Por José de Alencar (1872)
- Uma piabinha do rio, não é, Inhá? dissera Afonso de envolta com uma gargalhada gostosa, que Inhá acompanhava com os trilos argentinos de seu riso fresco e puro.
- Não sei de que estão a rir com tanto gosto, observou Miguel enleado, sem ânimo de erguer os olhos para Linda.
- Acham graça em uma coisa à toa.
Súbito no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este clamor incompreensível:
- Til!... Til!... Til!... Oh! Til!...
XII
Idílios
Eram freqüentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no Tanquinho.
Vinham semanas em que se repetiam todas as manhãs, a menos que as chuvas não permitissem, ou que Berta e Miguel fossem à casa das Palmas, o que sucedia regularmente aos domingos e dias de festa.
O amor, tão bonina dos prados, quanto rosa dos salões, quando o orvalham risos da mocidade; o amor puro e suave, como a cecém daquele prado, tinha já florido os corações que lhe respiravam pela manhã os agrestes perfumes.
Nem isto é mais segredo; e, pois, não se comete uma indiscrição em contar o que só não sabiam D. Ermelinda e seu marido.
Afonso, este namorava Berta às escâncaras, com o recacho e brinco próprios de seu gênio. Essa mesma sinceridade e desplante de seu afeto eram véu para ocultá-lo a olhos suspicazes. Quem o via sempre a gracejar com a menina, acreditava que isso não passava de travessura de moço folgazão sem tinta de malícia.
Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tímido coração bater apressado. Não raro, o instinto de delicadeza que recebera de sua mãe, advertia-lhe da distância que separava dela o moço pobre e de mesquinha condição.
O amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão, onde a alma tem necessidade de uma companheira, e quando de todo não a encontra, divide-se ela própria para ser duas: uma, esperança; outra, saudade.
As confidências do irmão; as longas e constantes conversas a propósito do mesmo tema, sempre novo; os episódios singelos do idílio, arrufos ou encantadores segredos; essas asas fagueiras do amor roçavam a todo o instante o coração da moça e deixavam-no impregnado de ternura afetuosa. Entretanto Miguel não se apercebia disso.
Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa de Berta, e dispensava com ele o trato ameno e gentil, inspirado pela bondade d’alma e fina educação.
Assim, voltava ele à menina um respeitoso afeto, ungido pela gratidão que nele acendia as maneiras singelas e benévolas da moça; e também repassado da serena admiração de artista que sentia ao contemplar-lhe a peregrina beleza. Mas não lhe pulsava o coração com os ímpetos da paixão; nem a imagem graciosa de Linda flutuava nas cismas de sua fantasia.
A presença da moça produzia-lhe na alma certo refrangimento, embora de grata deferência; era como a palma do jeribá que fecha com os relentos da noite, e somente se engrinalda e brilha aos raios do sol.
Para Miguel os momentos de expansão e doce contentamento não eram tanto esses passados aí no Tanquinho, como os outros mais festivos e mais lembrados em que sós, Inhá e ele, atravessavam a várzea na ida e na volta.
De Berta, que direi? Com todos brincava; a todos queria bem, e sabia repartir-se de modo que dava a cada um seu quinhão de agrado. Em roda ferviam os ciúmes de muitos que a ansiavam só para si, e penavam-se de vê-la desejada e querida de tantos. Mas como um sorriso ela trocava tais zelos em extremos de dedicação, e o pleito já não era de quem mais recebesse carinho, e sim de quem mais daria em sacrifício. O gracioso e ingênuo sorriso de seus lábios, era o mesmo, desfolhando beijocas na face de Linda, como zombando de Afonso ou ralhando com Miguel. Não fora o recato da educação, que ela seria muito capaz de fechar os olhos e à sorte lançar o beijo, como um pombinho, para qual dos três mais ligeiros o apanhasse.
Se D. Ermelinda soubesse das freqüentes entrevistas no Tanquinho e suspeitasse dos tácitos emprazamentos que se davam os camaradas, por certo já teriam eles cessado; pois não escaparia à inteligente senhora o perigo de expor o tenro coração de sua filha a uma paixão, bem possível senão provável de gerar-se dessa íntima convivência, que não perturbavam outras diversões próprias para ocupar o espírito de uma menina. Na casa das Palmas, porém, ignorava-se o habitual encontro; não que o negassem Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se; eis todo seu pecado. De volta do passeio, em família, falavam várias coisas que tinham feito ou observado; mas não tocavam em Berta e Miguel, ou faziam-no de longe.
Em Linda era pudor: quando o nome de Miguel lhe pruria o lábio, ainda não o
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.