Por José de Alencar (1872)
tinha pronunciado, que sentia arderem-lhe as faces; e por isso o murmurava baixinho dentro do coração. Daí provinha que vendo Afonso o vexame da irmã, por sua parte sofreava nesse particular o seu gênio zombeteiro, e não tugia sobre as entrevistas no Tanquinho.
Quando D. Ermelinda e Galvão tomavam parte no passeio dos filhos, estes por um natural acanhamento não dirigiam a excursão para o sítio favorito; no que os ajudava o fazendeiro, mais solícito em mostrar à mulher a medra viçosa de sua lavoura, que lhe estava prometendo abundantes messes.
Caso alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que os donos da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de longe pelas vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abóbadas de verdura e os acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.
Eis como ignorava D. Ermelinda os idílios, que estavam compondo seus filhos, naquele sítio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce efúlvio da natureza. Tudo ali penetrava o coração de emoções deliciosas. Pelo aveludado daquela relva cintilante espreguiçava-se a imaginação, a sonhar o dossel de um divã. Os sussurros da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das sedas; e o borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino.
Quem estivesse nesse lugar a sós cuidadira que aproximava-se uma virgem mimosa, de fronte serena, olhar inspirado e fagueiro sorriso, perfumado de suave fragrância. Quem ali fosse com uma gentil companheira, acreditaria por certo que ela se transfundira nesse sítio nemoroso, como em um grêmio do amor; e nas auras embalsamadas sentira-lhe o mago sorriso a bafejar-lhe as faces; no lago dormente seus olhos límpidos a refletirem-lhe o céu de sua alma; nas hastes das palmeiras, seu talhe mil vezes esboçado com a mesma inata elegância; nas laçarias e festões de trepadeiras floridas, os folhos do amplo vestido; e na pelúcia da grama cambiante às depressões do terreno, a voluptuosa flexão das formas debuxadas pelo corpinho de verde cetim. Como era possível não amara naquela mansão, onde tudo cantava, sorria, palpitava e respirava amor?
A quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consórcio entre o vigor e a graça, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplêndido?
Himeneu eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho com a flor, do sol com a sombra, do céu com a terra.
XIII
Susto
Na primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio um ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu.
Tornaram, pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da colina, curiosa que estava de saber donde partira o clamor.
- Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel como se não o conhecesse de muito tempo a seus hábitos.
Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes? Não estava porventura transpirando das palavras da moça um queixume pela preferência dada a uma distração que ela não partilhava?
- É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.
- Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe.
- Já li; disse simplesmente Miguel.
- Não é tão bonito?
- Muito.
- Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.
Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço.
- O senhor não deseja formar-se?
- Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual sossego:
- Mas para que pensar nisto?
- Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se ajudarem.
- Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo.
- Papai lhe empresta.
- Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu.
- Por que razão?
De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina:
- Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não pretende pagar.
- É verdade!
Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não era ele desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição como um fato natural e com certa filosofia prática, rara em mancebos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.