Por José de Alencar (1860)
Ribeiro – A dele, queres dizer? A do Pinheiro!
Carolina – É o mesmo.
Luís –E era esta mulher que há pouco falava de amor.
Carolina – Não era esta, não senhor; era a outra a quem insultaram.(Vai sair)
Ribeiro – Uma palavra, Carolina!...
Carolina – Que quer ainda, senhor?
Ribeiro – Eu te seduzi, fiz-te desgraçada, não é verdade?... Pois bem! Arrosto a oposição de minha família! Arrosto tudo! Quero reparar a minha falta! És a mãe de minha filha; sê minha mulher!
Carolina – Tua mulher!
Ribeiro – Sim, Carolina! É um sacrifício que te devo.
Carolina – Não lho pedi.
Ribeiro – Mas sou eu que te suplico.
Luís – É a honra, é a virtude; é a felicidade que ele lhe restitui! (Aparece Pinheiro)
CENA IX
(Os mesmos e Pinheiro)
Carolina – Não! É tarde...
Luís– Carolina!...
Carolina – Já que o amor não é possível para mim, prefiro a liberdade! Quero ver a meus pés, um por um, todos esses homens orgulhosos que tanto blasonam de probos e honestos!... Aí curvando a fronte ao vício, o marido trairá sua esposa, o filho abandonará sua família, o pai esquecerá os seus deveres para mendigar um sorriso. Porque no fim de contas, virtude, honra, glória, tudo se abate com um olhar, e roja diante de um vestido. (a Pinheiro) Meu carro?...
Pinheiro – Está na porta.
Helena – Vem ver como é rico!
Ribeiro – Lembra-se ao menos de tua filha!...
Carolina – Deixo-o as seu pai como um remorso vivo.
Luís – Reflita, Carolina; aceite a reparação que o senhor lhe oferece; faça de um homem arrependido, de uma moça desgraçada e de uma menina órfã, uma família; dê a felicidade a seu marido, e um nome à sua filha!
Carolina – E quem me dará a mim o que eu perco?
Luís – A sua consciência.
Carolina – Não a conheço! Adeus! (Vai sair)
Ribeiro – Não! Tu não sairás com este homem!
Carolina – Quem impedirá?
Ribeiro – Eu!
Helena – Sr. Ribeiro, seja prudente!
Pinheiro – É o que faltava ver! Que o senhor queira levar o ridículo a esse ponto!
Tem algum direito sobre ela?
Ribeiro – Tenho o direito de vingar-me de um amigo desleal que me traiu.
Pinheiro – Eu traí; e o senhor?... Roubou! Roubou a filha a seus pais.
Luís (à Carolina) – Veja os homens a quem ama!
Carolina – Não amo a ninguém! Sou livre! (Caminhando para a porta vê Margarida que entra pelo braço de Araújo, recua com espanto).
CENA X
(Os mesmos, Margarida e Araújo)
Carolina – Ah! Esqueci que ainda tinha mãe!
Margarida – Carolina!
Luís– Tardaste muito!
Araújo – Apesar de toda a sua coragem, faltavam-lhe as forças! Que te disse ela?
Luís – Cala-te!
Margarida – Carolina!... Não falas à tua mãe? Não me queres conhecer?... Depois de tanto tempo!... Tens medo de mim?... Não penses que vim repreender-te.... acusar-te! Já não tenho forças!... Vim pedir-te que me restituas a filha que perdi! Queria ver-te antes de morrer... Eu te perdôo tudo... Não tenho que perdoar... Mas fala-me... Olha-me ao menos!... Mais perto! Quase não te vejo!... As lágrimas cegam... e tenho chorado tanto!
Carolina – Minha mãe!...
Margarida – Ah!...
Carolina – Oh! não!
Margarida – Que tens?
Carolina – Tenho vergonha!
Margarida – Abraça-me! Deus ouviu as minhas orações! Achei enfim a minha filha!...minha Carolina!
Carolina – Não estás mais zangada comigo?
Margarida – Nunca estive! Tinha saudades! Porém agora não nos separaremos mais nunca. Vem!...
Carolina – Para onde?
Margarida – Para a nossa casa; hás de achá-la bem mudada. Mas tudo voltará ao que era. Estando tu lá, a alegria entrará de novo; seremos muito felizes, eu te prometo.
Carolina – Está tão fraca!...
Margarida – Contigo sinto-me forte! Já não estou doente: vê! (Dá um passo e vacila)
Carolina – Nem pode andar!... Mas tenho ai o meu carro.
Margarida – Teu carro!...
Carolina – Sim! Ainda não viu? É muito bonito.
Margarida – Todas estas riquezas que compraste tão caro e com tantos sofrimentos custaram à tua mãe, já não te pertencem, Carolina, atira para longe de ti estes brilhantes!... Não te assentam!
Carolina – Minhas jóias!...
Margarida – Oh! Não lamentes a sua perda! Beijos de mãe brilham mais em tuas faces do que esses diamantes. Tu eras mais bonita quando íamos à missa aos domingos.
Carolina – Pois sim! (Afasta-se)
Luís (à Margarida) – Era a minha última esperança!
Margarida – Não falhou, o coração me dizia...
Carolina (no espelho) Não! Não tenho coragem!
Margarida – Que dizes?
Carolina – Perdão, minha mãe! É impossível!
Margarida – lembra-te, minha filha, que é a tua desonra que tu mostras a todos!
Carolina – Que importa?... Minhas jóias!... Tão lindas!... Sem elas, o que serei eu? Uma pobre moça que excitará um sorriso de piedade!... Não! Nasci com este destino! É escusado.
Luís – (à Margarida) - Foi irritá-la!...
Margarida (à
Carolina) – Escuta! Não exijo nada! Não quero saber de coisa alguma! Faze o que
quiseres; mas deixa-me acompanhar-te; deixa-me viver contigo: eu partilharei
até mesmo a tua vergonha.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.