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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Raquel, a solidão me fez tão sensível e tão capaz de amar, perdoa; mas preciso é confessar que também o aspecto e as lições do mundo têm embotado na tua alma o mais fino dos sentimentos! Não temos tocado os extremos, arrebatadas pela educação que nos deram nossos maiores: eu serei demais inocente; mas tu ficaste sábia demais.

— Aceito o cumprimento, Honorina, e te ofereço toda a minha ciência; façamos um contrato; segundo as necessidades do momento eu te emprestarei metade da minha malícia, ou tu me darás algumas doses da tua inocência. Ora, pois: realizemos os votos da nossa infância; soldemos para sempre os laços de uma amizade velha como a nossa vida; celebremos uma dupla aliança ofensiva e defensiva, e primeiro que tudo, Honorina — confiança por confiança.

— Sim, Raquel, coração por coração.

E as duas moças acabavam de selar com um beijo o tratado de aliança, quando ouviram rumor, como o que faria alguém que furtivamente se retirasse por entre os arbustos do jardim.

— Meu Deus!... é alguém...

— Honorina! eu tenho medo...

As duas moças instintivamente cerraram a vidraça, trancaram a janela, e depois de escutar se de novo faziam algum ruído no jardim, lançaram-se ambas sobre o mesmo leito.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Elas dormiam ainda no momento em que Lúcia entrou no quarto e as acordou dizendo:

— Já são nove horas da manhã, senhoras!

As duas jovens se levantaram e trataram de vestir-se; depois, lembrando-se da noite que tinham passado, elas foram à janela, recostadas à qual tanto tinham conversado. Debaixo da vidraça dessa janela estava um papel; Honorina o puxou... era uma carta.

Lúcia já as tinha deixado a sós.

— É uma carta... disse Honorina, admirada.

— E sem sobrescrito... nem selo, disse Raquel.

— Portanto... que faremos?...

— Abri-la sem dúvida.

— Mas... eu não sei... se devo...

Porém, quando Honorina disse — mas... — tinha os dedos na carta... chegou a pronunciar — eu não sei... — começara a abri-la: e ao dizer o — se deve... já a carta estava completamente aberta.

A carta era escrita com lápis, e dirigida a Honorina, era assim concebida: “Honorina; eu ouvi os teus pensamentos da noite passada; portanto, eu te amo! eu te amo com esse amor de poeta, com esse amor de fogo, que ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo! Sim: eu te amo! e tu me verás em toda a parte, seguindo-te, beijando as pisadas de teus pés, obrigando-te a amar-me ainda contra tua vontade, e não me deixando conhecer senão na hora em que tiveres de ser minha para sempre... oh! jovem cheia de imaginação e de sensibilidade... querias um amor de poeta?... uma paixão de louco?... em mim tens.”

— Mas, meu Deus, isto é inconcebível, murmurou Honorina toda vermelha de pejo, um homem amar uma mulher por a ter ouvido!

— É verdade... porém, não te lembras que falamos tanto na tua riqueza?...

— Oh! exclamou ela indignada e executando um movimento para rasgar a pobre carta. — Honorina, disse Raquel suspendendo-a, um papel destes guarda-se para fazer rir as amigas.

— Não, respondeu a jovem romântica, mas guarda-se, porque o homem, que nela escreveu, tem talvez de ser o bom anjo, ou o gênio mau da minha vida.

V

Hugo

Era quase meio-dia; Raquel já tinha partido com seu pai, quando Honorina entrou de novo na sala. Duas pessoas aí se achavam: Ema e Hugo; a avó e o pai da moça.

Ema era uma estátua do século passado; uma mulher de setenta anos, gorda, respeitável, coroada por seus cabelos brancos, com o rosário na mão direita, trajando as vestes negras da viuvez, e com uma expressão de bondade misturada com orgulho em sua fisionomia.

Hugo era, posto que às vezes timidamente, um representante da nova época: o primeiro que de sua família abandonara antigos hábitos e velhas idéias, foi por isso menos estimado de seus pais que um irmão, morto há alguns meses, e via-se então chefe da casa; era o contraste de sua mãe, pois pensava, falava e vestia-se segundo a ordem do dia.

(continua...)

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