Por José de Alencar (1857)
HENRIQUETA - Então eu não tenho o direito de fazer também alguma coisa para a nossa felicidade?
EDUARDO - Não disse isto! Faz muito!
HENRIQUETA - Como? Se toma para si tudo e não me quer deixar nem mesmo a metade dos cuidados?
EDUARDO - E quem me dá força para prosseguir e a fé para trabalhar? Não são esses momentos que todos os dias passamos juntos aqui ou em sua casa?
HENRIQUETA - Assim, não me quer dizer qual é essa esperança?
EDUARDO - Não desejo afligi-la com idéias mesquinhas. Os homens inventaram certas coisas, como os algarismos, o dinheiro e o cálculo, que não devem preocupar o espírito das senhoras.
HENRIQUETA - Porque somos nós tão fracas de inteligência?...
EDUARDO - Não é por isso; é porque tiram-lhes o perfume e a poesia.
HENRIQUETA - Isso é muito bonito, mas não me diz o que desejo saber.
EDUARDO - O quê?
HENRIQUETA - O meio por que há de fazer o meu casamento.
EDUARDO - Ainda insiste; pois bem, hoje mesmo lhe direi.
HENRIQUETA - Sim?
EDUARDO - Talvez daqui a uma hora.
CARLOTINHA - Mano, aí entrou uma pessoa, que julgo procurar por você.
EDUARDO - Há de ser naturalmente o negociante que espero.
CENA III
Os mesmos, PEDRO
PEDRO - Está ai o homem que escreveu aquela carta; quer falar ao senhor.
EDUARDO - Manda-o entrar para o meu gabinete.
PEDRO (baixo, a CARLOTINHA) - Nhanhã Carlotinha está triste!... Hi!...
EDUARDO - Até logo, Henriqueta.
HENRIQUETA - Já! Que vai fazer?
EDUARDO - Concluir um pequeno negócio; ao mesmo tempo realizar um pensamento que me foi inspirado pelo nosso amor.
HENRIQUETA - Como?
EDUARDO - Quero solenizar a nossa felicidade, Henriqueta, exercendo um dos mais belos direitos que tem o homem na nossa sociedade.
HENRIQUETA - Qual?
ÊDUARDO - O direito de dar a liberdade!
HENRIQUETA - Não entendo.
EDUARDO - Dir-lhe-ei tudo logo.
HENRIQUETA - Volte, Sim?
EDUARDO - Demorar-me-ei apenas o tempo de assinar um papel e escrever algumas linhas.
CENA IV
HENRIQUETA, CARLOTINHA
HENRIQUETA - Sabes, Carlotinha, tenho uma queixa de ti.
CARLOTINHA - De mim? Que te fiz eu, má?
HENRIQUETA - Há um mês espero que tu me contes uma coisa, e ainda não me disseste uma palavra.
CARLOTINHA - De quê? Não sei.
HENRIQUETA - Do teu segredo; não te confiei o meu?
CARLOTINHA - Ah! Quem te disse?
HENRIQUETA - Eduardo.
CARLOTINHA - Não acredites, ele estava gracejando.
HENRIQUETA - Não, tu amas, Carlotinha, e nunca me falas dos teus sonhos, de tuas esperanças. Não sou eu mais tua amiga?
CARLOTINHA - Pois duvidas?
HENRIQUETA - Se fosses, não me ocultarias o que sentes.
CARLOTINHA - Não te zangues; eu te contarei tudo, mas custa tanto falar dessas coisas!
HENRIQUETA - Com aqueles que nos compreendem é um prazer bem doce.
CARLOTINHA - Olha, o meu segredo... Porém não sei como hei de começar isto!
HENRIQUETA - Começa pelo nome. Como ele se chama?
CARLOTINHA (confusa) - Alfredo.
HENRIQUETA - Este moço que teu mano nos apresentou?
CARLOTINHA - Sim. Todas as manhãs, faça bom ou mau tempo, passa por aqui ao meio-dia; quase nem olha para esta janela, donde eu o espero escondida entre as cortinas, ninguém nos vê, mas nós nos vemos.
HENRIQUETA - Depois?
CARLOTINHA - À noite vem visitar-nos, como tu sabes; todo o tempo conversa com mamãe, ou com mano enquanto tu e eu brincamos no piano. À hora do chá sentamo-nos juntos; ele diz que me viu de manhã, eu respondo que estava distraída e não o vi. Às vezes...
HENRIQUETA - Acaba, não tenhas vergonha. Eu também amo.
- Pois sim. Às vezes nossas mãos se encontram sem querer; ele fica pálido, e eu
corro toda trêmula para junto de ti. Daí a pouco são dez horas, todos se retiram: então chego à janela e sigo-o com os olhos, até que desaparece no fim da rua.
HENRIQUETA - E é este todo o teu segredo?
CARLOTINHA - Todo.
HENRIQUETA - Parece-se com o meu: ver-se de longe, trocar um olhar, amar em silêncio. Há só uma diferença.
CARLOTINHA - Qual?
HENRIQUETA - Tu és feliz, porque és livre, enquanto eu...
CARLOTINHA - Tu és correspondida, Henriqueta; Mano Eduardo te ama!
HENRIQUETA - E Alfredo, não te ama?
CARLOTINHA - Não sei, tenho medo; há quatro dias que não o vejo. Levo a contar as horas.
HENRIQUETA - Donde procede esta mudança? Fizeste-lhe alguma coisa?
CARLOTINHA - Eu?... Se procuro adivinhar os seus pensamentos!
HENRIQUETA - Entretanto, deve haver um motivo...
CARLOTINHA - Tenho querido me recordar, e só acho este. No domingo veio passar a manhã aqui; eu o deixei um momento para te escrever e voltei logo. Quando chamei Pedro para levar-te a carta; ele levantou-se de repente, despediu-se de mamãe, cumprimentou-me friamente, e desde então não o tenho visto. Ficou zangado comigo por ter saído um momento de junto dele.
HENRIQUETA - Não faças caso, isso passa. Hoje mesmo ele virá arrependido pedir-te perdão. Mas, a propósito da carta que me escreveste domingo, eu trouxe-a mesmo para brigar contigo, travessa! (Tira a carta.)
CARLQTINHA - Por quê? Pela sobrescrita?
HENRIQUETA - Essa é uma das razões. Para que escreveste "Madame Azevedo?" Não sabes que essa idéia me mortifica?
- Desculpa, foi um gracejo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.