Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
GERTRUDES (Dentro.) – Que te importa o moço?... tens às vezes modos que não parecem de uma menina recatada! (Cincinato põe a mão na boca para conter o riso e vendo que Dionísia vem, tira a carteira e põe-se a contar o dinheiro.) DIONÍSIA (Chegando.) – Ah! era o sr. Cincinato! que bela voz!
CINCINATO – Minha linda senhora... a sua voz é que é estupenda mesmo quando não canta; mas devo confessar que neste momento me atrapalhou!
DIONÍSIA – Como?...
CINCINATO – Fez-me errar a conta... eu dava balanço no capital e nos lucros desta noite e já não sei, se estava em cinco ou em sete contos... é claro que com a senhora a meu lado não me é possível somar... e ainda menos poderei multiplicar o dinheiro... diminuir há de ser fácil, não acha?... (Guarda o dinheiro que Dionísia olhava.)
DIONÍSIA – O senhor é original.
CINCINATO – Dizem isso: mas eu não creio. Que formosa moça!... (Toma-lhe a mão.) Que mãozinha de cetim! (Beija-a.)
DIONÍSIA – Deveras o senhor ama-me? ...
CINCINATO – Com furiosa paixão; eu, porém, sou franco e nítido: não sei alambicar finezas como o feliz Adriano... vou logo direito ao coração, e ao sentimento... encantadora Dionísia! queres ajudar-me a devorar em poucas semanas o miolo desta carteira, e mais três dúzias de contos de réis que tenho depositados no tesouro?... é logo sim ou não para poupar emoções... sim ou não, andorinha?...
DIONÍSIA – O senhor ou brilha pela franqueza, ou perde pela zombaria.
Falemos seriamente: que pensa de mim, e como é o seu amor?...
CINCINATO – Penso que tens enganado a cinqüenta, e que contas comigo para enganar a cinqüenta e um. Eu te adoro apesar disso; mas não respondo pela constância do meu amor... fica a teu cuidado perpetuá-la.
DIONÍSIA – Mas o senhor fala ainda melhor do que canta!
CINCINATO – É que conheço as claves, e canto conforme a letra, e o espírito
da música. Proponho-te um acordo filosófico e sentimental: tu amar-me-ás apaixonadamente enquanto eu tiver dinheiro para gastar, ou não te der o vento para outro lado; eu te adorarei, enquanto não me esfriar esta paixão eterna: em caso de arrependimento de qualquer dos dois... bons dias ou boas noites, e viva a liberdade!
DIONÍSIA (Pondo-lhe a mão no ombro.) – És um anjo, meu Cincinato!... UMA VOZ (Dentro.) – Isto é escandaloso!... (Sussurro.)
CINCINATO – Aquilo não é conosco; podes tranqüilizar-te.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu jogo franco e liso... cem mil réis!
CINCINATO – Aquilo sim, é comigo; franco e liso.
OUTRA VOZ (Dentro.) – Aceito!
CINCINATO – E tu aceitas, ladrão?
DIONÍSIA – À meia-noite batemos as asas!
CINCINATO – E saudades a Adriano!
DIONÍSIA – Ora!... que bata a outra porta... é um tolo. Adeus! até meia-noite...
devo tomar algumas disposições... estou doida por ti. Meu Quebra-louça; conta comigo. (Dá a mão a Cincinato e vai-se.)
CENA IV
CINCINATO, que acompanha DIONÍSIA até a porta, e volta coçando a cabeça, como contrariado, e DEMÉTRIO.
DEMÉTRIO – Esta casa é um covil de larápios! depenaram-me.
CINCINATO – E estão para me depenar: consola-te.
DEMÉTRIO – Acho-me em singular e doloroso embaraço...
CINCINATO – E eu!... nem fazes idéia... estou com uma corda ao pescoço...
DEMÉTRIO – Perdi quatrocentos mil réis...
CINCINATO – E eu daria oitocentos para livrar-me de ganhar certa partida...
DEMÉTRIO – Sofri indigna afronta...
CINCINATO – E eu acho-me dez mil vezes mais afrontado... tenho um pesadelo horrível...
DEMÉTRIO – Quis jogar sob palavra e torceram-me o nariz! foi um insulto!... e quando eu tinha a certeza de ir ganhar!... e quando eu tinha a certeza de ir ganhar!...
Cincinato... empresta-me duzentos mil réis? antes da ceia tos restituo.
CINCINATO – Prodígio, não me fales em dinheiro: é coisa que me irrita os nervos; olha, na primeira todos caem; na segunda, só os tolos; na terceira, só os doidos: jurei não passar contigo do segundo grau.
DEMÉTRIO – Por causa de alguns miseráveis centos de mil réis maltratas um amigo que por ti se tem comprometido em não sei quantas alhadas perigosas...
CINCINATO – Tu por mim nunca meteste prego sem estopa... tu... mas... ora esta!... que boa idéia!..
DEMÉTRIO – Empresta-me duzentos mil réis e me acharás pronto sempre a todos os sacrifícios da amizade; empresta-mos...
CINCINATO – Pois bem escuta, Prodígio: és capaz de quebrar louça hoje comigo?...
DEMÉTRIO – Sou: é experimentar.
CINCINATO – Não te empresto, dou-te já duzentos mil réis, e com eles ganha ou perde que pouco me importa; mas dez minutos antes da meia-noite a um sinal meu deixarás o jogo, receberás mais trezentos mil réis, e irás com uma bonita rapariga patuscar alguns dias fora da cidade, tendo para o resto desta noite hotel pago, e ceia a espera. Queres?
DEMÉTRIO – Que patifaria é essa?
CINCINATO – A rapariga é de pouco mais ou menos; não há receio de intervenção policial. Os duzentos mil réis já sob compromisso de honra; (Contando o dinheiro.) os trezentos mil réis na hora aprazada... queres?...
DEMÉTRIO – Mas... se não há risco de bulha com a polícia, dinheiro e moça bonita é ouro sobre azul... eu quero...
CINCINATO – E ainda mais uma rapariga de truz e por quem andas de queixo caído...
DEMÉTRIO – Aceito sem restrições: moça e dinheiro aceito.
CINCINATO – Toma, Prodígio; (Dá-lhe o dinheiro.) verás que a estralada é ainda melhor do que imaginas... a rapariga é Dionísia... segredo!
DEMÉTRIO – Oh!.. . será possível!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.