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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Aos vinte e cinco annos herdara grandes cabedaes, aos trinta e cinco achou-se sem vintém, e aos quarenta e cinco está coberto de dividas ; ardendo porém sempre em seu amor pelas damas, trabalha por encontrar uma dotada com quem se case, e que lhe proporcione os meios de continuar a render tributos de vassallagem ás quatro predilectas.

Assim pois a velha D. Violante não andou muito errada em seu conceito; são tres calculistas os tres pretendentes da sobrinha.

Sendo porém tres calculistas, como lembrarão-se elles de declarar-se namorados de uma moça pobre?...

A explicação é simples : ha namorar e casar.

Os calculistas, e são tantos... tantos!... não casão com as mulheres que recebem á face da joreja : casão com o dote que ellas lhes trazem; o dote é o essencial, a mulher um annexo que o calculista carrega porque não tem outro remedio ; tomando a cousa debaixo de um ponto de vista grammatical, o casamento é um período, no qual o dote é a oração principal, a mulher a oração subordinada, e o amor a oração incidente.

Entre os calculistas, quando se trata de algum amigo que acaba de casar-se, nenhum pergunta se desposou alguma senhora virtuosa e bella.

— Casou bem?... pergunta um a outro que lhe entende a giria.

— Menos mal, responde o parceiro; casou com tantos contos de dote.

Então?... digão : quem é a noiva n'este caso ?...

é a mulher ou o dote ?

E a esta pouca vergonha chama-se ter juizo. Eis ahi o que é casar. Namorar é muito differente. Os calculistas namorão muitas vezes para se divertir. O verbo divertir é n'este caso um verdadeiro insulto feito ás senhoras ; mas quem as insulta é somente aquelle ou são aquelles que se divertem com ellas.

O caso é que este divertimento é muito commum.

Namorão uma moça pela mesma razão porque vão ao theatro, ao jardim botânico, a uma parada da guarda nacional em dia de grande gala; namorão por passatempo ; e o amor está em tal caso tão longe do namoro, como estão as idéas religiosas longe do espirito do maior numero d'aquelles que açodem a ver passar uma procissão.

Seguindo estas theorias, os calculistas preferem naturalmente namorar uma moça bonita a perder o seu tempo com uma feia, e não receião comprometter-se por isso : acabada a hora destinada ao passatempo, os calculistas ficão frios como o gelo : os olhos mais bellos e mais ardentes do mundo, sendo olhos de moça pobre, por mais settas que dardejem, não ferem aquelles corações. Achilles mergulhado na lagoa Estyge ficou vulneravel pelo calcanhar, porque o calcanhar escapou ao banho ; os calculistas nem pelo calcanhar podem ser feridos, porque sabem viver perpetua e incessantemente mergulhados, totalmente mergulhados no golphão da cubiça, e de um interesse que muitas vezes é sordido.

Eis aqui explicado o segredo do namoro dos tres pretendentes de D. Clemência.

Pobre moça !... está de certo condemnada a entrar para o convenio d'Ajuda.

Basta de explicações : continuemos a historia.

Era, como dizíamos,- uma noite de baile.

Antônio, Ambrosio e Claudiano estavão juntos a conversar perto da porta de um gabinete que communicava com a sala : sem incommodar-se com o furor do ciume, todos tres admiravão as graças e a belleza de D. Clemência, que estava sentada defronte e ao lado de sua tia.

D. Clemência mostrava-se mais formosa que nunca : o seu toilette era simples, mas admivel de bom gosto.

D. Violante destacava-se no meio de todas as senhoras pelo ridiculo de sua figura : trazia n'essa noite oculos de quatro vidros, e uma touca ornada de fitas de todas as cores, e de laços de todos os feitios. Os tres namorados conversavão.

— Realmente, a D. Clemência é sublime ! disse Claudiano, sublime como um trinta e um batido de tres azes!... que mocetona! é pena ser pobre.

— É verdade!... acudio Antônio; é uma flor sem perfume... é como um banco sem fundo de reserva metallico.

— Tal e qual, observou o doutor ; é como um ministério cujo programma é magnifico, mas que não tem maioria nas camaras.

— E que espécie de macaca enfeitada é aquella que está ao lado de

D.Clemência?perguntou Antônio.

Os dous em vez de responder desatarão a rir.

D. Clemência acompanhava de longe a conversação dos tres : comprehendeu primeiro que era d'ella que tratavão, e logo depois adivinhou que sua tia era o objecto de crueis zombarias.

Aproveitando aquella opportunidade, convidou a velha a seguil-a, e sahindo da sala, foi entrar no gabinete por uma outra porta.

— Para onde me levas, menina?... perguntou D. Violante.

— Quero mostrar-lhe os meus tres pretendentes.

— Ah! os meus tres futuros namorados...

— Seja assim ; mas venha de manso para que elles não nos vejão logo.

D. Clemência parou junto dos tres amigos que continuavão a conversar, mal cuidando que as duas senhoras os podião ouvir.

— Com effeito, dizia o doutor, é a velha mais feia que tenho visto em minha vida ; sahindo ao lado de D. Clemência, parecia-me um demonio arrastado por um anjo!

— Devião mandal-a para o musêo como raridade, e arrumal-a na sala das mumias, observou Antônio.

— Se aquella mulher fosse dama de algum naipe, exclamou Claudiano, eu juro que nunca pegaria em um baralho de cartas.

D. Clemência arrancou a velha do fatal gabinete, e disse-lhe ao ouvido :

(continua...)

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