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#Romances#Literatura Brasileira

A Viuvinha

Por José de Alencar (1857)

O amor de Carolina, talvez mais do que o sentimento da honra, o animava; trabalhou com uma constância e um ardor infatigáveis e ganhou para pagar todas as dívidas de seu pai.

Logo que se achou possuidor de uma soma avultada, Jorge preferiu vir acabar a sua expiação no seu país, onde ao menos se sentiria perto daqueles que amava.

De fato chegou ao Rio de Janeiro com o nome de Carlos Freeland; dava-se por estrangeiro; alguns, porém, julgavam que nascera no Brasil e que aí vivera muito tempo mas não se recordavam de o ter visto.

A desgraça tinha mudado completamente a sua fisionomia; do moço tinha feito um homem grave; além disso, a barba crescida ocultava a beleza dos seus traços.

O seu primeiro cuidado foi procurar o senhor Almeida e pedir-lhe que o auxiliasse no resgate das letras, que devia ser feito de modo que ninguém o suspeitasse. O que fez o velho negociante, já o sabe.

Como disse, Jorge ocultava sua vida de todos e do próprio velho ; sofria corajosamente a miséria a que se condenara, mas não queria que ela tivesse uma testemunha.

O senhor Almeida, porém, surpreendera o segredo.



CAPÍTULO XV

Vou levá-la, D..., à mesma casinha do morro de Santa Teresa, onde começou esta pequena história.

São 10 horas da noite. Penetremos no interior.

D. Maria acabava de recolher-se, depois de ter beijado sua filha; toda a casa estava em silêncio; apenas havia luz no aposento de Carolina.

Esse aposento era a mesma câmara nupcial, onde cinco anos antes aquela inocente menina adormecera noiva para acordar viúva, no dia seguinte ao do seu casamento.

Nada aí tinha mudado, a não ser o coração humano.

Cinco anos que passaram por esse berço de amor, transformado de repente em um retiro de saudade, não haviam alterado nem sequer a colocação de um traste ou a cor de um ornato da sala.

Apenas o tempo empalidecera as decorações, roubando-lhes a pureza e o brilho das coisas novas e virgens; e a desgraça enlutara a rola, que se carpia viúva no seu ninho solitário.

Carolina estava sentada na conversadeira, onde na primeira e última noite de seu casamento recebera seu marido, quando este, trêmulo e pálido, se animara a transpor o limiar desse aposento, sagrado para ele como um templo.

Justamente naquele momento, esse quadro se retraçava na memória da menina com uma força de reminiscência tal que fazia reviver o passado. O seu espírito, depois de saturar-se o amargo dessas recordações, desfiava rapidamente a teia de sua existência desde aquela época.

Quer saber naturalmente o segredo dessa vida, não é, minha prima?

Aqui o tem.

Nos primeiros dias que se seguiram à catástrofe, Carolina ficou sepultada nessa letargia da dor, espécie de idiotismo pungente, em que se sofre, mas sem consciência do sofrimento.

D. Maria e o senhor Almeida, que a desgraça tinha feito amigo dedicado da família, tentaram debalde arrancar a moça a esse torpor e sonolência moral. O golpe fora terrível; aquela alma inocente e virgem, bafejada pela felicidade, sentira tão forte comoção que perdera a sensibilidade.

O tempo dissipou esse letargo. A consciência acordou e mediu todo o alcance da perda irreparável. Sentiu então a dor em toda a sua plenitude e à profunda apatia sucedeu uma irritação violenta. O desespero penetrou muitas vezes e assolou esse coração jovem.

Mas a dor, a enfermidade da alma, como a febre, a enfermidade do corpo, quando não mata nos seus acessos, acalma-se.

O sofrimento, em Carolina, depois de a ter torturado muito, passou do estado agudo ao estado crônico.

Vieram então as lágrimas, as tristes e longas meditações, em que o espírito evoca uma e mil vezes a lembrança da desgraça, como uma tenta que mede a profundeza da chaga, em que se acha um prazer acerbo no magoar das feridas que se abrem de novo.

A pouco e pouco o que havia de amargo nessas recordações se foi adoçando: as lágrimas correram mais suaves; o seio, que o soluço arquejava, arfou brandamente a suspirar. E, como no céu pardo de uma noite escura surge uma estrela que doura o azul, a saudade nasceu n'alma de Carolina e derramou a sua doce luz sobre aquela tristeza.

Tinha decorrido um ano.

Começou a viver dentro do seu coração, com as reminiscências do seu amor, como uma sombra que se sentava a seu lado, que lhe murmurava ao ouvido palavras sempre repetidas e sempre novas. Sonhava no passado; diferente nisso das outras moças, que sonham no futuro.

Mas um coração de 15 anos é um tirano a que não há resistir; e Carolina não contara com ele.

Quando uma planta delicada nasce entre a sarça, muitas vezes o fogo queima-lhe a rama e o hastil; ela desaparece, mas não morre, que a raiz vive na terra; e às primeiras águas brota e pulula com toda a força de vegetação que incubara no tempo de sua mutilação.

O coração de Carolina fez como a planta. Apenas aberto, a desgraça o cerrara; mas veio a calma e ele tornou a abrir-se.

A princípio bastou-lhe a saudade para enchê-lo; depois desejou mais, desejou tudo. Tinha sede de amor; e não se ama uma sombra.

(continua...)

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