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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

-mas nesse caso, meu bom Simão, também não vou.

- E por que não, meu patrão?

- Como hei de deixar-te aqui sozinho e desamparado!

- Não lhe dê isso cuidado. Ainda sei trabalhar. Deus é de misericórdia, e nunca há de faltar a este pobre velho um prato de feijão e um ranchinho em que durma. Já que é para seu bem, vá, meu patrão; Vmcê não deve perder um lance de fortuna, que vem mesmo agora a talho de foice, por amor de um velho camarada, que já não é tão criança que não possa sair sozinho pelo mundo, e eu, a dizer a verdade, mais lhe iria servir de peso que de outra coisa.

- Contudo, Simão, não tenho ânimo de deixar-te assim. Se adoeceres. . .

- Não banze com isso. tenho por aqui muito conhecimento, e muito patrão bom, que há de ter dó de mim. Vá, patrão, e N. S. do Patrocínio permita que seja para bem. No entanto, cá para mim, a minha fé é mesmo com este garimpo daqui. É deste chão que nós havemos de um dia arrancar a sua estrela de pedra.

- Não creias tal, Simão, deste chão só podem brotar espinhos para mim e urtigas, lágrimas e misérias.

- Está bem! . . . um dia Vmcê se há de desenganar; bote sentido no que estou dizendo. Vá para o seu Sincorá, e N. S.

da Guia que lhe acompanhe. Vá procurar sua estrela de pedra lá por esse mundo de meu Deus, e deixe-me cá ficar procurando ela por aqui mesmo. Havemos de ver quem acha primeiro.

Elias nenhuma importância ligava àqueles pressentimentos do pobre Simão. Era simplicidade ou caduquice de seu velho camarada. Depois de conversarem mais algum tempo sobre sua próxima separação, ambos adormeceram: o camarada sobre um couro ao pé do fogo, e o patrão sobre sua pobre cama estendida sobre um girau a um canto do rancho.

Daí a alguns dias Elias abraçou chorando seu velho camarada, era o único amigo que deixava na Bagagem! deu-lhe todo o dinheiro que inda lhe restava, e, tirando uma carta da algibeira, entregou-lhe dizendo:

- Esta carta é para Lúcia, Simão; tu mesmo a irás levar em sua casa na fazenda do Major; é um último favor que quero te merecer. Ninguém lá te conhece, pedirás pousada, e é impossível que despertes a menor suspeita. Lá procurarás entrega-la ocultamente a uma velha escrava por nome Joana, que a levará fielmente às mãos de Lúcia.

- Vá sossegado, patrão; a carta há de ser entregue.

A carta de Elias era assim:

“Já lá vão seis meses que nos separamos e que me acho aqui na Bagagem, onde a fortuna me não sorriu. Manda-me agora destino que eu vá tenta-la bem longe daqui, porém com muito melhores esperanças. Parto hoje para o Sincorá. Não te assustes, minha querida, com a distância que vai separar- nos. Em qualquer parte que eu vá, te amarei sempre com o mesmo ardor e lealdade. Falta-me ainda ano e meio para cumprir o meu fadário. mas não esmoreçamos; conserva-me fiel e puro o teu amor, tua confiança no futuro e na Providência, e o céu nos protegerá. Adeus, até o prazo marcado. ”

Daí a um instante Elias, em companhia de seu protetor, partia para o Sincorá.

V - O BAIANO

Já perto de dois anos eram passados, depois que Elias descoroçoado de encontrar no solo da Bagagem ao menos os elementos de uma riqueza, que se tornara condição indispensável para sua felicidade, ralado de saudades e com o espírito oscilando entre as mais sinistras a´preensões e as mais lisonjeiras esperanças, partira para longes terras em busca de fortuna, fiado na proteção de um homem que lhe era inteiramente desconhecido, abandonando seu destino à mercê da fatalidade.

A Bagagem já então apresentava o aspecto de uma povoação nascente, cheia de comércio, vida e animação, como são em seu começo todos os descobertos diamantinos. Já não eram simplesmente os toscos ranchos cobertos de baguaçu espalhados em desordem ao longo das margens do rio. Por entre eles alvejavam já não raras algumas casas caiadas e envidraçadas, como garças pousadas entre um bando de pardacentas pombas silvestres.

Algumas ruas menos irregulares se iam formando, e nelas viam-se já bonitas e bem sortidas lojas e casas de negócio de toda a espécie.

A Bagagem contava em seu seio talvez vinte mil almas à custa dos municípios vizinhos, que ficaram despovoados.

Quase todo o Patrocínio, o Araxá, grande parte do Piracatu e Uberaba tinham-se mudado para as matas da Bagagem.

(continua...)

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