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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— E por que não há de poder? - perguntou o advogado, mais escravo de sua exaltação, do que senhor do seu afeto, na realidade difícil de dominar, porque era aquela vez a primeira que rebentava, tinha pujança, a impetuosidade das correntes nativas, que se atiram às pedras, se despedaçam contra elas, mas transpondo-as em fios cristalinos, adiante coligem os seus cristais espalhados e prosseguem a sua vertiginosa carreira.

— Não posso, respondeu Maurícia. Se eu desse esse semelhante passo o mundo cobrir-me-ia de baldões, e o futuro de minha filha correria iminente perigo.

Ângelo sobresteve, sentindo a força destas palavras. mas o seu repentino amor não lhe consentiu larga reflexão. Ele tornou logo:

— Mas, se o juízo do mundo lhe causa estes medos, como é que a senhora fala em recusar a convivência com o seu marido? Não se engane, minha senhora. Veja que está colocada entre as duas pontas de um dilema terrível. Cuida que há de poder evitar a língua do mundo e ao mesmo tempo a companhia daquele de quem vive fugindo horrorizada? Isto é impossível. Urge escolher um destes dois princípios extremos, já que não é possível ambos. É questão de preferência. Pensará acaso que vindo a Pernambuco aquele a quem a fatalidade a ligou, e procurando a casa de sua irmã, tem outro intento que não seja o de chamar a senhora aos eu poder? Cuidará que ele fez de propósito esta viagem somente para lhe dizer com o sorriso nos lábios, e brando fulgor dos olhos: “Vim ver-te, porque tinha grandes saudades de ti; porque tuas lindas feições estavam quase todas apagadas de minha imaginação, e eu queria avivá-las para as levar comigo ao túmulo como o derradeiro penhor do nosso afeto?” Se tem essa crença, D. Maurícia, permita-me disser-lhe que ela é enganosa. Os homens, especialmente aqueles a quem o contato com o mundo destruiu todas as brandas pudicícias da honra, não alimentam o coração com estas delicadas iguarias. Desse homem, que já foi o seu algoz, não espere carícias, senão as severidades de uma vingança longamente estudada. Mas, se não lhe parece acertado o que digo, então, voltemos. Bezerra ainda lá está.

Ângelo foi desapiedado. No seu amor, na sua paixão, tornou-se cáustico, mordaz, quase descortês.

São cruéis estas armas quando têm por alvo a mulher adorada; ordinariamente, saem vencedores. Foi o que sucedeu então. Maurícia, que tinha aliás fortíssimos ânimos, não pode resistir a estas considerações. que se pareciam com invectivas, mas vinham saturadas do imenso amor, que inflamava a alma do bacharel. Viu neste uma organização superior, e sentiu prazer em deixar-se vencer por ele. Foi com certa impressão de volúpia deliciosa, posto que triste, que ela respondeu:

— Tem razão, tem razão! Escolherei, e escolha é fácil. Já uma vez afrontei o mundo, e não sai triunfante? Por que tomaria agora o lado oposto? Fugirei de meu algoz enquanto tiver forças para o fazer.

— Mas então, atalhou Ângelo, lembre-se, D. Maurícia, de que há nesta vida um homem de coração puro que estremece de amor pela senhora, e que para lhe poupar o menor desgosto será capaz de toda a sorte de sacrifícios. Por que não assentamos logo o que devemos fazer? Rogo-lhe que não me poupe na obra de sua tranqüilidade. Estou pronto a fazer tudo o que ordenar. Quer a prova? Ordene.

Nesse momento, viram eles ao longe na estrada uns vultos vagos, e logo ouviram o rumor de vozes.

— Estou ouvindo Virgínia falar, disse Maurícia. Vamos ao seu encontro. Quero fazê-la voltar. Esperaremos no sítio de D. Rosa pela carruagem do engenho, que não deve tardar. Eu deixei dito que nos mandassem buscar logo que anoitecesse. demais, tenho ainda de escrever a Eugênia. Meu Deus! que será de mim? Tenho a cabeça em fogo.

— Mas... o que resolve? inquiriu Ângelo com insistência.

Maurícia pareceu refletir um momento, durante o qual o bacharel mal pode suster a sua impaciência.

— Se precisar dos seus serviços, respondeu Maurícia, escrever-lhe-ei.

Ângelo, agradecido, tomou-lhe uma das mãos, e beijou-a com frenesi de louco.

— Obrigado, obrigado, disse como quem acabava de entrar em um mundo de delícias, longamente esperadas. Lembre-se de mim. Não sou de todo inútil.

— Olhe, tornou Maurícia. Não me enganei. Aí vem Virgínia com Sinhazinha.

— Para onde vai, mamãe? perguntou Virgínia, tanto que por entre árvores e sombras reconheceu Maurícia.

— Eu ia a tua procura. Voltemos, voltemos.

— Que é que diz, D. Maurícia? interrogou Sinhazinha admirada. Voltar para onde?

— Peço-lhe um obséquio, Sr. Dr. Ângelo, disse Maurícia, dirigindo-se ao bacharel. Dê o braço a Sinhazinha, e diga a Eugênia que um súbito mal- estar nos obriga a voltarmos inopinadamente. Eu estou realmente em termos de cair. Não, não lhe diga nada - acudiu logo. Vou já escrever-lhe.

Sinhazinha não sabia o que pensar do que via e ouvia: e quando ia fazer novas interrogações, Maurícia abraçou-a, e, dando o braço a Virgínia, arrastou esta como quem fugia a um flagelo iminente.

— Tornemos à casa de Martins, disse Ângelo à filha de D. Sofia. — Mas o que é isto? Que foi que houve?

(continua...)

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