Por Bernardo Guimarães (1872)
Roberto, que com suas algazarras e proezas com os bois nada tinha conseguido no intuito de perturbar o colóquio de Eduardo e Paulina largara o laço, e saindo sem ser notado para fora do curral, e cozendo-se com a cerca do mesmo viera sutilmente postar-se junto deles, de modo que sem ser visto podia otimamente espreitá-los e escutá-los. Chegou justamente a tempo de ouvir clara e distintamente aquelas palavras de Eduardo – Amo-a muito; amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amála. – Supõe para logo que eram dirigidas a sua prima, e não quis ouvir mais. Desta vez não pôde conter-se, rangeu os dentes enfurecido, e sem atender a consideração alguma puxou pela faca, que sempre trazia à cinta, e ágil como um gato saltou de um pulo para dentro do curral.
Exatamente no instante, em que Roberto de faca em punho saltava a cerca e avançava furibundo para os dois, um troço de gado, que os campeiros estouvadamente escaramuçavam pelo curral, entrava atropeladamente por baixo da gameleira e ameaçava envolver em seu turbilhão a pobre Paulina no momento em que tendo-se despedido de Eduardo se ia retirando. Roberto vendo o iminente perigo que corria sua prima, esqueceu-se de sua cólera, e em vez de avançar para Eduardo, correu a acudi-la. Assim por um estranho capricho do acaso, que também parecia zombar do infeliz rapaz, achou este mudado o seu papel no momento em que entrava em cena, e forçoso lhe foi aceitar a mudança. Em dois saltos colocou-se junto a Paulina, e protegendo-a com o corpo, e a pontapés esparrodava para um lado e para outro o gado, que corria de tropel para o lado dela. Eduardo também, apesar de sua fraqueza, lançando mão de um ferro, que arrancou do carro, saltara para junto de Paulina. Afugentado que foi o gado, e passado aquele incidente, Roberto achou-se em presença de sua prima e de Eduardo na mais estranha e esquerda situação, que imaginar-se pode. Estes de sua parte nem por sombra podiam desconfiar qual tinha sido a sua primeira e sinistra intenção, pois que na triste disposição de espírito em que se achavam, nem tinham visto donde ele surgira, e estavam na persuasão que ele ali se apresentara no único intuito de acudir a Paulina. Esta com voz trêmula e com um sorriso forçado, lhe rendia os devidos agradecimentos.
– Deus lhe pague, meu primo; o senhor é um valente; se não fosse o senhor, esses malditos bois me teriam esmagado... ah! meu Deus! – acrescentou lançando a Eduardo um rápido olhar – que dia aziago este de hoje!
Roberto desconcertado, com os olhos baixos e como que corrido nada respondia a sua prima, e não sabia o que devia dizer, nem fazer. O infeliz até mesmo em seus furores sofria os mais estranhos e cruéis desencantamentos.
– Que é lá isso, senhores? – gritou da varanda o pai de Paulina, que observara aquele alvoroto. – Menina, o que andas fazendo no meio desse curral cheio de gado bravo e espantadiço? Sr. Eduardo, recolha-se também; olhe que este sereno não lhe pode fazer bem.
Roberto entendeu, que devia escoltar sua prima, e conduziu-a para casa. Eduardo acompanhou-os e deixou-se ficar na varanda, enquanto Paulina retirando-se para seu aposento foi devorar em segredo sua angústia e desesperação, e ensopou de lágrimas o travesseiro, por não ter um seio amigo em que pudesse derramá-las.
Tinha no coração amarguras a transbordar, e as lágrimas que chorava, lágrimas de fel e fogo, não podiam aliviá-lo. Era desgraçada e não tinha a quem lançar a culpa de sua desventura, senão ao destino ou ao céu que trazendo ali aquele mancebo em tão fatais circunstâncias viera como que de propósito e sem piedade arrojá-la no caminho do infortúnio. A morte era o único pensamento consolador, em que se abrigava aquela alma ulcerada. Tão vivo e ardente fora o afeto que concebera por Eduardo, tão doloroso o golpe, que este sem querer acabava de lhe vibrar no coração.
Capítulo VI
O juramento
Eduardo achando-se a sós na varanda debruçou-se sobre o parapeito e com a cabeça entre as mãos refletia sobre as ocorrências daquela tarde. A estranha perturbação em que caíra Paulina no fim da conversação que com ele tivera, lhe causava a mais dolorosa impressão. Já por vezes lhe despontara no espírito a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse o cuidado e o esforço desta em ocultar seus íntimos sentimentos, e esta idéia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de propósito para sondar o coração da menina e atalhar os progressos de uma paixão, a que não podia corresponder, que Eduardo não hesitou em fazer-lhe a relação do amor, que consagrava a outra. Compreendeu, então, claramente, quanto extremo de paixão abrasava aquela alma cândida e sensível, cuja paz viera perturbar com seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revelação que lhe fez sem calcular as conseqüências. Teria sido menos cruel deixá-la na incerteza, e encarregar ao tempo e à ausência a cura de um mal que ele com suas palavras não fez mais que exacerbar.
Além disso acrescia a consideração de que Roberto o reputava um rival e não podia encará-lo com bons olhos. Somente o velho chefe da casa não tinha para com ele prevenção alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posição sumamente melindrosa naquela casa, e sua estada ali por mais tempo não poderia deixar de produzir cenas desagradáveis e funestos resultados. Era-lhe pois forçoso e indispensável deixar o mais breve possível aquela fazenda, e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolução.
Destas reflexões o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente, disse-lhe em tom áspero e seco:
– sr. Eduardo, é preciso que sem mais demora o senhor saia desta casa!...
Eduardo olhou para ele espantado.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.