Por José de Alencar (1857)
Não quis interrogá-lo, convencido de que lhe negaria.
Resolveu espiá-lo durante aquela noite, até que pudesse avisar a Carolina do que se passava, a fim de que ela defendesse pelo amor uma vida ameaçada por loucos prejuízos.
Sua expectativa realizou-se; recostado no muro da chácara que ficava fronteira às janelas do quarto da noiva, acompanhou por entre as cortinas toda a cena noturna que descrevi; conheceu a agitação do moço, viu-o deitar algumas gotas de ópio no cálice de licor que deu à sua mulher; não perdeu nem um incidente, por menor que fosse.
Um instante, enquanto o moço meditava, com os olhos no mostrador do seu relógio, o senhor Almeida, receou que ele quisesse fazer do quarto da noiva um aposento mortuário; mas respirou, quando o viu saltar na rua.
Seguiu-o e, pela direção, adivinhou o desenlace da cena de que fora espectador; preparou-se, pois, para representar também o seu papel; e por isso achava-se em face de Jorge no momento supremo em que a sua intervenção se tornara necessária.
O primeiro sentimento que se apoderou do moço, vendo o senhor Almeida, foi o do pejo; teve vergonha do que praticava e pareceu-lhe fraqueza aquilo que havia pouco julgava um ato de heroísmo.
Logo depois o despeito e o orgulho sufocaram esse bom impulso.
— Que veio fazer aqui? perguntou com arrogância.
— Evitar um crime, respondeu o velho com severidade.
— Enganou-se, disse Jorge secamente.
— Não me enganei, porque estou certo de que não há homem que depois de escutar a razão cometa semelhante loucura. Qual é o benefício que lhe pode dar a morte?
— Salvar-me da desonra.
— Uma desonra não lava outra desonra. O homem que atenta contra sua vida, é fraco e cobarde...
— Senhor Almeida!
— É cobarde, sim! Porque a verdadeira coragem não sucumbe com um revés; ao contrário luta e acaba por vencer.
Matando-se, o senhor rouba os seus credores, porque lhes tira a última garantia que eles ainda possuem, a vida de um homem.
— E que vale esta vida?
— Vale o trabalho.
— E o sofrimento!
— É verdade; mas não temos direito de sacrificar a um pensamento egoísta aquilo que não nos pertence. Se a sua existência está condenada ao sofrimento, deve aceitar essa punição que Deus lhe impõe, e não revoltar-se contra ela.
Jorge abaixou a cabeça; não sabia o que responder àquela lógica inflexível.
— Escute, disse o velho depois de um momento de reflexão, o que teme o senhor dessa desonra que vai recair sobre a sua vida? Teme ver-se condenado a sofrer o desprezo do mundo, e sentir o escárnio e o insulto sem poder erguer a fronte e repeli-lo; teme, enfim, que a sua existência se torne um suplício de vergonha, de remorso e de humilhação! não é isto?!
— Sim! balbuciou o moço.
— Pois não é preciso cometer um crime para livrar-se dessa tortura; morra para o mundo, morra para todos; porém viva para Deus, e para salvar a sua honra e expiar o seu passado.
— Que quer dizer? perguntou o moço admirado.
— Ali está o corpo de um infeliz; é um cadáver sem nome, sem sinais que digam o que ele foi; deite sobre ele uma carta, desapareça, e, daqui a uma hora, o senhor terá deixado de existir.
— E depois?
— Depois, como um desconhecido, como um estranho que entra no mundo, tendo a lição da experiência e a alma provada pela desgraça, procure remir as suas culpas. Um dia talvez possa reviver e encontrar a felicidade.
Jorge refletiu :
— Tem razão, disse ele.
Pouco depois ouviu-se um tiro; os trabalhadores das obras que iam chegando encontraram um cadáver mutilado e a carta de Jorge; ao mesmo tempo o moço e o senhor Almeida ganhavam pelo lado oposto a praia de Santa Luzia.
Passava um bote a pouca distância de terra; o velho acenou-lhe que se aproximasse.
— O acaso nos favorece, disse ao moço; sai amanhã para os Estados Unidos um navio que me foi consignado; é melhor embarcar agora, para não excitar desconfianças; hoje mesmo lhe tirarei um passaporte.
O bote aproximou-se; o embarque nestas paragens é incômodo; mas a situação não admitia que se atendesse a isto.
Eram 9 horas quando o senhor Almeida, tendo deixado Jorge na barca americana e tendo tomado um carro na primeira cocheira, chegou à casa de D. Maria.
A boa senhora recebeu-o com um sorriso; estava sentada na sala próxima ao
quarto de sua filha e esperava tranqüilamente que seus filhos acordassem.
O velho, vendo aquela serena felicidade, hesitou; não teve ânimo de enlutar esse coração de mãe.
Nisto a porta do quarto abriu-se e Carolina, branca como a cambraia que vestia, apareceu na porta, tendo na mão a carta de Jorge.
A mãe soltou um grito; a filha não podia falar; e assim passou um momento de tortura, em que uma dessas dores procurava debalde adivinhar a desgraça e a outra se esforçava por achar uma palavra que a revelasse.
No dia seguinte, Jorge partia para os Estados Unidos e Carolina trocava, suas vestes de noiva por esse vestido preto que nunca mais deixou.
Seria longo descrever a vida desse moço, morto para o mundo e existindo, contudo, para sofrer; durante cinco anos, alimentou-se de recordações e de uma esperança que lhe dava forças e coragem para lutar.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.