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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Três portas dão entrada para o templo. Sobre o pavimento dessa levanta-se um outro com pilastras, entre as quais abrem-se três janelas de peitoril. Acima deste pavimento ainda um terceiro, sobre o qual está montada a empena que remata em seu ápice pela cruz, e lateralmente por vasos de pedra que coroam as pilastras extremas. Entre as pilastras que sustentam a empena estavam as armas reais, como hoje estão as imperiais.

Antes de penetrar no interior da capela imperial, devo fazer duas observações: A primeira refere-se a uma alteração por que passou o antigo convento há cinco anos. A segunda não passará de uma pergunta filha da minha ignorância, e de uma idéia inocente que despertou em meu espírito o galo metálico da capela.

Há cinco anos reinava epidemicamente na capital do império a febre das empresas. O pensamento era bom, o desejo do progresso material justificadíssimo; o excesso, porém, a que se chegou fez da saúde moléstia. Tratou-se também com ardor nessa época de abrir até ao largo do Paço a rua do Cano, que devia ser toda de novo disposta, ladeada de casas magníficas, alinhada, embelecida e transformada na mais elegante das ruas da cidade.

Sorria tanto a idéia deste melhoramento, foi ele reputado tão facilmente realizável, que se atacou logo a única barreira que separava o largo do Paço da rua do Cano, isto é, a extrema esquerda do antigo convento do Carmo. S. M. o Imperador, desejando facilitar a realização da empresa, mandou prontamente romper o edifício naquele ponto. Abriu-se, pois, a comunicação entre a rua e a praça, e passado algum tempo uniu-se ainda o palácio com a capela imperial por meio de um passadiço de madeira que tem tanto de simples como de pouco elegante.

E a empresa não foi adiante, pelo menos até agora: tropeçou no vácuo e ficou derreada. Não se incomodem com a frase tropeçou no vácuo. A falta de dinheiro é um vácuo, e é na falta de dinheiro que os empreendedores tropeçam mais desastradamente.

A rua que devia se chamar Sete de Setembro continua como dantes a ser do Cano, e enquanto se conservar feia e torta como é, convém que não lhe mudem o nome; porque Sete de Setembro quer dizer Independência do Brasil, e a nossa independência é muito bonita, e nós a queremos direita e bem direita.

Segunda observação.

O galo metálico que gira horizontalmente sobre a torre da capela imperial, obedecendo à ação do vento que sopra, não pode deixar de exprimir algum pensamento filosófico, alguma lição moral.

Que significa aquele galo inconstante, que assim se volta para todos os lados, e que ora mostra o bico ao sul, ora ao norte, ora ao ocidente, ora ao nascente? Que significa esse galo que lisonjeia e atraiçoa a todos os ventos? Não sei; e somente quem o empoleirou na torre no-lo poderia dizer.

Aproveitando-me, no entanto, da existência do famoso galo e da sua incessante mobilidade, servir-me-ei dele doravante para um termo de comparação que me parece apropriado.

A inconstância e volubilidade de muitos políticos excedem tanto às proporções de possíveis modificações concienciosas de princípios, que a todos antes se afiguram contradanças executadas ao som da orquestra mágica da ambição e do egoísmo.

São mudanças determinadas por conveniências que não se confessam, mas que excitam os contradançadores a voltar as caras ora para um, ora para outro ponto, conforme o vento político que sopra.

Assim, pois, serve-me às mil maravilhas o galo da capela, e quando aí por essas ruas eu encontrar alguns desses homens políticos que andam aos saltos de um para outro partido, dizendo hoje que é branco o que ontem diziam que era preto, e achando sempre razão em quem está de cima, direi a mim mesmo, ou aos amigos que passearem comigo nessa ocasião: “Ali vai um galo da capela.” Penetro agora no sagrado recinto.

Tem a capela imperial três altares de cada lado, e entre estes e o altar-mor duas capelinhas fronteiras: na da esquerda é onde se expõe o Santíssimo Sacramento, e onde a família real vinha ouvir missa, tendo para isso duas tribunas.

No lado direito da capela-mor está a tribuna da família imperial.

O teto da capela-mor da igreja dos carmelitas foi decorado por José de Oliveira, o mais antigo dos pintores fluminenses. A Virgem do Monte Carmelo que nele está representada era uma obra de mestre. Diz o Sr. Porto Alegre, em uma memória apresentada ao nosso Instituto Histórico, o seguinte: “Na reforma do convento os mais hábeis artistas da capital se escusaram de retocar aquela obra, mas os carmelitas descobriram um caiador que a destruiu completamente; seu estado atual é uma restauração feita pelo Raimundo, que antes se escusara, mas que no tempo de el-rei fora obrigado a fazê-la.”

O teto da capela do Senhor dos Passos, que representa o descimento da cruz, é obra do célebre Manuel da Cunha, outro pintor fluminense, que, nascido escravo, se enobreceu pela arte em que primou e de que legou à pátria belos tesouros, como são o retrato do conde de Bobadela, que está no paço da câmara municipal, o Santo André Avelino, da igreja do Castelo, a capela contígua à sacrista de S. Francisco de Paula e muitos outros.

(continua...)

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