Por Martins Pena (1845)
Rosa — Sou provinciana, não possuo talvez a polidez da Corte, mas tenho paixões violentas e resoluções prontas. Aqui trago uma ordem de prisão contra o pérfido, mas ele se esconde. Os oficiais de justiça andam em sua procura.
Florência — Aqui esteve há pouco.
Rosa — Quem?
Florência — O traidor.
Rosa — Aqui? Em vossa casa? E não vos assegurastes dele?
Florência — E como?
Rosa — Ah, se eu aqui estivesse...
Florência — Fugiu, mas levou uma maçada de pau.
Rosa — E onde estará ele agora, onde?
Ambrósio, arrebenta uma tábua do armário, põe a cabeça para fora — Ai, que abafo.
Florência e Rosa, assustadas — É ele!
Ambrósio, com a cabeça de fora — Oh, diabos, cá estão elas!
Florência — É ele! Como te achas aí?
Rosa — Estava espreitando-nos!
Ambrósio — Qual espreitando! Tenham a bondade de levantar este armário.
Florência — Para quê?
Ambrósio — Quero sair... Já não posso... Abafo, morro!
Rosa — Ah, não podes sair? Melhor.
Ambrósio — Melhor?
Rosa — Sim, melhor, porque estás em nosso poder.
Florência — Sabes que estávamos ajustando o meio de nos vingarmos de ti, maroto?
Rosa — E tu mesmo te entregaste... Mas como?...
Florência — Agora já te adivinho. Bem dizia Emília; foi Carlos quem levou as bordoadas. Ah, patife. mais essa!.
Rosa — Pagará por tudo junto.
Ambrósio — Mulheres, vejam lá o que fazem!
Florência — Não me metes medo, grandíssimo mariola!
Rosa — Sabes que papel é este? É uma ordem de prisão contra ti que vai ser executada. Foge agora!
Ambrósio — Minha Rosinha, tira-me daqui!
Florência — O que é lá?
Ambrósio — Florencinha, tem compaixão de mim!
Rosa — Ainda falas, patife?
Ambrósio — Ai, que grito! Ai, ai!!
Florência — Podes gritar. Espera um bocado. (Sai.)
Rosa — A justiça de Deus te castiga.
Ambrósio — Escuta-me, Rosinha, enquanto aquele diabo está lá dentro: tu és a minha cara mulher; tira-me daqui que eu te prometo...
Rosa — Promessas tuas? Queres que eu acredite nelas? (Entra FLORÊNCIA trazendo um pau de vassoura.)
Ambrósio — Mas eu juro que desta vez...
Rosa — Juras? E tu tens fé em Deus para jurares?
Ambrósio — Rosinha de minha vida, olha que...
Florência, levanta o pau e dá-lhe na cabeça — Toma maroto!
Ambrósio, escondendo a cabeça — Ai!
Rosa, rindo-se — Ah, ah, ah!
Florência — Ah, pensavas que o caso havia de ficar assim? Anda, bota a cabeça de fora!
Ambrósio, principia a gritar — Ai! (Etc.)
Rosa, procura pela casa um pau — Não acho também um pau...
Florência — Grita, grita, que eu já chorei muito. Mas agora hei de arrebentar-te esta cabeça. Bota essa cara sem vergonha.
Rosa, tira o travesseiro da cama — Isto serve?
Florência — Patife! Homem desalmado!
Rosa — Zombaste, agora pagarás.
Ambrósio, botando a cabeça de fora — Ai, que morro! (Dão-lhe.)
Rosa — Toma lá!
Ambrósio, escondendo a cabeça — Diabos!
Rosa — Chegou a nossa vez.
Florência — Verás como se vingam duas mulheres...
Rosa — Traídas ...
Florência —Enganadas...
Rosa — Por um tratante...
Florência — Digno de forca.
Rosa — Anda, bota a cabeça de fora!
Florência — Pensavas que havíamos de chorar sempre?
Ambrósio, bota a cabeça de fora — Já não posso (Dão-lhe.) Ai, que me matam!
(Esconde-se.)
Rosa — É para teu ensino,
Florência, fazendo sinais para Rosa — Está bem, basta, deixá-lo. Vamos chamar os oficiais de justiça.
Rosa — Nada! Primeiro hei de lhe arrebentar a cabeça. Bota a cabeça de fora. Não queres?
Florência, fazendo sinais — Não, minha amiga, por nossas mãos já nos vingamos.
Agora, a justiça.
Rosa — Pois vamos. Um instantinho, meu olho, já voltamos.
Florência — Se quiser, pode sair e passear. Podemos sair, que ele não foge.
(Colocam-se juntas do armário, silenciosas.)
Ambrósio, botando a cabeça de fora — As fúrias já se foram. Escangalharam-me a cabeça! Se eu pudesse fugir... (FLORÊNCIA e ROSA dão-lhe.)
Florência — Por que não foges?
Rosa — Pode muito bem.
Ambrósio — Demônios (Esconde-se.)
Florência — Só assim teria vontade de rir. Ah, ah!
Rosa — Há seis anos que não me rio de tão boa vontade!
Florência — Então, maridinho!
Rosa — Vidinha, não queres ver tua mulher?
Ambrósio, dentro — Demônios, fúrias, centopéias! Diabos! Corujas! Ai, ai! (Gritando sempre.)
CENA XVIII
Os mesmos e Emília
Emília, entrando — O que é? Riem-se?
Florência — Vem cá, menina, vem ser como se devem ensinar aos homens.
CENA XIX
Entra Carlos preso por soldados, etc., seguido de Jorge.
Jorge, entrando adiante — Vizinha, o ladrão foi apanhado.
Carlos, entre os soldados — Tia!
Florência — Carlos!
Emília — O primo! (AMBRÓSIO bota a cabeça de fora e espia.)
Jorge — É o ladrão.
Florência — Vizinho, este é o meu sobrinho CARLOS.
Jorge — Seu sobrinho? Pois foi quem levou a coça.
Carlos — Ainda cá sinto...
Florência — Coitado! Foi um engano, vizinho.
Jorge, para os meirinhos — Podem largá-lo.
Carlos — Obrigado. Priminha! (Indo para ela.)
Emília — Pobre primo.
Florência, para Jorge — Nós já sabemos como foi o engano, neste armário; depois lhe explicarei. (AMBRÓSIO esconde-se.)
Jorge, para os soldados — Sinto o trabalho que
tiveram... E como não é mais preciso, podem-se retirar.
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.