Por Bernardo Guimarães (1872)
O rapaz que sai de um seminário depois de ter estado ali alguns anos, faz na sociedade a figura de um idiota. Desazado, tolhido e desconfiado, por mais inteligente e instruído que seja, não sabe dizer duas palavras com acerto e discrição, e muito menos com graça e afabilidade. E se acaso o moço é tímido e acanhado por natureza, acontece muitas vezes ficar perdido para sempre.
Eis a razão por que Eugênio, que todos desejavam e esperavam ver brilhar na conversação como um pequeno sábio, representou o papel tristíssimo que vimos, diante de pessoas que desde a infância lhe eram familiares. Não era por certo, que ele não sentisse no cérebro um turbilhão de idéias, e mil sentimentos estuarem-lhe no coração; mas é que o espírito está sujeito As mesmas leis do corpo a certos respeitos. Como aquele, que esteve longos anos encarcerado, ao sair da prisão não pode mover mais os membros entorpecidos, assim o espírito recluso largo tempo entre as paredes de um claustro, atado continuamente ao poste do estudo forçado e da oração, sente-se paralisado, quando lhe é mister desenvolver-se em uma esfera mais ampla e mais livre.
Verdade é que a situação de Eugênio era naquela ocasião sobremaneira melindrosa. Seu coração passava por uma crise violenta e profunda, como o leitor pode imaginar. Se a imagem da simples e travessa menina de doze anos não se tinha apagado do espírito durante uma ausência de quatro anos, a presença real dela agora transformada em mulher, antes em anjo radiante de mocidade e formosura, o havia deslumbrado e subjugado completamente, ameaçando deitar por terra toda a sua vocação clerical, e anular de todo o resultado dos esforços empregados pelos padres durante quatro anos de noviciado.
O mancebo já se envergonhava de querer ser padre, e todas as vezes que olhava para Margarida, não podia conformar-se com semelhante idéia.
A visita de Umbelina e sua filha, como é de costume na roça, durou quase todo o dia. As vizinhas, em companhia da dona da casa e de Eugênio, correram a casa toda, foram ao moinho, ao paiol, passearam pelo quintal, comeram frutas, colheram flores, jantaram e tomaram café três ou quatro vezes. Eugênio as acompanhava mas quase sempre um pouco afastado, taciturno e sorumbático e apenas dizendo uma ou outra palavra, quando sua mãe ou Umbelina o interpelavam. Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua.
Margarida, porém, que ainda não tinha sido iniciada nos rigores e escrúpulos da vida claustral, e por cujo espírito nunca passara a idéia de ser freira, abandonava-se com efusão à alegria de tornar a ver o seu companheiro de infância, e sorria, cantava, brincava como uma borboleta por entre os canteiros florescidos do jardim, ou pelas sombras do pomar, apanhando flores e frutas que vinha oferecer a Eugênio, e com suas alegres conversas e encantadoras travessuras o provocava a sair daquele estado constrangido e acanhado em que o via.
De repente, Margarida, dando uma volta pelo jardim, apanhou duas flores e correu a apresentá-las a Eugênio.
— Aqui estão duas flores — disse ela —, um cravo e uma rosa. O cravo é você, a rosa sou eu. Fique com a rosa, que eu guardarei o meu cravo. Aquele que deitar fora a sua flor, é porque não sabe querer bem.
Eugênio tomando a flor, pela primeira vez ousou fitar em Margarida olhos ardentes de ternura e paixão; mas para logo os abaixou, e cobriu-se de rubor, como faria a mais pudica e tímida virgem.
— Oh!... Margarida!... eu — ia dizendo o moço, porém Margarida voltandose ligeira sem o escutar foi correndo para junto de sua mãe, que se achava a alguma distância com a senhora Antunes.
— Eu te adoro!... — era por certo o que Eugênio ia dizer; essa palavra, porém, Margarida já a tinha lido nos olhos do mancebo.
Em sua ingênua candura, Margarida, não enxergava inconveniente algum em reatar e mesmo, se fosse possível, estreitar os laços da sua antiga, familiaridade e afeição para com o amigo da sua infância. Como a flor, que entrega sem resistência o perfume do seu cálix ao sopro das virações, ela dava livre expansão aos inocentes afetos do seu coração.
Quando as visitas se foram embora, Eugênio pôs-se a refletir e ficou muito descontente de si mesmo. A lembrança do papel nulo e quase ridículo que fizera diante de Margarida mortificava-o, e protestou de si para si que quando fosse à casa da Umbelina, havia de tirar completa desforra.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.