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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- De que disposições virá o sujeito? Quererá sondar-me a respeito da noiva, desconfiado de que lhe pretendo impingir alguma carcaça? Ah! Ah! Por este lado não há perigo. Terá intenção de regatear? A menina não se importa de chegar até os duzentos mil cruzeiros e aposto que se for preciso vai por aí fora, que isso de mulher, o dinheiro faz-lhe cócegas. Mas eu é que não estou pelos autos! Seguro-me nos cem mil, que daí não me arrancam. Quando muito uns vinte mil de quebra, para o enxoval e nem mais um centavo! 

Tendo feito seus cálculos, Lemos chegou à porta do cubículo e gritou para a frente do armazém: 

- Mande entrar! 

Quando Seixas chegou ao escritório, já Lemos estava de novo trepado no mocho, e debruçado à carteira continuava a despachar seus negócios. Sem erguer a cabeça fez com a mão esquerda um gesto ao moço indicando-lhe o sofá. 

- Queira sentar-se; já lhe falo. 

Terminada a carta e enxuta com o mata-borrão, Lemos fechou-a na competente capa; pôs-lhe sobrescrito, e só então girando sobre o mocho, como uma figurinha de cata-vento, apresentou a frente ao moço. 

- O senhor deseja falar-me? Perguntou. 

- Já não se recorda de mim? Perguntou Seixas inquieto. 

- Tenho uma lembrança vaga. O senhor não me é de todo estranho! 

- Não há três dias estivemos juntos, tornou Seixas; é verdade que pela primeira vez.

- Há três dias?... 

E Lemos fez semblante de recordar-se. 

Desde que entrara, Seixas mostrava em sua fisionomia, como em suas maneiras, um constrangimento que não era natural ao seu caráter. Parecia lutar contra uma força interior que o demovia da resolução tomada; mas não se podia subtrair-se a esses rebates, dominava-se bastante para subjugá-los à necessidade. 

O esquecimento de Lemos porém veio abalar aquela firmeza momentânea; no semblante do moço pintou-se imediatamente a vacilação do espírito. Não escapou essa alteração ao velho que recostando-se na cadeira a jeito de olhar o seu interlocutor de meio perfil, se desfez em exclamações de surpresa: 

- Ora!... O sr. Seixas!... O meu amigo desculpe!... Isto de negociantes... O senhor deve saber!... Temos a memória na carteira ou no borrador. São tantas as coisas de que nos ocupamos, que realmente só uma cabeça de duzentas folhas, como esta, pode chegar para tanto! 

O velho soltou uma risadinha cacofônica e apontou para um livro mercantil colado sobre a carteira. 

- Aqui está a minha, rubricada pelo tribunal do comércio e competentemente selada, com todas as formalidades legais. Ah! Ah! Ah!... Então, meu amigo, que manda a seu serviço? 

- O Sr. Ramos mantém a proposta que me fez anteontem em minha casa? Perguntou Seixas. 

Lemos fingiu que refletia. 

- Um dote de cem mil cruzeiros no ato do casamento, é isto? 

- Resta-me conhecer a pessoa. 

- Ah! Este ponto, parece-me que deixei-o bem claro. Não tenho autorização para declarar, senão depois de fechado o nosso contrato. 

- O senhor nada me disse a esse respeito. 

- Estava subentendido. 

- Qual a razão desse mistério? Faz suspeitar algum defeito, observou Fernando. 

- Garanto-lhe que não; se o enganar, o senhor está desobrigado. 

- Ao menos pode dar-me algumas informações?

- Todas. 

Seixas dirigiu ao velho uma série de interrogações acerca de idade, educação, nascimento e outras circunstâncias que lhe interessavam. As respostas não podiam ser mais favoráveis. 

- Aceito, concluiu o moço. 

- Muito bem. 

- Aceito; mas com uma condição. 

- Sendo razoável. 

- Preciso de vinte mil cruzeiros até amanhã sem falta. 

O velho saltou na cadeira. Este caso o apanhava de surpresa. 

- Meu amigo, se dependesse de mim... Mas o senhor sabe que neste negócio eu sou apenas um procurador oficioso. Não tenho ordem para adiantar a menor quantia. Quanto ao dote depois de realizado o casamento, este sim, garanto. 

- Não pode emprestar-me sobre essa garantia? 

Ao Lemos escapou uma careta que ele procurou disfarçar. 

- Tem razão, observou Seixas sem alterar-se. V. S. não me conhece, sr. Ramos; e a posição em que me coloquei dando este passo, não é própria de certo para inspirar confiança. 

- Não é isso, homem, acudiu o velho ainda um tanto atrapalhado; mas é que há viver e há morrer. 

- Desculpe-me o incômodo que lhe dei, tornou o moço fazendo um cumprimento de despedida. 

O negociante estava tão atarantado e perplexo que não correspondeu à cortesia de Seixas, e o viu sair do escritório, indeciso sobre o que devia fazer. 

- Para que diabo quererá este marreco os vinte mil cruzeiros? Aposto que anda aqui 

volta do Alcazar. O rapaz está caído por alguma das tais francesinhas; e elas que são umas jibóias!... Finas como um alhambre, mas capazes de engolir um homem!... Que dirá a isso a senhora minha pupila? Estará disposta a correr todos os riscos e perigos da transação? 

Neste ponto de seu monólogo, o velho recobrando sua petulante agilidade, deu uma corrida à porta do armazém, onde ainda chegou a tempo de avistar o moço, que afastava-se a passos lentos, pensativo e de cabeça baixa. 

- Oh! Sr. Seixas!... Faz favor! 

- Chamou-me? 

O negociante adiantara-se alguns passos na rua para ir ao encontro do moço. 

(continua...)

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