Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

CASIMIRO – Principalmente; ninguém me ouvirá palavra, confio em ti, farás tudo. Quanto à coincidência... se pudesses também convencer Violante de que não lhe está bem casar-se na sua idade... de que o ridículo, a murmuração de todos... o mal que faz a seus parentes...

BRAZ – No coração de uma velha o badalo do casamento soa mais forte que o bombo em música de timbaleiros; não há esperança: lasciate ogni speranza; a velha entra por força a porta do inferno.

CASIMIRO – Aí chega ela... eu vou passear pelo jardim... Violante me irrita com a sua mania: já brigamos hoje, é melhor sair...

CENA IV

BRAZ e VIOLANTE

VIOLANTE(A Casimiro) – Pode voltar-me as costas quantas vezes quiser! agradeço-lhe a sua ausência...

BRAZ – Madrinha!

VIOLANTE – Pois não! tenho passado o dia em uma roda-viva; que tem ele de opor-se ao meu casamento?

BRAZ – Mas... eu não a julgava com tanto talento para a zombaria! tem tocado o sublime...

VIOLANTE – Por fim de contas... não tornes a falar-me assim... tenho uma idéia a ferver-me na cabeça... mandei-te chamar por isso.

BRAZ – Desde ontem à noite que a madrinha me está logogrifando com a idéia que lhe ferve na cabeça; ainda bem que me mandou chamar: às ordens!

VIOLANTE – Como te direi, Braz? tu és quase meu filho, atende-me e aconselha-me; mas... não olhes para mim com esses olhos espantados... por fim de contas meteste-me a brincar com fogo... por um lado só a idéia do meu casamento pôs em fúria Casimiro contra mim, e me deu a mostra do pano, e do que devo esperar destes meus parentes; por outro lado, três moços bonitos, amáveis e cada qual mais extremoso, se oferecem a proteger e aditar meus últimos anos.

BRAZ – Madrinha... o que está dizendo... por quem é... uma senhora de tanto juízo... (Mudando de tom) bravo, madrinha! admirável!... até a mim própria iludia!

representa perfeitamente!

VIOLANTE – Mas não há ilusão... é a idéia que me está fervendo na cabeça...

BRAZ – Estupendo! é de arrebatar! bravo, madrinha!

VIOLANTE – Pior! queres fazer-me perder a paciência? principias a faltar-me ao respeito!..

BRAZ – Como?... pois não é graça, madrinha?

VIOLANTE – Meu Braz, se eu não me casar, que contarei deste mundo no outro? e por fim de contas quem pode assegurar que eu não seja amada por meu marido? e ainda não amada, ele pelo menos fingirá amar-me, e há de cercar-me de cuidados para que eu lhe deixe toda minha fortuna: esse fingimento me fará feliz...

BRAZ – Et coetera... et coetera...

VIOLANTE – Não entendo.

BRAZ – Naturalmente: et coetera é grego; mas tem sua eloqüência nestes casos.

VIOLANTE – Eu não pensava nestas coisas; tu me expusestes ao fogo... criaste a hipótese... fizeste-me desejar a realidade, oferencendo-ma ou mostrando-ma de perto!... Braz, a gente não é de ferro...

BRAZ – Ah, madrinha! a serpente não pensou que houvesse tentação para a Eva de sessenta e dois anos! sou o maior tolo do Brasil!

VIOLANTE – Reprovas também?...

BRAZ – Não digo isso... mas reflita por algumas semanas antes de se decidir... madrinha... a sua idade...

VIOLANTE – Não vem ao caso; com os anos que tenho, achei de uma vez três pretendentes à minha mão; parte deste princípio e raciocina.

BRAZ – Partindo desse princípio, não há que raciocinar: é casar et coetera.

VIOLANTE – Pretendes meter-me à bulha?

BRAZ – Qual! tenho visto disparates maiores; exemplo: o do... o da... o de... não acho agora exemplo; mas sem dúvida haverá muitos; a madrinha quer casar? aprovo; conte comigo em tudo, por tudo e para tudo.

VIOLANTE – Eu contava tanto com os teus epigramas como com a tua dedicação. Agora quero de ti um favor: preciso que até amanhã à noite, me tragas informações miúdas e completas sobre os meus três pretendentes.

BRAZ – Honradíssimos e desinteressadíssimos jovens: iguaizinhos todos três.

VIOLANTE – A tua voz tem um tom de ironia...

BRAZ – Não, senhora; apenas falei em grifo, como diz certo amigo; vá descansar, madrinha; amanhã lhe trarei o relatório das virtudes e das hipotéticas fraquezas daqueles três primores... serei leal, como sempre; vá descansar.

VIOLANTE – Sim, e preciso bem; desde ontem que não durmo... sinto uns abalos no coração...

BRAZ – Vá dormir sossegada; o seu casamento se fará et coetera... et coetera. VIOLANTE – Tu és trigo sem joio. (Vai-se)

CENA V

BRAZ e CLEMÊNCIA

BRAZ (Acena para dentro chamando) – Psiu! psiu!

CLEMÊNCIA (Dando-lhe a mão) – Como passou?

BRAZ – Melhor do que merecia; falemos com algum cuidado... (Observando) CLEMÊNCIA – Que há?

BRAZ – Virei de bordo e venho bater bandeiras; abandonei o partido da madrinha e passo-me para o seu; não se admire, porque isto é trivial.

CLEMÊNCIA – Na minha questão com a titia dispenso absolutamente o seu apoio.

BRAZ – Dê forte, que bem o mereço; mas o caso tornou-se grave; na sua família manifestou-se a loucura contagiosa; é para fazer medo! não me espantaria se hoje ou amanhã a senhora se dirigisse à minha casa para pedir-me em casamento.

CLEMÊNCIA – Tranqüilize-se.

BRAZ – Não posso, porque esse é o caráter da epidemia; escute, guarde segredo e auxilie-me em seu próprio interesse; seu pai incumbiu-me de pedir para ele a menina Irene em casamento.

CLEMÊNCIA – É possível?!!! vou contar a Mário.

BRAZ – Deitaria tudo a perder.

CLEMÊNCIA – Meu pai então está doido?

BRAZ – Se a moléstia é reinante!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →