Por Bernardo Guimarães (1869)
— Foi Tupá, exclamava ele em transportes de alegria, foi Tupá que aqui nos enviou este estrangeiro; e foi sua voz que me chamou para nos libertar de um monstro, enviado por Anhangá para maquinar a nossa perdição. Guerreiros, vamos dar graças aos céus e oferecer sacrifícios aos manitós de nossas tabas por este sucesso de tão feliz agouro.
Inimá ajuntou as armas do aventureiro, contemplou-as com admiração e curiosidade, e mandando conduzi-las com o corpo de Gonçalo em uma canoa, apressou-se em ir depor cheio de orgulho aqueles troféus, tão facilmente conquistados, aos pés do poderoso Oriçanga e da formosa Guaraciaba.
A taba do velho cacique Oriçanga, mais vasta e mais sólida que todas as outras, com sua porta guarnecida de flechas e lanças enfeitadas de vistosos penachos, com seu teto de palmas de baguçu tingidas de oca e de urucu, miravase galhardamente na torrente do Tocantins, e elevava-se entre as outras cabanas como a garça, rainha dos lagos, entre um bando de pequenas aves. A noite se aproximava. Sentado à porta da taba sobre a pele enorme de uma onça negra, Oriçanga esperava com impaciência que lhe trouxessem vivo ou morto o audacioso estrangeiro que assim ousava resistir a seus guerreiros, indignado de que tantos combatentes gastassem tanto tempo e achassem tamanha dificuldade em matar ou prender um só homem. Em pé junto dele, como tímida corça junto ao leão deitado, a gentil Guaraciaba tinha também os olhos fitos com ansiosa curiosidade nas canoas, que da outra margem vinham ligeiramente singrando.
Dentro em poucos minutos o corpo de Gonçalo inanimado e banhado em sangue, conduzido em uma rede com todas as suas armas, foi posto aos pés do velho cacique. Inimá e seus companheiros precediam o cadáver, soltando clamores de feroz alegria. O cacique porém os recebeu com semblante torvado, e ouviu com impaciência a narração que lhe fez Inimá do combate e da desesperada resistência do estrangeiro, e dos estragos que fez em sua gente. Depois abanando a cabeça com ar descontente e gesto merencório exclamou:
— Ah! Inimá! Inimá! já não pareces o filho do valente e invencível Iaboré! Quem diria que não ousaste ir sozinho arrostar a sanha do estrangeiro, e que deixaste morrer teus companheiros como uma vara de caitetus às garras da onça esfaimada!... Mancebos fracos e degenerados de hoje, sois incapazes de encurvar o arco de vossos antepassados. Em outros tempos, quando a idade não tinha ainda branqueado estes cabelos nem quebrado estes pulsos, eu só ou qualquer dos meus valentes teria esmagado esse mancebo com a mesma facilidade com que espedaço este cachimbo. — E esmagou entre os dedos o canudo pelo qual aspirava a fumaça da pituma.
A este gesto, a estas duras palavras bagas de suor frio escorregaram pela testa do jovem guerreiro, que batendo os dentes como um queixada enfurecido, com voz convulsa e abafada respondeu:
— Oriçanga! Oriçanga! não profiras tais palavras!... a cólera te cega, velho cacique, e torna-te injusto. Não penses que esse estrangeiro que acabamos de garrotear era um inimigo vulgar. Não; era um enviado de Anhangá, e estou certo que com ele combatiam contra nós os manitós das trevas ocultos entre os ramos da floresta. Se lá te acharas, se presenciasses esse estranho combate e visses por que modo sobrenatural o maldito imboaba se furtava a nossos golpes, por certo nos não julgarias com tão injusto rigor. Mas seja como queres: ao que me parece esse temerário estrangeiro não está morto ainda e é bem possível que ainda volte à vida; de propósito sopeei a força de meu pulso ao vibrar-lhe o último golpe. Procurem chamá-lo à vida, curem-se suas feridas, e quando de todo tiver recobrado suas forças, que venha medir suas armas comigo. Se aos primeiros botes eu não calcar-lhe o peito debaixo de meu joelho, e não escachar-lhe o crânio com um golpe deste tacape, possam os meus olhos nunca mais se encontrar com os da formosa e incomparável Guaraciaba.
— Sejas como dizes, replicou Oriçanga; seja o estrangeiro recolhido em um dos aposentos de minha taba; os pajés pensem suas feridas, e ministrem-lhe todos os cuidados que reclama seu estado, e vejam se lhe restituem a vida. Se ele recuperar os sentidos e viver, Inimá, será um sacrifício de excelentes auspícios para o dia em que receberes por esposa em tua taba a gentil Guaraciaba.
Ditas estas palavras, como descia a noite, o velho cacique levantou-se e a passos lentos recolheu-se para o interior da cabana.
O espetáculo do corpo de Gonçalo todo ensangüentado e crivado de golpes não fez mais impressão sobre o espírito daqueles ferozes selvagens, do que o de uma fera que em uma partida de caça acabassem de matar e arrastar para as tabas.
Mas não assim para Guaraciaba, que ao ver aquele belo e garboso mancebo, em cujo rosto inanimado ressumbrava a altivez e galhardia, todo pisado e banhado em sangue, sentiu agitar-lhe o seio um sentimento insólito de interesse e compaixão.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.