Por José de Alencar (1857)
As mesmas, EDUARDO.
EDUARDO - Enfim, posso falar-lhe, D. Henriqueta?
CARLOTINHA - Ela já te acusava!
EDUARDO - A mim!
HENRIQUETA - Eu não; disse apenas...
CARLOTINHA - Disse apenas que tu ainda não tinhas achado um momento para dar-lhe uma palavra... de amor!
HENRIQUETA - De amizade! Foi o que eu disse.
EDUARDO - E tem razão; mas quando souber o motivo me desculpará.
HENRIQUETA - Ainda outro motivo!
EDUARDO - Sim; desta vez não é um engano, é um dever.
HENRIQUETA - Ah! uma promessa, talvez...
CARLOTINHA - Que lembrança!...
EDUARDO - Disse um dever; um dever bem grave, mas que tem um rostinho muito risonho; olhe. (Amimando a face de CARLOTINHA.) HENRIQUETA - Carlotinha?
CARLOTINHA - Ah! Quer-se desculpar comigo! Pois vou-me embora!
HENRIQUETA (sorrindo) - Vem cá!
EDUARDO - Deixe; ficaremos sós.
CENA XVII
EDUARDO, HENRIQUETA
EDUARDO - Henriqueta, me perdoa?
HENRIQUETÂ - Perdoar-lhe!... Eu é que devia ter adivinhado!
EDUARDO - E eu não devia ter compreendido que entre duas almas que se estimam não é preciso um intermediário? O amor que passa pelos estranhos perde a sua pureza... Carlotinha já lhe disse o que aconteceu?...
HENRIQUETA - Sim; ela me contou tudo, mas pareceu-me que me tinha enganado. Duvidei...
EDUARDO - Como?... Duvidou de mim!...
HENRIQUETA - Durante toda esta noite, não é a primeira vez que nos falamos e, entretanto, devíamos ter tanto que dizer-nos... Um tão longo silêncio...
EDUARDO - Não lhe dei já a razão?... Antes do meu amor, a felicidade de minha irmã. É um pequeno segredo que ela lhe contará, se já não lhe contou. Precisava tranqüilizar o meu espírito, porque não desejo misturar uma inquietação, um mau pensamento, às primeiras expansões do nosso amor!
HENRIQUETA - Ah! Carlotinha também ama! Ainda não me confiou seu segredo!... Ela ao menos tem um irmão que lê em sua alma; há de ser feliz!...
EDUARDO - E nós, não o seremos?
HENRIQUETA - Quem sabe!
EDUARDO - Este casamento é impossível!
HENRIQUETA - Por quê?
EDUARDO - Porque vou confessar tudo a seu pai, e ele não sacrificará sua filha a uma palavra dada.
HENRIQUETA - E se recusar?
EDUARDO - Então respeitaremos sua vontade.
HENRIQUETA - Sim, ele é pai, mas...
EDUARDO - Mas o amor é soberano; não é isso, Henriqueta?
HENRIQUETA - E não se... vende!
EDUARDO - Que dizes? Compreendo!
HENRIQUETA - Não, Eduardo, não compreenda, não procure compreender! Foi uma idéia louca que me passou pelo espírito; não sei nada!... Uma filha pode acusar seu pai?
EDUARDO - Não; mas pode confiar a um amigo uma queixa de outro amigo.
HENRIQUETA - Pois bem, eu lhe digo. Meu pai deve a esse homem, e julgou que não podia recusar-lhe a minha mão, apesar das minhas instâncias. Lutei um mês inteiro, Eduardo, mas lutei só; e uma mulher é sempre fraca, sobretudo quando se exige dela um sacrifício!
EDUARDO - Tem razão; se lutássemos juntos, talvez...
HENRIQUETA - Oh! Então eu defenderia a nossa felicidade; mas lutar para conservar apenas uma triste esperança!
CENA XVIII
Os mesmos, VASCONCELOS, AZEVEDO, D. MARIA VASCONCELOS - Vamos, menina! É tarde.
HENRIQUETA - Sim, meu pai. (A meia voz.) Adeus, Eduardo! Até!...
EDUARDO - Até sempre, Henriqueta!
HENRIQUETA - Carlotinha, meu chapéu?
CARLOTINHA - Toma! Estás mais contentezinha?
HENRIQUETA - Maliciosa!... (Sobem.)
AZEVEDO - Meu sogro, dispensa-me acompanhá-lo? Um homem não deve andar agarrado à sua fiancée. É mauvais genre.
HENRIQUETA - Não se incomode. D. Maria, boa noite! Doutor... (Sobem.)
EDUARDO - Uma palavra, Azevedo.
AZEVEDO - Às tuas ordena.
EDUARDO - Quanto te deve o Sr. Vasconcelos?
AZEVEDO - Uma bagatela! Dez contos de réis!
EDUARDO - Ah!
AZEVEDO - Por que perguntas?
EDUARDO - Porque desejava saber quanto custa uma mulher em primeira mão.
AZEVEDO (rindo). - Vraiment!
ATO IV
Em casa de EDUARDO. Sala de visitas.
CENA PRIMEIRA
EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA, PEDRO (CARLOTINHA na janela; PEDRO sacudindo os tapetes.)
CARLOTINHA (baixo, a PEDRO) - Não passará ainda hoje?
PEDRO - Não sei, nhanhã.
CARLOTINHA - Está doente?... Zangado comigo?... Por quê?
PEDRO - Não se importe mais com ele! Há tanto moço bonito! Sr. Azevedo... (PEDRO vai colocar o tapete e sai.)
CENA II
EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA
EDUARDO - Quando eu lhe digo que espere, Henriqueta, é porque estou convencido de que há um meio de desfazer esse casamento sem a menor humilhação para seu pai.
HENRIQUETA - E esse meio qual é?
EDUARDO - Não lhe posso dizer; é meu segredo.
HENRIQUETA - Ah! Tem segredos para mim?
EDUARDO - É injusta fazendo-me essa exprobração, Henriqueta. Se não lhe falo francamente, é porque não desejo que partilhe, ainda mesmo em pensamento, os desgostos, as contrariedades que eu há um mês tenho sofrido para conseguir esse meio de que lhe falei.
HENRIQUETA - Mas, Eduardo, uma parte dessas contrariedades me pertence, e por dois títulos; porque se trata de mim, e porque nos... estimamos!
EDUARDO - Porque nos amamos: é verdade! Mas nessa partilha igual que fazem duas almas da sua dor e do seu prazer, há a diferença das forças. À mulher cabe a parte do consolo, ou da ternura; ao homem, a parte da coragem e do trabalho.
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.