atinar em como fôra para ali transportado, e o que era feito de seu navio.
Só ao alvorecer, quando o mar rejeitou os destroços da escuna e os corpos de seus companheiros, comprehendeu elle o que era passado.
Muitos annos viveu o mancebo ali, n'aquelle rochedo deserto,
nutrindo-se de mariscos e ovos de alcatrazes, e habitando uma gruta, que usurpara a esses companheiros de seu exilio.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.