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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

As galas da boda se trocaram pela pompa funebre; e á noite, no corpo da igreja, ao lado da eça dourada via-se ajoelhado e immovel ura homem que ali velou n'aquella posição, até o outro dia.

Era Ayres de Lucena.

XVII

O ERMITÃO

Dias depois do funesto acontecimento, a escuna Maria da Gloria estava fundeada no seio que forma a praia junto ás abas do morro do Catette.

Era o mesmo lugar onde vinte annos antes se fazia a festa do baptismo, no dia em que se dera o caso estranho do desapparecimento da imagem da Senhora da Gloria, padroeira da escuna,

Na praia estava um ermitão vestido de esclavina, seguindo com o olhar o batel que largára do navio e singrava para terra.

Abicando á praia saltou d'elle Antonio de Caminha, e foi direito ao ermitão a quem entregou a imagem de Nossa Senhora da Gloria.

Recebeu-a o ermitão de joelhos e erguendo-se disse para o mancebo :

— Ide com Deus, Antonio de Caminha, e perdoai-me todo o mal que vos fiz. A escuna e quanto foi meu vos pertence : sêde feliz.

— E vós, senhor Ayres de Lucena?

— Esse acabou; o que vêdes não é mais que um ermitão, e não carece de nome, pois nada mais quer e nem espera dos homens.

Abraçou Ayres ao mancebo, e afastou-se galgando a ingreme encosta do outeiro, com a imagem de Nossa Senhora da Gloria cingida ao seio.

Na tarde d'aquelle dia a escuna desfraldou as velas e deixou o porto do Rio de Janeiro onde nunca mais se ouviu falar d'ella, sendo crença geral que andava outra vez encantada pelo mar oceano, com seu capitão Ayres de Lucena e toda a maruja.

Poucos annos depois dos successos que ahi ficam relatados, começou a correr pela cidade a nova de um ermitão que apparecêra no outeiro do Catette, e fazia ali vida de solitario, habitando uma gruta no meio das brenhas, e fugindo por todos os modos á communicação com o mundo. Contava-se que, alta noite, rompia do seio da mata um murmurio soturno, como o do vento nos palmares; mas que applicando-se bem o ouvido se conhecia ser o canto do terço ou da ladainha. Esse facto, referiam-no sobretudo os pescadores, que ao sahirem ao mar, tinham muitas vezes, quando a briza estava serena e de feição, ouvido aquella reza mysteriosa.

Um dia, dois moços caçadores galgando a ingreme encosta do outeiro, a custo chegaram ao cimo, onde descobriram a gruta, que servia de refugio ao ermitão. Este desapparecêra mal os presentiu ; todavia puderam elles notar-lhe a nobre figura e aspecto veneravel.

Trajava uma esclavina de burel pardo que lhe deixava ver os braços e artelhos. A longa barba grisalha lhe descia ate o peito, misturada aos cabellos cahidos sobre as espaduas e como ella hirtos, assanhados e cheios de maravalhas.

No momento em que o surprehenderam os dois caçadores, estava o ermitão de joelhos, diante de um nicho que elle proprio cavára na rocha viva,

e no qual via-se a imagem de Nossa Senhora da Gloria, allumiada por uma candeia de barro vermelho, grosseiramente fabricada.

Na gruta havia apenas uma bilha do mesmo barro, e uma panella na qual extrahia o ermitão o azeite da mamona, que macerava entre dois seixos. A cama era o chão duro, e servia-lhe de travesseiro um toro de páu.

Estes contos feitos pelos dois moços caçadores excitaram ao ultimo ponto a curiosidade de toda a gente de S. Sebastião e desde o dia seguinte muitos se notaram para o outeiro movidos pelo desejo de verificarem por si mesmo, com os proprios olhos, a verdade do que se dizia.

Frustrou-se-lhes porém o intento. Não lhes foi possivel atinar com o caminho da gruta; e o que mais admirava, até os dois caçadores que o tinham achado na vespera, estavam de todo o ponto desnorteados.

Ao cabo de grande porfia, descobriram que havia o caminho desapparecido pelo desmoronamento de uma grande rocha, a qual formava uma como ponte suspensa sobre o despenhadeiro da ingreme escarpa.

Acreditou o povo que só Nossa Senhora da Gloria podia ter operado aquelle milagre, pois não havia homem capaz de tamanho esforço, no pequeno espaço de horas que decorrêra depois da primeira entrada dos caçadores.

Na opinião dos mestres beatos, a Virgem Santissima queria significar por aquelle modo sua vontade de ser adorada em segredo e longe das vistas pelo ermitão; o que era, accrescentavam, um signal de graça mui particular, que só obtinham raros e afortunados devotos.

Desde então ninguem mais se animou a subir ao pincaro do outeiro, onde estava o nicho de Nossa Senhora da Gloria; porém vinham muitos fieis até o lugar onde se fendêra a rocha, para verem os signaes vivos do milagre.

Foi por esse tempo tambem que o povo começou a designar o outeiro do Cattete, pela invocação de Nossa Senhora da Gioria; d'onde veiu o nome que tem' hoje esse bairro da cidade.

XVIII

O MENDIGO

Estava a findar o anno de 1659.

Ainda vivia Duarte de Moraes, então com sessenta e cinoo annos, mas viuvo da boa Ursula que o deixára havia dez para ir esperal-o no céo.

Era por tarde, tarde calida, mas formosa, como são as do Rio de Janeiro durante o verão.

O velho estava sentado em um banco á porta de casa, tomando o fresco, e scismando nos tempos idos, quando se não distrahia em ver os meninos que folgavam pela rua.

(continua...)

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