Por José de Alencar (1862)
Não sou dos felizes, que conservam a virgindade d'alma, e levam à santa comunhão do casamento a pureza e castidade das emoções. Bem cedo ainda senti murchar a bonina delicada do coração; e afoguei a minha ignorância nos gozos rapidamente fruídos e brevemente olvidados.
Há porém na febre dos sentidos uma união íntima da matéria, unissonância de desejos e repercussão instantânea do prazer, que opera a transfusão mística da palavra santa. O homem e a mulher são a possessão mútua — una caro, a carne única, onde vivem duas almas que nada vêem, porque só vêem a si.
Compreenda agora por que a bacante ficou fria e gelada para mim, na sua ardente lascívia. A mulher que com
seus encantos cevava outros olhos que não os meus, a estátua animada de desejos que eu não havia excitado, em vez de provocar em mim a admiração, indignou-me. Tive vergonha e asco, eu, que na véspera apertara com delírio nos meus braços essa mesma cortesã, menos bela ainda e menos deslumbrante, do que agora na sua fulgurante impudência.
Quando a mulher se desnuda para o prazer, os olhos do amante a vestem de um fluido que cega; quando a mulher se desnuda para a arte, a inspiração a transporta a mundos ideais, onde a matéria se depara ao hálito de Deus; quando porém a mulher se desnuda para cevar, mesmo com a vista, a concupiscência de muitos, há nisto uma profanação da beleza e da criatura humana, que não tem nome.
É mais do que a prostituição: é a brutalidade da jumenta ciosa que se precipita pelo campo, mordendo os cavalos para despertar-lhes o tardo apetite.
Contudo, passado o primeiro assomo, achei em minha alma, talvez mais piedade do que indignação. Lembrei-me do que Lúcia me tinha dito ao ouvido, da entonação áspera de sua voz, do estrépito nervoso de seu riso, e tive dó dessa moça. Que motivo a obrigava a descer tão baixo? Não era a cupidez, não; apesar de quanto me dissera o Cunha no teatro, havia naquela mulher um quer que seja, que revelava à primeira vista a nobreza do caráter. Devia de ser a depravação; mas a depravação como ainda não tinha encontrado, que se violentava, em vez de comprazer-se nos seus excessos.
Uma curiosidade irresistível me aproximara da porta que ficara entreaberta.
Lúcia, trançando a sua longa manta listrada de escarlate, que a envolveu como um pálio romano, voltara ao seu lugar e amolgara sobre a cadeira um corpo sem articulações. Os aplausos e a ruidosa grita continuavam no meio do fogo rolante de ditos licenciosos. Passado um instante ela ergueu a cabeça, e seu olhar embaciado circulou, indo lentamente de um a outro conviva.
— Quem estava aqui? balbuciou indicando o lugar que eu havia deixado.
— Já perdeste a memória? Bom sinal!
— Era eu, Lúcia! Não te lembras! disse o Couto.
— Mas havia alguém aqui?
— Não te inquietes!... Paulo foi tomar ares no jardim. Já volta.
— E se não voltar..., disse o Couto esticando-se na sua pretensiosa reticência.
— Era ele!... exclamou Lúcia rindo às gargalhadas.
— Está embriagada! pensei eu.
— E tu, Nina, não queres que também admiremos a tua beleza? dizia Sá.
— É verdade! Apreciaremos o contraste! gritou o Rochinha.
— Nada, ainda não desci a este ponto.
— Com efeito é preciso ter perdido a vergonha, murmurou Laura com desprezo.
Lúcia, que saíra da mesa, voltou-se com uma dignidade e nobreza impossível de pressentir na cortesã da véspera e na bacante de há pouco; mas essa expressão foi rápida; sucedeu-lhe a habitual doçura, ainda realçada por um tom humilde.
— Não faças caso, é inveja, exclamou Sá.
— Tens razão, Laura, perdi a vergonha para ganhar o dinheiro de que precisas; e desci a este ponto, Nina, desde que me habituei a desprezar o insulto, tanto como o corpo que nós costumamos vender.
E sem esperar resposta, dirigiu-se à porta e saiu. O meu primeiro movimento foi de repulsão; mas não sei que atração irresistível me prendia a esta mulher, que a segui de longe. Vi-a caminhar de um lado para outro, olhando em torno como se procurasse alguém; por fim caiu extenuada sobre um banco de relva.
Aproximei-me então, e tomei-a nos braços; metiam dó as contrações nervosas que crispavam seu belo corpo, e os soluços de angústia que lhe partiam o seio e cerravam a garganta, sufocando-a. Penou assim um tempo longo, em que receei por vezes que não expirasse sobre o meu peito. Finalmente a crise passou; foi-se acalmando, e desfaleceu.
— Que idéia triste o senhor deve ter de mim! murmurou com a voz sumida.
— Para que te prestas a estas coisas!
— O que sou eu?
— Embora! Há sempre um resto de dignidade, que impede a mulher de consentir no que acabas de fazer.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.