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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Acompanhava-a uma cabra que, deixando a mulher às voltas com a gente do poleiro, foi, como de razão, alí perto dar os bons dias aos moradores de um chiqueiro, que lhe responderam com um berredo dos mais alegres, no meio de cabriolas de toda espécie. 

Demorou-se o rapaz um instante a olhar para a mãe, cujo vulto êle lobrigava ainda indeciso, movendo-se nas labutações caseiras, à luz frouxa do crepúsculo matutino. Uma vez, como a Justa em seu giro se voltasse para o lado da mata, estendeu o filho a mão direita aberta, murmurando com um sorriso:

— A bênção, mãe! 

Cumprido o preceito da piedade filial, Arnaldo, que nem um instante perdera de espreitar o vizinho adormecido, pensou que era tempo de realizar o seu intento, e portanto começou um passeio aéreo pela rama das árvores, que se entrelaçava, formando com os galhos um como travejado pavimento, a que servia de dossel a verde copa embastida. 

O sertanejo andava tão fácil e seguro por aquele girau como pelo pavês de um sobrado. Muitas vezes, quando menino, correra por alí atrás dos macacos e saguís que o não venciam na agilidade, pois agarrava-os à mão nas grimpas da floresta. Era tanto para admirar-se a rapidez como o jeito e sutileza com que resvalava por entre o chamiço, a ponto que se não ouvia o arfar de uma só fôlha. 

A um tiro de arcabuz estava o sítio que Arnaldo designara com o nome de grota: era o despenhadeiro de um profundo barranco. Os detritos, acumulados pelos enxurros nas covoadas alí formava o terreno, alimentavam as árvores altaneiras cujas vastas copas ensombravam o tremedal. 

Entre essas árvores a mais pujante era um angico secular, que lançava as grossas raízes a meio precipício. O formidável tronco, crescendo a princípio obliquamente, na direção da outra rampa do desfiladeiro, como a atravessá-lo, no centro voltava-se a pino e subia verticalmente a grande elevação, onde repartia-se em vários esgalhos confluentes. 

De escancha sôbre um dêsses ramos, com as pernas engalfinhadas nos interstícios e o corpo recostado no rústico espaldar formado pelos outros galhos dormia a sono sôlto um homem ainda moço, de insólita e desconforme robustez. 

O toro, tinha-o corpulento, mas de uma mesma grossura desde os ombros até os artelhos, de modo que estando de pé e com as pernas fechadas, parecia um tôco de pau cortado na altura de dez palmos do chão. Essa prancha de carne rematava em uma cabeça pequena e redonda, semelhante à maçaneta de um balaústre, e assentava em dois pés enormes que mais pareciam as cunhas de uma escora. 

Do seu aspecto, bem como da fôrça de que era dotado, lhe viera a alcunha de Moirão, nome que nas fazendas tem o pião onde se jungem as reses para a ferra. Muitas vezes, jactando-se de sua pujança, aguentara no laço um boi bravo à disparada, sem abalar-se do lugar onde se fincava, nem sequer titubear. 

Arnaldo surdira em um ramo superior, a cavaleiro do sujeito, a quem estava agora observando a seu vagar. Comprazia-se o rapaz em admirar a robustez estampada na musculatura dessa organização atlética, que produzia em sua alma uma emoção artística. Para êle, sertanejo, filho do deserto, tão poderosas manifestações da fôrça tinham majestade e beleza épicas. 

Entretanto bastava um gesto seu para aniquilar o colosso. Estendesse êle o braço, travasselhe do pé e emborcasse-o no precipício, que em um fechar d’olhos estaria o Moirão reduzido a migas, nas arestas dos alcantís. 

Arnaldo não demorou seu espírito nesta idéia senão o tempo necessário para a repelir. 

Ao cabo de alguns instantes, desprendeu-se o rapaz do silêncio em que se envolvera e donde não transpirava nem o sôpro de seu hálito; algumas fôlhas rumorejavam em tôrno, e a casca do pau rangeu ao roçar do corpo que sentava-se. 

Como não bastasse êsse tênue arruído para despertar o madraço, o rapaz quebrou uma haste de cipó. Com a fôlha que deixara em uma das pontas começou a fazer cócegas nas largas ventas rombas do Moirão, que dava com as mãos às tontas para enxotar a môsca impertinente. 

Afinal abriu o dorminhoco as pálpebras, pestanejou com a claridade do dia, esfregou os olhos e ficou pasmado a encarar com o Arnaldo, que se estava rindo, mui lampeiro, alí por cima dele, comodamente sentado em um ramo da árvore. 

— Salve-o Deus, Aleixo Vargas, disse o sertanejo em tom jovial. Que sonata tão regalada, homem! Apostaria que anda tresnoitado, se não sou besse que você em ferrando a dormir é como jibóia quando enguliu veado. 

— Hanh!… bocejou o outro estremunhando. 

É você, Arnaldo. 

— Acorde de uma vez, amigo! 

— Onde estou eu?… Ah! já sei; arranchei-me aquí para madornar um pedaço e pegou de mim uma tal bebedeira de sono que estou que não posso comigo. 

— Pelo que mostra não teve lá muita saudade do seu catre da fazenda, Aleixo Vargas, que logo na noite da chegada veio pôr-se de poleiro cá pelas matas! 

— Não sabe que despedí-me do Campelo? 

— Ainda não encontrei quem me desse tal nova; respondeu Arnaldo, iludindo os têrmos da pergunta. 

(continua...)

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