Por Visconde de Taunay (1871)
Assim se passou 21 de abril; os dias imediatos consagramo-los ao repouso e exame da situação. Todo o corpo de exército transpusera a fronteira e acampara ao sul da fortaleza, ali apoiando a ala direita, ao passo que a esquerda se prolongava pela mata do rio. Reinava, então, no acampamento abundância de víveres frescos. Deles tínhamos a maior necessidade; e a nossa gente pôde gozar dos últimos bons momentos que a sorte nos reservara. Parecia nosso chefe mais sereno do que habitualmente, mostrando-se até confiante. Começou qualificar a coluna expedicionária: Forças em operações Norte do Paraguai e todos os seus ofícios, como aliás, imita-lo, todas as nossas cartas, destinadas a Mato Grosso, Goiás e ao Rio de Janeiro (confiadas a Loureiro, que então de nós se despediu) traziam no sobrescrito: Império do Brasil.
No entanto, do alto do morro da Bela Vista, viam-se de dia numerosos cavaleiros inimigos, de sentinela ao pé de grandes buritis. À noite ousavam alguns acercar-se do acampamento ainda mais.
Esta contínua vigilância tanto mais nos incomodava, quanto também tinha em vista subtrair do nosso alcance o gado da campina, sempre que as nossas guardas avançadas pareciam querer captura-lo. E a nossa inquietação a tal respeito crescia sempre. Haviam os refugiados exagerado a facilidade do abastecimento nestas pastagens; nada víamos do que nos fora anunciado; e até mesmo dois dias depois de nossa chegada a Bela Vista, ordenando o Coronel um rodeio, protegido pelo 21.° batalhão, e levado a mais de uma légua, dai se não auferiu resultado algum. Ficamos todos convencidos de que nada havia a esperar, pelo menos agora, de tentativas neste gênero. Se é exato que os paraguaios haviam desaparecido ao avistarem os nossos, desde o dia imediato estavam de novo no posto, ao pé da palmeira.
Quase insultuosa chegava a ser tal permanência. Poderíamos livrar-nos dela atirando algumas granadas, mas pensamento diverso veio contrariar esta idéia, inclinando-se o espírito do comandante a outra ordem de sugestões.
Neste pressuposto fez partir, escoltado pelo 17.° Batalhão, um oficial parlamentário, portador de proclamação escrita em espanhol, português e francês, que se fincou, presa a uma bandeirola branca, a légua e meia do acampamento.
Assim se redigia: "Aos Paraguaios:
Fala-vos a expedição brasileira como a amigos. Não é seu intuito levar a devastação, a miséria e as lágrimas ao vosso território. A invasão do Norte como a do Sul de vossa República significa apenas uma reação contra injusta agressão nacional. Será conveniente que venha um de vossos oficiais entender-se conosco. Poderá retirar-se, desde que assim entenda; e bastará que manifeste simplesmente tal desejo. Jura o comandante da expedição pela honra, pela santa religião professada por ambos os povos, que todas as garantias se oferecem ao homem generoso que em nós confiar. Disparamos tiros de peça como inimigos, queremos agora nos entender como amigos reconciliáveis. Apresentai-vos empunhando a bandeirola branca e sereis recebidos com todas as atenções que os povos civilizados, embora em guerra, mutuamente se devem".
A resposta, no dia seguinte encontrada, fora traçada sobre um papel preso a uma varinha e era do teor seguinte:
"Ao Comandante da expedição brasileira:
Estarão os oficiais das forças paraguaias sempre atentos a todas as comunicações que se lhes quiserem fazer; mas no atual estado de guerra aberta entre o Império e a República, só de espada desembainhada poderemos tratar convosco. Não nos atingem os vossos disparos de peça e quando tivermos ordens de os obrigar a calar, há no Paraguai campo de sobra para as manobras dos exércitos republicanos".
Era a letra de mão firme e corrente. Apunha-se-lhe o selo da República: barrete frígido por sobre um leão rompante.
As fórmulas empregadas em tal resposta atestavam certo grau de cultura intelectual e boa educação. Mas veio logo o insulto. Recebeu o comandante uma folha de couro na qual se estampavam os seguintes versos, mais grosseiros do que ingênuos:
"Avança, crânio pelado!
Mal-aventurado general que espontaneamente Vem procurar o túmulo".
A isto se ajuntava:
"Crêem os brasileiros estar em Concepción para as festas; os nossos ali os esperam com baionetas e chumbo".
Bravatas sem alcance, nada tendo de sério. Mas o que o era, e no mais alto grau, viam-no todos, vinha a ser a impossibilidade de nos abastecermos. O 21.° batalhão mandado novamente, a 27, para ajuntar e trazer gado, nada conseguira; e embora a ninguém perdesse numas escaramuças de cavalaria, voltava com a triste certeza de que a região estava para conosco nas disposições as mais negativas e hostis.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.