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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

CINCINATO – Mas... o recurso é de inspiração, palavra de honra! o sr. Clarimundo aproveitou a noite! o caso é de quebrar louça... a Dionísia não é feia... deixo o Adriano de boca aberta, e bato a linda plumagem com a rapariga.

CLARIMUNDO – Salvas teu irmão...

CINCINATO – E no fim de quinze dias faço-me viúvo! é de arrebatar e de encher a cidade com a minha fama; sr. Clarimundo, ganhei ultimamente ao lasquenet três contos de réis, que tenho de reserva; se precisar mais, bater-lhe-ei à porta. Vou praticar uma boa ação executada em andamento de maroteira. Esta noite Dionísia fugirá comigo: fica resolvido. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha.

CLARIMUNDO – Serás a nossa providência (Batem palmas.) pior!

CINCINATO – Pior sem dúvida; porque urge entrar em campanha, e sem almoço não dou contas de mim.

CENA VI

CLARIMUNDO, CINCINATO e JOSÉ, que vai à porta.

CLARIMUNDO – É sem dúvida alguém que procura Adriano, e como ele não está em casa...

CINCINATO – Que seja assim ou protesto: estou rebentando de fome.

CLARIMUNDO (A José que volta.) – Quem é?...

JOSÉ – O sr. Fábio que, não encontrando meu senhor em casa, insta por falar já à minha senhora.

CLARIMUNDO – Fábio?... insta...

JOSÉ – Diz que é negócio grave...

CLARIMUNDO – Fábio! (A José.) dize à senhora que eu e Cincinato saímos, e que voltaremos daqui a uma hora para almoçar. (Vai-se José.)

CINCINATO – Daqui a uma hora? pela minha parte almoço no caminho.

CLARIMUNDO – Silêncio, entra comigo neste gabinete; a ação é má; as circunstâncias, porém, a desculpam. (Indo.)

CINCINATO (Seguindo-o.) – Ah!... o senhor também quebra louça!... (Entram no gabinete.)

CENA VII

JOSÉ, que logo se retira, FÁBIO e logo HELENA

JOSÉ (À porta.) – Minha senhora não tarda: queira entrar e sentar-se.

FÁBIO – Assegura-lhe que eu sinto incomodá-la; mas o caso é urgente. (Vai

José.) Minha senhora... (Vendo Helena.)

HELENA – Sr. Fábio... tenha a bondade de sentar-se. Procurava meu marido?

FÁBIO – Não o encontrei no seu escritório, e sendo indispensável que eu lhe fale quanto antes... se v. ex. pudesse indicar-me...

HELENA – Infelizmente não posso...

FÁBIO – V. ex. não compreende como é lamentável, como pode ser funesta qualquer demora... perdão... sei que v. ex. não se apraz da minha presença e só um caso extraordinário me obrigaria..

HELENA – Meu marido não está em casa, e ignoro onde o possa encontrar fora do seu escritório.

FÁBIO – Oh! não é por embaraços da minha vida, é por seu próprio marido, que vim sujeitar-me a importunar a v. ex... é preciso que ele me fale quanto antes... ocorre um infortúnio... uma contrariedade gravíssima.

HELENA – Em relação a Adriano? ...

FÁBIO – A situação é tal que... em desespero talvez v. ex. ache um recurso em suas amizades... eu devo falar...

HELENA – De que se trata?

FÁBIO – Achando-se em grandes apuros, o sr. Adriano assinou um depósito de seis contos de réis, que deve restituir amanhã... Tínhamos a promessa de um mês de espera; mas o malvado usurário faltou a ela, e exige o seu dinheiro.

HELENA – E então?...

FÁBIO – O sr. Adriano... não tem em si aquela quantia... e se não achar quem lha empreste...

HELENA – As conseqüências?

FÁBIO – Um depósito... oh! é ao sr. Adriano que me cumpre falar... (Como para sair) minha senhora... minha senhora...

HELENA – Mas... se isto é verdade, eu quero saber tudo...

FÁBIO – Não... não, minha senhora; talvez ainda seja possível...

HELENA – Veio então só para amargurar-me?...eu quero saber...

FÁBIO – Tem razão... e v. ex. conta prestimosos amigos... e só quem pode impedir a maior desgraça; porque amanhã... a prisão... a desonra...

HELENA – Oh! a prisão de Adriano!...

FÁBIO – Cumpre-me prevenir à v. ex. que os recursos do sr. Adriano estão esgotados e que ele não achará quem lhe empreste...

HELENA – Oh! se o sr. Clarimundo não estivesse em pobreza... os meus brilhantes... mas valem tão pouco... meu Deus!... isso é verdade, senhor...

FÁBIO – Minha senhora, se não tem entre os seus amigos um, que para poupá-la a maior dom, honre a firma de seu marido, habilitando-o para restituir o depósito.

resigne-se: o sr. Adriano deve ocultar-se, fugir hoje mesmo.

HELENA – Fugir?... e a desonra?...

FÁBIO – E a prisão amanhã?

HELENA – Meu marido!... oh!... isto é horrível...

FÁBIO – Confesso: eu não vim procurar o sr. Adriano; vim prevenir a v. ex. de que é indispensável obrigá-lo a fugir esta noite...

HELENA – Fugir não!

FÁBIO – Conta pois com algum amigo?... veja bem...

HELENA – Oh! Adriano! meu marido!.. . (Cai sentada chorando.)

(continua...)

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