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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Adriano (Vendo e atirando fora os bilhetes de visita) - E esta nuvem de bilhetes de visita! Oh! Que povaréu, que multidão veio visitar os meus cinco milhões!... vejamos sempre; (Tira um) comendador fulano dos anzóis carapuça... Não conheço, fora com ele; (Outro) O Deputado... Misericórdia! Deputado é uma coisa que custa muito cara à nação; (Outro) o brigadeiro... Fora, que pode brigar comigo; (Outro) o doutor... Pior está essa! Doutores longe de minha porta; (Outro) Mr. De tal, cabeleireiro, tem pomada de urso e água dos amantes... Ao fresco; (Outro) pílulas vegetais... E esta! Pois já tão depressa não me querem dar pílulas a engolir?... (Outro) trastes, mármores e porcelanas... entendo! (Outro) frei Laverno faz os seus cumprimentos... Ah! é um frade!... chegou a minha fama aos conventos... rua; (Outro) o barão de qualquer coisa... Irra! Não posso mais!... (Atira com todos os bilhetes fora) Eis ali rolando pelo chão não sei quantos diplomas da vergonha humana!... desprezavam o artista e vêm beijar os pés do milionário!... Miseráveis! Vândalos!... isto ou é para desesperar, ou para rir!

Celestina – Pois então é melhor rir... riamo-nos!

Adriano – Vá feito... riamo-nos!... (Canta)

Vejam já quantos amigos

Mal me deixam respirar!

“Que cambada d marrecos

“Pega neles p’ra capar!”

Sou rico! Sou rico!

Já tenho outro rosto!

Sou rico! Sou rico!

Não caibo de gosto!

CENA XIV

Eduardo, Ernesto, Adriano, Celestina, Beatriz e os amigos.

Ernesto – Oh! Muito bem, Adriano; como vamos de fortuna?...

Adriano – Vinde, meus amigos, vinde tomar parte da minha alegria: eu estou nadando em um mar de ouro!

Eduardo – Nós sabemos tudo.

Ernesto (Tristemente) – Teu primo é morto, não é assim?...

Adriano (Como querendo chorar) – Ah!... é verdade!...

Beatriz (O mesmo) – Ah! é verdade! Era muito bom moço!

Eduardo – Então estás muito aflito?...

Adriano – Sim tenho chorado... este é já o terceiro lenço; os outros ficaram ensopadinhos de lágrimas; e contudo eu conhecia muito pouco a meu primo... apenas nos tínhamos visto, quando mamávamos: porém, a morte é sempre uma separação dolorosa.

Ernesto – Escuta, Adriano; tu és sensível?...

Adriano – Ao menos tenho essa pretensão, e as minhas lágrimas sinceras...

Ernesto – E eras muito amigo de teu primo?...

Adriano – Oh! O mais que é possível...

Ernesto – Abraça-me, pois, meu amigo, enxuga o pranto; ele não está morto.

Adriano (Estupefato) – Não... não... não... não está morto?!!

Beatriz – Não está morto?... isso era o diabo agora!

Celestina – Como o sabe, senhor?...

Ernesto – Não está morto, porque nunca esteve vivo.

Adriano – Isto não é brincadeira; creio que é negócio muito sério!

Ernesto – Ontem, aquecido pelo champanhe, tu te gabaste de ter na Califórnia um primo senhor de milhões...

Adriano – Eu... eu disse isso?... é possível; porquanto não me lembro de coisa alguma!

Ernesto – E querendo zombar de nós, apenas nos lembraste a idéia de uma caçoada.

Adriano – Uma caçoada!... como?... este artigo do jornal?...

Ernesto – Não passa de uma invenção nossa!

Adriano – Pobre outra vez!... (Caindo numa caixa) Eu... morro agora por força!

Celestina – Meu Deus! Adriano não está bom!

Beatriz – E eu a gastar políticas com um musicozinho tão ordinário! com uma bisca, com um farroupilha desta qualidade!... Vou já participar ao senhor Pantaleão. (Vaise)

Ernesto – Que é isto, Adriano?... sê homem: se tivéssemos previsto, que sentirias tanto um simples gracejo de amigos...

Adriano – Ah! meus amigos, eis aqui uma comédia muito capaz de acabar em tragédia... Eu estava tão feliz!...

Celestina – Eis-nos de novo em nossa boa mediocridade.

Adriano – Não! Não posso suportar semelhante desgosto! Isto é um salto mortal! É muito melhor atirar-me de uma janela abaixo! (Corre e esbarra-se com FELISBERTO)

CENA XV

Felisberto e os ditos

Felisberto – Oh! Que me rebenta o nariz!

Adriano (Submisso) – Eu lhe fiz mal... ofendi-o?...

Felisberto – Não foi nada... trago o dinheiro a Vossa Senhoria.

Adriano – A minha senhoria... a minha senhoria acaba de receber a sua demissão.

Felisberto – Não o compreendo, meu prezado amigo.

Adriano – Digo, que agora aparecem suas dúvidas a respeito do negócio.

Felisberto – Que, senhor Adriano! Vossa Senhoria quereria faltar a palavra!... (À parte) Diabo! E eu que já tratei a cessão da casa com vinte por cento de lucro!

Adriano – Não é isso, mas devo dizer...

Felisberto – Nada quero ouvir: tenho a sua palavra, e um homem honrado, senhor, não tem senão uma palavra: eis aqui o contrato de venda para assinar.

Adriano – Todavia...

Felisberto – Ah! senhor Adriano! É possível que tenha em tão pouco a sua palavra?...

Adriano – Senhor Felisberto!...

Felisberto – Esta hesitação me dá o direito de dizer o que disse.

Adriano – E o senhor não se arrependerá deste contrato?...

Felisberto – De modo nenhum.

– E aconteça o que acontecer não se queixará de mim?...

Felisberto – Eu queixar-me?... e de quê?... assine, tenha Vossa Senhoria a bondade de assinar.

Adriano (À parte) – Com efeito... posso bem fazer este negócio... a casa é minha, e eu ganho nesta venda quatro contos de réis; (Assinando) vamos, pois que o senhor o exige, eu assino.

Felisberto – Para lhe provar que o negócio me convém, ajuntei ao dinheiro, que lhe entrego, um recibo de conta que me devia, e portanto estamos quites.

Adriano (Recebe e conta o dinheiro) – Como?... minha conta também?... ah!

Celestina, eis aqui um remorso de adversidade!

Felisberto – O que quer dizer com isso?... CENA XVIOs ditos, Pantaleão e Beatriz

Pantaleão – Isso é um horror! É uma ladroeira!... uma infâmia!...

Todos – Que aconteceu?...

Pantaleão – O senhor músico, meu locatário, é vítima de uma mistificação! Ele é tão rico, como aqui, a velha Beatriz!

(continua...)

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