Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Eram as toadas com que os negros respondiam da porta da senzala, de cima da bagaceira, da almanjarra, do pátio da casa-de-purgar, aos regozijos da casa-de-vivenda, onde os toques ressoavam desacompanhados das altercações, a que dá lugar o demônio do jogo, então bem menos conhecido do que hoje do fazendeiro nortista.

Parece que se prepara grande guerra à cana-de-açúcar no norte. Para levar a efeito este pensamento – o da destruição da planta abençoada, servem-se do de cultivar com largueza o café no interior das províncias onde até o presente se cultivou largamente a cana.

Não me leves a mal uma declaração que farei aqui, tocante à projetada revolução agrícola.

Entristeço-me, meu amigo, a qualquer indicio de que á cultura da cana se trata de substituir cultura de planta diferente, seja muito embora esta da estatura e importância do café, ao qual desde pequeno me acostumei a votar grandes afeições. A razão é porque a cana-de-açúcar me inspira intima e saudável paixão, que não sei explicar, mas que tem em mim a extensão e a amplitude de uma elevada e pura estima. A meus olhos, ela não é uma planta, é um ente magico e pitoresco. Vejo nela poesia e grandeza que irresistivelmente me levam a tributar-lhe culto do coração.

Causam-me profundas alegrias seus bastos ajuntamentos, seus partidos virentes, acamados, com suas folhas, ora encurvadas, ora destendidas ao sopro dos ventos irados ou brincões. Essas folhas são como harpas gigantes, melancólicas, ternissimas, que as virações fazem vibrar docemente e que despedem harmonias eólias.

A vista da moagem produz em mim gratas alterações, e traz-me saudades da infância, recordações veneráveis dos tempos felizes em que, levando a vida entre a vila e os engenhos, entre a casa paterna e os painéis que a natureza expõe gratuitamente aos que para ela têm os seus principais afetos e a sua primeira admiração, meu espirito adejava, como os sanhaçus e os bentevis, por sobre as folhagens, mergulhado alternativamente já em luzes, já em sombras, mas sempre enleado e passado de inocente contentamento.

Para o homem do norte o engenho de açúcar é o representante de imemoriais e gloriosas tradições. Especialmente o pernambucano nasce vendo com amigos olhos aquelas grandes propriedades que são como os seus castelos feudais. O engenho é o solar do norte. A nobreza do país principiou por ele; não conheceu outro solar. Ele figura nas maiores paginas da historia daquela parte do vasto império. Sua importância é lendária, histórica e santa.

E querem agora que á cana-de-açúcar se substitua o café! Promovem a extinção do giganteo elemento que produziu e perpetuou fortunas respeitáveis naquela grande região!

Aperfeiçoar os processos de cultura dessa planta ilustre, a que Pernambuco deve brilho e grandeza imorredoura, é digno do progresso. O direito senão o dever de melhorar as condições da agricultura, do comercio, das industrias, está acima de toda duvida; mas suprimir um gênero de cultura que tem por se a consagração de muitos séculos e elevou muitas gerações e opulentou a província, não me parece nem justo, nem acertado, nem econômico.

Voz secreta e consoladora, dissipando os meus temores, segreda-me que tu, ó planta benfazeja – estandarte da independência e da riqueza do pernambucano, seja qual for a conspiração tramada contra ti, não hás de desaparecer das nossas planícies, dos nossos outeiros, dos nossos vales e encostas, por onde estendes há três séculos tua folhagem hospitaleira.

A botada tendo caído em um sábado, ficou Francisco com o menino para passar o Domingo.

De manhã muito cedinho, Lourenço achou-se de pé, contentando a vista no movimento que lhe oferecia a novidade. Não se fartava de ver os negros passar com feixes de lenha e de bagaço para alentarem o fogo da fornalha. Ia e vinha com eles, fazia-lhes perguntas sobre diferentes coisas que observava, mas não compreendia. Recebia as explicações com visível prazer.

Norando que voltava aos partidos a buscar novos feixes de canas, um carro que acabava de ser descarregado á porta do engenho, Lourenço saltou sobre a mesa dele e deixou-se conduzir aos canaviais de açúcar, coisa que, para bem dizermos, só conhecia de nome.

Quando suas vistas adejaram por sobre aquele mundo de verdura, experimentou sua alma indizível impressão de contentamento.

Eis o que o menino viu.

Formando um cordão, os negros estavam ali a cortar com afiadas foicinhas de mão as canas que outros iam despojando das folhas e atirando no campo, assim privadas da sua verde plumagem. Grandes pilhas delas mostravam-se do meio do imenso tapete de folhas. As hastes, pouco antes graciosas, estavam agora nuas e sem elegância. Sua formosa roupagem cobria o seu leito de morte.

Na véspera tinha sido distribuído aos negros fato novo, que eles traziam ainda sobre o corpo, visto que a festa emendara com o Domingo. Com suas ceroulas e camisas azuis, seus chapéus de palha de pindoba, tão novos como a roupa, figuravam eles uma linha de soldados que derribava matos para assaltar fortificações inimigas.

Levando os olhos ao lado oposto ao de que vinha o corte, o menino só descobriu ai estendido mares de folhas ondulantes. Eram os canaviais novos, que agitavam seus panos de verdura ao sabor das virações campesinas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →