Por José de Alencar (1875)
- Ontem não sei onde te meteste, Seixas, cansei de procurar-te!
- Pois andava bem perto de ti. É que estavas ontem muito encadeado, respondeu Fernando a sorrir.
- É verdade! Que mulher, Seixas! Não imaginas. Olhas de longe e vês um anjo de beleza, que te fascina e arrasta a seus pés, ébrio de amor. Quando lhe tocas, não achas senão uma moeda, sob aquele esplendor. Ela não fala; tine como o ouro. Era para apresentar-te que eu te procurei. Ei-la que chega!
Esta última exclamação, Alfredo soltou-a avistando um carro que nesse momento parara à porta. Efetivamente dele saltou Aurélia, que se dirigiu acompanhada de D.
Firmina a seu camarote na segunda ordem.
Envolvia-a desde a cabeça até aos pés um finíssimo e amplo manto de alva caxemira, que apenas descobria-lhe o fino rosto à sombra do capuz e uma orla do vestido azul.
Era preciso ter a suprema elegância de Aurélia para dentre esse envolto singelo e fofo, desatar o talhe dum garbo encantador.
Ela parou justo em frente dos dois moços, voltando-lhes as costas, à espera de D.
Firmina, que se demorara a descer do carro.
Não é uma beleza? Perguntou Moreira ao camarada, em tom de ser ouvido.
Deslumbrante! Respondeu Seixas; mas para mim é uma beleza de espectro!
Não entendo!
É a imagem de uma mulher a quem amei, e que morreu. Esta semelhança me repele! Aurélia ficou impassível. Moreira que se adiantara para cortejá-la pensou que o amigo tinha razão. Efetivamente havia alguma coisa de fantástico, naquela fronte lívida e cintilante.
D. Firmina se aproximara. A moça retribuindo com um afável cortejo ao cumprimento do Alfredo, passou como se não se apercebesse de Fernando, e subiu à segunda ordem.
VIII
Lemos voltara satisfeito com o resultado da sua exploração.
Era o velho um espírito otimista, mas à sua maneira; confiava no instinto infalível de que a natureza dotou o bípede social para farejar sei interesse e descobrí-lo.
Tinha pois como impossível que um moço, em seu perfeito juízo, dirigido por conselho de homem experiente, repelisse a fortuna que de repente lhe entrava pela porta da casa, e casa da rua do Hospício a sessenta cruzeiros mensais, para tomá-lo pelo braço e conduzí-lo de carruagem, recostado em fofas almofadas, a um palácio nas Laranjeiras.
Sabia Lemos que os escritores para arranjarem lances dramáticos e quadros de romance, caluniavam a espécie humana atribuindo-lhe estultices desse jaez; mas na vida real não admitia a possibilidade de semelhantes fatos.
- Não se recusam cem mil cruzeiros, pensava ele, sem uma razão sólida, uma razão prática. O Seixas não a tem; pois não considero como tal essas palavras ocas de tráfico e mercado, que não passam de um disparate. Queria que me dissessem os senhores moralistas o que é esta vida senão uma quitanda? Desde que nasce um pobre diabo até que o leva a breca não faz outra coisa senão comprar e vender? Para nascer é preciso dinheiro, e para morrer ainda mais dinheiro. Os ricos alugam os seus capitais; os pobres alugam-se a si, enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato.
Assim, convencido de que Seixas não tinha o que ele chamava de razão sólida para rejeitar o casamento proposto, não vira Lemos na primeira recusa senão um disfarce, ou talvez o impulso dessa tímida resistência, que os escrúpulos costumam opor à tentação. Esperava, pois, salutar revolução que dentro de poucos dias se devia operar nas idéias do mancebo.
Ao sair da casa de Seixas, Lemos dirigiu-se à casa do Amaral, onde entabulou uma negociação que devia assegurar o êxito da primeira.
Desenganado o moço da Adelaide e dos trinta mil cruzeiros, não tinha remédio senão aceitar a consolação dos cem mil; consolação que levaria o pico de uma vingançazinha.
Não sei como pensarão da fisiologia social de Lemos; a verdade é que o velhinho não mostrou grande surpresa quando uma bela manhã veio dizer-lhe seu agente que o procurava um moço de nome Seixas.
Esse agente chamava-se Antônio Joaquim Ramos, e era o mesmo de quem o velho tomara emprestado o nome. Estava prevenido pelo patrão desta circunstância que não o surpreendia, pois era jubilado em tais alicantinas.
- Que espere! Gritou o velho.
Tinha Lemos na loja da casa de morada uma coisa chamada escritório de agências.
Era um corredor que dava porta para a rua e estendia-se até a área do fundo, onde o velho trabalhava dentro de uma espécie de gaiola, feita de tabique de madeira com balaústres.
Fora daí que respondera. Era seu costume sempre que ia tratar de qualquer negócio importante, ruminá-lo de antemão para não ser tomado de improviso. Foi o que fez nesse momento.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.