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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

CLEMÊNCIA – Tem razão... gosto de Irene; mas se meu pai ma desse por madrasta... sim... era caso de correr a sua casa a pedi-lo em casamento... é demais!

BRAZ - Não se encolerize; ouça o que mais me ataranta: a madrinha, que instigada por mim fizera a famosa aposta com o único fim de castigar um pouco a sua vaidade, e de ensiná-la a conhecer a torpeza de certos homens, tomou gosto ao brinquedo e quer deveras casar-se.

CLEMÊNCIA – O senhor está gracejando.

BRAZ – O que eu estou é em brasas.

CLEMÊNCIA – Não... a titia diverte-se com os três ambiciosos, e dá-me boa lição...

BRAZ – Falo-lhe como amigo, e membro adotivo da sua família...

CLEMÊNCIA – Mas a titia quer fazer mal a todos nós, expondo-se a muito maior mal?... isso me aflige realmente.

BRAZ – Eis aí pois dois casos de loucura; sou, por felicidade, o confidente da madrinha, e o corretor da negociação casamenteira de Casimiro, mas preciso de auxiliares.

CLEMÊNCIA – Que posso eu fazer?

BRAZ – Muito, conforme as circunstâncias; na questão paterna há de facilitarme hoje mesmo uma conferência com Irene; mas nem de leve indiciará que a não quer por madrasta.

CLEMÊNCIA – Convém prevenir...

BRAZ – Deseja mais um doido na história? a senhora é homeopata, espera curar pelos semelhantes.

CLEMÊNCIA – Farei o que me ordenar.

BRAZ – Quanto à madrinha, estou ainda a ver navios; velha com esperança de casamento é mais teimosa que um galo da Índia a brigar; não sei que faça; a senhora, porém, descobriu um recurso, que me pode servir.

CLEMÊNCIA – Qual! estou aniquilada...

BRAZ – Deixe-se de fingimentos; pediu uma dilatação de três dias; para que? preciso saber tudo.

CLEMÊNCIA – Apelação de condenada; mme. Dubarry com o pescoço na guilhotina dizia ainda ao algoz: “un petit moment, monsieur le baourreau!” BRAZ – Desconfia de mim, não é?

CLEMÊNCIA – Desconfio: só tenho um recurso, espere por ele, e vá laborando, como puder, contra a loucura da titia, se é que não veio armar-me uma cilada.

BRAZ – Não tenho direito de protestar... ao menos porém trabalhemos de acordo; eu creio... mas o meu ouvido é ótimo (Baixo) são pisadas de velha; ela pode dispor de si! se fosse pobre, vocês haviam de empurrá-la! (Baixo) não faça caso: (Alto) esta oposição é pelo receio de perder a herança, com que calculavam! (Baixo) ataqueme de rijo: (Alto) a madrinha não precisa de tutores! (Baixo) proteste.

CLEMÊNCIA – Pois que se case... sentirá as conseqüências... BRAZ – Et coetera.

CENA VI

BRAZ, CLEMÊNCIA e VIOLANTE, que viera chegando

VIOLANTE – A senhora também pretende por-me impedimentos?

CLEMÊNCIA – Não, senhora; case-se, e há de ver o que a espera; por mim já tive o que desejava, a dilação de três dias.

VIOLANTE – Que me importa a dilação? agora o caso é sério e nele só o Braz goza a minha plena confiança.

CLEMÊNCIA – Mas eu não prescindo da aposta.

VIOLANTE – Já ganhei-a, e vou deixar-te para tua consolação dois infelizes, como desprezados despojos do meu triunfo.

BRAZ (A Clemência) – Caráter da loucura epidêmica; não apuro as coisas. (Alto) É o que eu dizia: a madrinha vencerá, casará, e, celebrado o casamento, haverá festa, banquete, glória, et coetera, et coetera.

VIOLANTE – Ah, meu Braz!

CENA VII

BRAZ, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e MÁRIO

MÁRIO – Revolução a consumar-se!

CLEMÊNCIA – Que temos?

MÁRIO – Sou outro, porque vou ser outro; decididamente quebrei com o meu passado: quebrei e era de razão; não era? tenho vergonha do que fui...

CLEMÊNCIA – Mário, tu nos assustas, que é que foste?

MÁRIO – Um vadio, o escândalo da sociedade, um traste sem préstimo; tenho vergonha... não é de razão? o que me abriu os olhos foi o sopro de um anjo.

BRAZ – Explica-te, relâmpago!

MÁRIO – Há uma hora que Irene me disse: “Juras amar-me e que me queres por esposa: em que te ocupas? qual o trabalho de que tirarás o pão para me sustentar?...” Olhei ao redor de mim e dentro de mim, por fora e por dentro achei-me no vácuo! Palavra de honra, tenho sido um vadio descomunal! não tenho? se são capazes digam em que me ocupo... digam... digam!...

BRAZ – Em trocar as pernas: é ocupação de muitos outros, como tu.

MÁRIO – Não as trocarei mais: Irene fez-me ver a verdade com a luz do amor.

BRAZ – Pois é raro que essa luz mostre assim as coisas.

MÁRIO – Virtude da fonte lucífera; as Irene também são raras o caso é que consumou-se a revolução; sou outro, porque vou ser outro, e não vendo hoje mesmo Hipogrifo, porque Irene mo proibiu.

BRAZ – Nisso ela errou: conservando Hipogrifo, ainda podes desencabrestar.

MÁRIO – Não tenha medo: quero estabelecer-me, trabalhar e enriquecer.

VIOLANTE – A resolução é ótima: que calculas ser?...

MÁRIO – Se eu pudesse, seria banqueiro; mas falta-me a matéria prima; não tenho riqueza... não tenho fundos...

BRAZ – Que asneira, Mário! para ser banqueiro basta o dinheiro dos outros.

MÁRIO – Quero um mister decente: arranjam-mo? vejam se mo arranjam, e cuidado comigo, que adoro os extremos; olhem, que sou capaz de ir quebrar pedras, ou de mostrar-me puxando uma carroça d’água.

BRAZ – E não te vexarias?

(continua...)

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