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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

FÁBIO – Não se consterne... não posso vê-la assim... atenda... minha irmã é rica... muito sua amiga... e basta uma palavra de v. ex. para que nem mesmo lhe seja preciso passar pelo vexame do pedido... (Com ternura.) HELENA (Levantando-se e fugindo.) – Oh!...

FÁBIO – Uma palavra, uma ordem sua, e eu...

HELENA (Levanta a cabeça e em silêncio vai até a mesa e toca a campainha.) FÁBIO – Dª. Helena!

CENA VIII

FÁBIO, HELENA e JOSÉ

HELENA – Entrega a este senhor o seu chapéu. (José obedece.) FÁBIO – Minha senhora...

HELENA (Sem olhar estende o braço e aponta com o dedo a porta.) – José!

convida este senhor a sair. (Fábio toma o chapéu e sai arrebatado.)

CENA IX

HELENA, CLARIMUNDO e CINCINATO

CLARIMUNDO – Filha abençoada!... exulta!...

HELENA (Rompendo em soluços.) – E Adriano!... e meu marido!... (Nos braços de Clarimundo.)

CLARIMUNDO – Eu o salvarei.

CINCINATO (De joelhos toma e beija a mão de Helena.) – Perdão, minha senhora! beijo-lhe o santo dedinho indicador que mostrou a porta da rua ao diabo.

FIM DO TERCEIRO ATO

ATO IV

A mesma decoração do primeiro ato.

CENA I

BRÁULIO e GERTRUDES

BRÁULIO – Assim é que é: sessão cheia! pensei que o espanhol me tivesse desacreditado a casa, e hoje acudiu ainda mais gente! eu tinha chegado a calcular com a necessidade de mudar de acampamento.

GERTRUDES – Ora... a polícia aqui é tão boa!

BRÁULIO – Em sinal de gratidão não falemos nela.

GERTRUDES – E Dionísia? em que ficamos?...

BRÁULIO – É uma entrosga difícil! quem diria que o Quebra-louça em um abrir

e fechar de olhos nos poria em revolução!... três contos de réis!... é um homem de bem: por mim estou resolvido a faltar a palavra ao Fábio, que é um impostor, e tanto mais que se arranja o negócio de modo que me deixam com cara de logrado, o que me serve para desculpar-me com ele.

GERTRUDES – Eu desconfio do Cincinato: é um estróina que se diverte a debicar-me.

BRÁULIO – Ele nos pagará: basta entregá-lo a Dionísia.

GERTRUDES – O pior é que Dionísia tem sua queda para Adriano.

BRÁULIO – Razão demais: isso indica ponta de capricho e ameaça de ligação demorada que não nos convém. O Quebra-louça há de desesperá-la em três dias, e não será capaz de sofrê-la três semanas: antes de um mês recolheremos Dionísia.

GERTRUDES – Então vou ralhar com ela, e convencê-la de que deve preferir o Cincinato. (Vai a sair)

BRÁULIO – Ao contrário: vai dizer-lhe cobras e lagartos do Quebra-louça, e sustentar a candidatura de Adriano; mas fala sempre na riqueza do outro: verás que ela muda de parecer: vocês todas são uns demônios de contradição...

GERTRUDES – Ora o Cincinato! quando mal se esperava...

BRÁULIO – É um homem de ouro! paga à vista e ao portador:

conquista como César, (Sussurro dentro.) começam...

UMA VOZ (Dentro.) – Basta, Cincinato?

CINCINATO (Dentro.) – Jogo por fora para ter direito aos eclipses: faço um entre-parêntesis para avaliar o que ganhei na tripa.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Vai, malvado!

BRÁULIO – Ele chega... deves ir tocar; daqui a pouco faze Dionísia cantar algum lundu provocador.

CENA II

BRÁULIO, CINCINATO e GERTRUDES, que se vai.

CINCINATO – Adeus, mamãe Gertrudes! (Ao encontrá-la.) GERTRUDES –

Que diabo de homem! (Vai-se.)

BRÁULIO – Aborreceu-se de jogo?

CINCINATO – Venho triste: feliz no jogo, infeliz no amor; não apostei que não ganhasse... vou perder com a bela Dionísia... não é?...

BRÁULIO – Tenha mais confiança em si: merece muito e sabe querer as coisas; é pena que não procure recomendar-se melhor a Dionísia.

CINCINATO – Eu tomei por caminho a linha reta: procurei chegar ao coração da sobrinha, fazendo escorregar a mão pela bolsa do tio; sou da escola realista: falei claro.

BRÁULIO – E eu lhe respondi que talvez arranjássemos tudo a contento.

CINCINATO – Talvez é o vago e o escuro: talvez é o animal que tem a cabeça escondida no sim, e a cauda enrolada no não. Eu fui mais positivo... no que falei, apresento... olhe... é só para mostrar... (Abre a carteira e mostra.) seis notas de quinhentos...

BRÁULIO – Novas e bonitas... vejo bem; mas podem se fazer as coisas decentemente... o senhor é escabroso... exprime-se de modo...

CINCINATO – Nítido e transparente: resolva a questão.

BRÁULIO – Dê as suas ordens para que esteja pronto e à nossa porta o carro à meia-noite. Hei de convencer Dionísia.

CINCINATO – Convença-a; porque o carro chegará às onze horas; tenho o costume de preparar a couve antes da carne; mas pelo que me disse haverá em tal caso à sua porta dois carros para o mesmo fim, o de Adriano, e o meu: e se, por engano, a bela Dionísia... olhe, sr. Bráulio, tudo pode acontecer, menos somente uma coisa...

(continua...)

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