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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Fala, menina...

Júlia Senhor... meus pais responderam por mim. (trêmula)

Teóf.

Oh!... É mais do que mereço! (beija a mão de Júlia)

Firmino Este dia é o mais feliz da minha vida! Devo crer que o senhor barão do Lago Azul...

Teóf.

Autorizou, aprovou e abençoa a escolha do meu coração.

Teod.

Minha Júlia (abraça-a)

Firmino Perdoe-me... mas a felicidade tem suas ânsias: nós nos entregamos ao seu arbítrio... Júlia será sua esposa, é já sua noiva; mas a mim que sou pai, é lícito perguntar, quando deseja que se realize o seu casamento...

Teóf.

Por mim eu o quisera amanhã: e quase adia a própria data; tenho porém uma dependência que me pode prender até um ano.

Teod.

Um ano!...

Teóf.

Imprudente compromisso de estudante; eu e um íntimo amigo, com quem fraternizo desde o colégio, ajustamos que se fosse possível, nos casaríamos à mesma hora e na mesma igreja, e que para isso aquele que primeiro contratasse casamento, preveniria o outro, correndo-lhe o dever de esperar um ano para a execução do compromisso.

Firmino Mas esse amigo... já talvez tenha também encontrado.

Teóf.

Amou antes de mim; a noiva de sua escolha foi-lhe porém negada.

Firmino Ah, mas nesse caso...

Teóf.

Ele não desanimou ainda, e confia no seu amor...

Teod.

É da corte o seu amigo?

Teóf.

É; a sua amada não sei; respeitei o segredo que ele não me revelou espontaneamente: o meu amigo V. Exas sem dúvida conhecem, é o dr. André de Araújo...

Firmino Oh!... (emoção de Corina)

Teodora Senhor Teófilo... o segredo do seu amigo...

Firmino Sobre este assunto hei de explicar-me com V. Exª. em particular... e o dr. André de Araújo...

Teóf.

Perdão: não tenho amigo a quem preze tanto, como ao dr. André; mas o seu projeto de casamento apenas influi sobre o meu, podendo obrigar-me a esperar até um ano, conforme o nosso desastrado ajuste. Quanto ao mais sei que André foi reservado comigo e basta isso para que eu me ocupe exclusivamente da minha felicidade.

Firmino Aplaudo o seu ótimo juízo; por amor de Júlia, porém, se o dr. André não pode obter a mão da noiva que desejava, a influência de sua amizade conseguirá levá-lo a fazer em breves meses, outra e mais oportunada escolha. (movimento de Corina)

Teóf.

Outra vez perdão: se nem procuro conhecer-lhe o amor, também não me é lícito combatê-lo. Vou esperar um século, se d. Júlia quiser esperar-me um ano.

Júlia E deve ser assim...

Teóf.

A glória que mereci, me embriaga... (levantando-se) O coração pede-me expansões, e almeja mandar longe as suas alegrias.

Teodora Pois quer deixar-nos já?...

Teóf.

Tenho pressa de felicitar meu pai pela encantadora filha que lhe vou dar. Despacharei hoje mesmo um próprio. Se me for permitido voltarei freqüentemente...

Firmino Todos os dias...

Teodora Não vai ser nosso filho?... Olhe-nos já como sua família.

Teóf.

E preso para sempre por duas cadeias de flores, a do amor... e a da gratidão. Minha senhora... (Teodora o abraça) d. Júlia... (beija-lhe a mão) minha senhora... (aperta a mão de Corina) senhor Firmino!...

Firmino Um abraço bem apertado! (abraçam-se, vai-se Teófilo; Firmino e Teodora o acompanham)

Cena 4ª

Júlia, Corina: Firmino e Teodora que voltam

Corina É ou não prata de lei?

Júlia Prata de lei? É brilhante sem jaça.

Teod.

(abraçando Júlia) Minha filha, Deus ouviu os votos de tua mãe!...

Firmino E eu? E eu?... Júlia, não tenho um abraço?... (abraça)

Teod.

É pena somente que não se case já... é pena!...

Firmino E por causa de um libertino... de um homem que se diverte a enganar pobres moças com esperanças de casamento que nunca se realiza!...

Teod.

Conheces de perto esse doutor André?

Firmino De perto não o quero ver... mas de longe conheço-o pelos desatinos e costumes desenvoltos...

Teod.

Ah! Então é amizade bem ruim para Teófilo. (tomando-o à parte) Estás se excedendo... toma cuidado...

Firmino (a Teodora) Este embaraço é terrível... devemos casar Corina antes de oito dias... (conversam com viveza)

Corina (a Júlia) Que injustiça... que crueldade...

Júlia (a Corina) Queres ver como faço a minha entrada no jogo?...

Corina (a Júlia) Júlia!... Sê discreta.

Júlia (suspirando) Ai!... Ai!...

Firmino Júlia... gemeste?...

Júlia (chegando-se) Papai... eu confesso que não posso esperar um ano.

Firmino Com esta contava eu! Menina, isso não é bonito.

Júlia É melhor papai entender-se com o sr. Teófilo e com esse doutor André...

Firmino Não sabes o que dizes...., tens a cabeça perdida.

Júlia Ora... papai talvez conheça a família da moça com quem o doutor quer casar, e interessando-se por este resolveria tudo em meu favor...

Firmino É claro que estou metido em uma roda viva...

Teod.

Júlia, é necessário mostrar juízo...

Júlia Mamãe, esperar um ano eu não posso. Declaro que não hei de esperar um ano!!! (com viveza)

Cena 5ª

Firmino, Teodora, Júlia, Corina, e Suzana muito fatigada



(continua...)

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