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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

E, levantando o varapau, descarregou tal paulada no traseiro do animal que lhe fez soltar surdo gemido de dor.

—Juque, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente há pau caído ou pedra, que não deixe ele ir para diante?

—Pedra, Mochu, e pau na cabeça até rachá-la, é que precisa este ladrão...

—Vê, Juque, insistiu o alemão.

—Ora, Mochu... —Vê, sempre...

Saiu resmungando o camarada de detrás do borrego e deu a volta.

Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para desviar os acompanhadores de Cirino.

—Uê! Uê! exclamou com muita surpresa, aqui esteve alguém e pôs este sinal para que não se passasse...

—Eu não disse a você, replicou o cavaleiro com voz ate certo ponto triunfante. Asno tem razão: para diante há alguma coisa.

—Mas na vila, contestou José, nos disseram que o caminho vai sempre direitinho sem atrapalhação nenhuma...

—Na vila disseram isso, confirmou o outro. —E então?

E então? repetiu o alemão.

Houve uns segundos de silêncio.

Depois o cavaleiro acrescentou com a mesma imperturbável serenidade, e como que achando explicação muitíssimo natural:

—Na vila muita gente não sabe caminho. à:...

—Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenético, levem o gosto desandar por esses matos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem disse a Mochu, ninguém viaja assim. Isto é uma calamidade... — que, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adianta estar a berrar como um danado?... Olhe, antes, se por ai você não vê algum caminho do lado.

Obedeceu o outro e sem dificuldade achou a entrada da picada que levava a morada de Pereira.

—Esta aqui, Mochu, está aqui! anunciou ele com alegria.; um trilho que corta a estrada e vai dar nalguma casa pertinho ..

Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha:

—Contanto que ate lá não haja alguma légua de beiço..

—Ah! eu não lhe disse, respondeu o alemão. Agora toque barro devagarinho; ele anda que nem vento.

Pareceu o animal compreender, o alcance moral da vitória que acabara de colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada celeridade.

A razão é que também daí a pouco sorvia ele, teimoso e marralheiro bicho, como soem ser os da sua espécie, a bela água do ribeirão, em que se haviam refrescado as cavalgaduras de Cirino e de Pereira.

CAPÍTULO VIII

OS HÓSPEDES DA MEIA-NOITE

Sei, sim, sei que é noite!

(Xavier de Maistre, Viagem ao Redor do Meu Quarto).

Não tardou muito que os dois noturnos viajantes começassem a ouvir os latidos furiosos dos cães que, no terreiro de Pereira, denunciavam aproximação de gente suspeita junto à casa entregue a sua vigilante guarda.

—Por aqui perto fica algum rancho, Mochu, avisou o camarada; havemos enfim de descansar hoje .. Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engolir antes que venha alguém saber se somos cristãos ou não... Safa! Que canzoada!... Ó Mochu, o Senhor deve ir na frente... rompendo a marcha...

— Você, respondeu o alemão, bate neles com cacete...

—Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!

Depois de resmonear algum tempo, exclamou:

— Ah! espere, já me lembrei de uma coisa.. . O filho do velho é mitrado. . .

E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquele inesperado acréscimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.

— Juque, observou o alemão sem a menor alteração na voz, assim burro quebra cadeira. Depois morre... e você tem de levar as cargas dele às costas...

Quis o camarada encetar nova discussão, mas a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o qual entrou, todo encolhido atrás das cargas, a gritar como um possesso:

—Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!

Aumentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cirino, pousados no rancho próximo, acordaram e bradaram juntos:

—Que diabo é isto? Temos matinada de lobisomens?

Abriu-se nesse momento a porta da casa e apareceu Cirino na frente de Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da brisa noturna.

—Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.

—Camarada e viajante, respondeu com voz forte e simpática o alemão, achegando-se à luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta casa?

—Está aqui ele, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar mais claridade em torno de si.

—Muito bem, replicou o recém-chegado. Desejo agasalho para mim e para o meu criado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.

Aproximara-se também o José, cuidando logo, no meio de muxoxos e pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara fincada no chão.

—Mas, observou Cirino, que faz o Senhor por estas horas mortas a viajar? ...

—Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acomodar-se com o que achar...

Pois, meu senhor, desapeie. Bem-vindo seja quem procura teto que é meu. —Obrigado, obrigado, exclamou com efusão o estrangeiro.

(continua...)

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