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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Um instante depois Amália recuou precipitadamente, cobrindo o rosto com as mãos. Hermano, que tinha entrado no aposento, achava-se de pé junto à conversadeira.

As faces da moça abrasaram-se do pejo que sentiu. Revoltou-se contra a audácia daquele homem; e a indiferença dessa mulher que dormia quando um olhar indiscreto devassava o seu recato.

Tinha medo de ver; e uma irresistível tentação de olhar. Voltou as costas para a janela; mas não teve coragem de afastar-se. Entretanto Hermano aproximara-se silenciosamente da conversadeira, sentara-se ao lado e ficou imóvel, como se receasse levantar o menor rumor no aposento.

Esta cena exacerbou a cólera de Amália e o seu escândalo pela traição de Hermano. Nasceu-lhe um desejo veemente de vingar Julieta. Se ela pudesse subtrair o marido pérfido à sedução da amante; arrastá-lo a seus pés humilde e submisso; exprobrar-lhe o seu perjúrio; e restituí-lo arrependido ao amor da esposa!...

Que não daria ela em troca desse poder? Que satisfação não teria de infligir o justo castigo a esse crime?

Mas bem compreendia, no seu despeito, que não tinha sobre Hermano a menor ação. Ela, uma das belezas mais festejadas da Corte, rainha nos salões, e dos mais brilhantes vassalos; querida e adorada por tantos admiradores, que todas as tardes faziam uma légua de carro ou a cavalo, só para a verem ao longe e de passagem; ela, Amália, não merecia a atenção daquele excêntrico, seu vizinho, que poderia se quisesse olhá-la a todo momento, comodamente, sem o menor sacrifício.

Talvez nem a conhecesse, e não soubesse que ela habitava ao lado de sua casa... Mas não; lembrou-se da vez em que o surpreendera ouvindo-a cantar; curiosidade que a tinha irritado a ponto de bater-lhe a janela.

Agora arrependia-se do seu arrebatamento. Devia ter-se contido naquele momento, e servir-se dessa impressão produzida por sua voz para atrair esse homem, fasciná-lo também com a sua beleza, dominá-lo, e então esmagá-lo com todo o seu desprezo.

Fora mal inspirada. Hermano, ofendido com a desfeita que sofrera, não se arriscaria a nova repulsa. Entretanto por que não havia ela de tentar o meio que lhe restava para reatar o primeiro e único movimento desse homem para ela?

No dia seguinte, depois do almoço, Amália sentou-se ao piano; abriu a partitura da Lucia; e hesitou por algum tempo. As portas das janelas estavam abertas; foi cerrá-las e pela fresta lançou um olhar à chácara vizinha. Estava erma e tranqüila.

Então a moça decidiu-se, e cantou com emoção que nunca tivera em suas estréias de sala. Também nunca ela cantou melhor, com mais alma e paixão.

Terminando, ergueu-se precipitadamente. Arfava-lhe o seio, menos do esforço que fizera, do que do anelo de uma esperança que a agitava. Sentia que esse momento podia decidir de seu destino.

Calcando com a mão esquerda as pulsações do coração. caminhou para a janela, pálida e trêmula, e procurou com os olhos o lugar onde Hermano a escutara da outra vez.

Não havia ninguém.

Capítulo 11

À noite apareceu Henrique Teixeira, que andava um tanto arredio.

O médico desistira do seu plano de trazer Hermano às partidas do Sr. Veiga, desde que D. Felícia tinha abandonado a idéia do casamento. Continuou, porém, a freqüentar a casa com a mesma assiduidade. Foi só quando percebeu certa repulsão de Amália para ele que se retirou.

A causa dessa repulsão não a podia precisar; mas suspeitou que se referia a Hermano, Seria porque fora ele quem envolvera o amigo na existência da moça; ou era ao contrário por que não tivera força de aproximá-lo dela?

A verdadeira causa, nós a sabemos.

Era a indignação que Amália sentira contra o esposo infiel e que ressaltava sobre o amigo, como sobre tudo o mais que lhe pertencia.

— Já tive o prazer de ouvi-la hoje, disse o doutor apertando a mão de Amália.

— Passou por aqui?

— Estive na sua vizinhança.

Amália entendeu a alusão.

— Ah! exclamou com indiferença.

Quando a moça começou a cantar naquela manhã, Teixeira estava em casa de Hermano e conversavam os dois no gabinete. Às primeiras notas este levantou-se; esqueceu a presença do amigo e saindo à chácara aproximou-se da casa vizinha, resguardando-se com a folhagem do arvoredo.

Teixeira, que o acompanhara, sentou-se junto dele e escutou. Aquela vivacidade do amigo, tão alheio a tudo que não se prendia à sua antiga existência, e a emoção com que ele ouvia a Amália, o surpreenderam. Interrogou as suas recordações. Julieta cantava essa ária, o que explicava tudo.

Terminado o canto, Hermano voltou ao gabinete e continuou a conversa, sem a menor alusão ao incidente. Henrique de seu lado também absteve-se de qualquer observação, e mui de propósito.

Deixando o amigo, lembrou-se o doutor de fazer à noite uma visita à família Veiga; e no primeiro ensejo referiu a Amália todas as circunstâncias do que ele chamava um triunfo.

— Um triunfo artístico bem entendido, acrescentou sorrindo.

— Os outros não são para mim, observou Amália em um tom de modéstia desdenhosa, que tornava ambígua sua frase.

(continua...)

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