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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

BRÁULIO – Razão demais: isso indica ponta de capricho e ameaça de ligação demorada que não nos convém. O Quebra-louça há de desesperá-la em três dias, e não será capaz de sofrê-la três semanas: antes de um mês recolheremos Dionísia.

GERTRUDES – Então vou ralhar com ela, e convencê-la de que deve preferir o Cincinato. (Vai a sair)

BRÁULIO – Ao contrário: vai dizer-lhe cobras e lagartos do Quebra-louça, e sustentar a candidatura de Adriano; mas fala sempre na riqueza do outro: verás que ela muda de parecer: vocês todas são uns demônios de contradição...

GERTRUDES – Ora o Cincinato! quando mal se esperava...

BRÁULIO – É um homem de ouro! paga à vista e ao portador:

conquista como César, (Sussurro dentro.) começam...

UMA VOZ (Dentro.) – Basta, Cincinato?

CINCINATO (Dentro.) – Jogo por fora para ter direito aos eclipses: faço um entre-parêntesis para avaliar o que ganhei na tripa.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Vai, malvado!

BRÁULIO – Ele chega... deves ir tocar; daqui a pouco faze Dionísia cantar algum lundu provocador.

CENA II

BRÁULIO, CINCINATO e GERTRUDES, que se vai.

CINCINATO – Adeus, mamãe Gertrudes! (Ao encontrá-la.) GERTRUDES –

Que diabo de homem! (Vai-se.)

BRÁULIO – Aborreceu-se de jogo?

CINCINATO – Venho triste: feliz no jogo, infeliz no amor; não apostei que não ganhasse... vou perder com a bela Dionísia... não é?...

BRÁULIO – Tenha mais confiança em si: merece muito e sabe querer as coisas; é pena que não procure recomendar-se melhor a Dionísia.

CINCINATO – Eu tomei por caminho a linha reta: procurei chegar ao coração da sobrinha, fazendo escorregar a mão pela bolsa do tio; sou da escola realista: falei claro.

BRÁULIO – E eu lhe respondi que talvez arranjássemos tudo a contento.

CINCINATO – Talvez é o vago e o escuro: talvez é o animal que tem a cabeça escondida no sim, e a cauda enrolada no não. Eu fui mais positivo... no que falei, apresento... olhe... é só para mostrar... (Abre a carteira e mostra.) seis notas de quinhentos...

BRÁULIO – Novas e bonitas... vejo bem; mas podem se fazer as coisas decentemente... o senhor é escabroso... exprime-se de modo...

CINCINATO – Nítido e transparente: resolva a questão.

BRÁULIO – Dê as suas ordens para que esteja pronto e à nossa porta o carro à meia-noite. Hei de convencer Dionísia.

CINCINATO – Convença-a; porque o carro chegará às onze horas; tenho o costume de preparar a couve antes da carne; mas pelo que me disse haverá em tal caso à sua porta dois carros para o mesmo fim, o de Adriano, e o meu: e se, por engano, a bela Dionísia... olhe, sr. Bráulio, tudo pode acontecer, menos somente uma coisa...

BRÁULIO – O quê?

CINCINATO – Ficar o senhor com o meu dinheiro, e eu sem a rapariga: declaração formal. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha.

BRÁULIO – Pode estar tranqüilo: o senhor trata com um homem de bem.

CINCINATO – Isso está fora de questão; mas, em todo caso, há de ser como lhe disse: três contos de réis à portinhola do carro, estando o passarinho dentro.

BRÁULIO – De acordo; mas... o senhor nem respeita as conveniências...

CINCINATO – Quais? as suas?... e esta! quando lhe vou dar três contos de

réis!...

BRÁULIO – Não é isso: é que o senhor nunca namorou seriamente Dionísia... nem mesmo hoje...

CINCINATO – Como é que se namora sério?... o namoro sempre me pareceu passatempo ridículo... eu gosto do positivo.

BRÁULIO – Ajude-me: faça a corte à Dionísia sentimentalmente; ataque-lhe o coração.

CINCINATO – Sentimentalmente, e atacando-lhe o coração?... vá feito: protesto que hei de tocar-lhe na tecla.

BRÁULIO – Sobretudo não comprometa o negócio, fazendo alguma das suas costumadas estúrdias: é o seu único defeito (Soa o piano em prelúdio.) ouça... creio que ela vai cantar, deixo-lhe o campo livre. (Vai-se.)

CENA III

CINCINATO e, depois do canto, DIONÍSIA

DIONÍSIA (Cantando dentro: lundu) – Bonita e marotinha.

Eu sou como andorinha

Que, só, não faz verão.

Voando a sós no espaço,

Cair quero no laço

Que prende o coração.

CINCINATO (Canta.) – Caído e enrabichado

Sou peixe, teu pescado,

Com o anzol no coração.

Não fiques mais sozinha,

Vem cá, minha andorinha,

Vamos fazer verão.

DIONÍSIA (Rindo-se dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Canta.)

O amor de uma andorinha

Na sombra se amesquinha,

Quer lúcido esplendor.

Voando a sós no espaço,

Só cairei em laço

De enleio encantador.

CINCINATO (Canta.) – Meu laço é um tesouro,

Jóias, brilhante, ouro,

Súcia, teatro, ceia,

Sedas, e até veludo,

Coques, anquinhas, tudo,

E a bolsa sempre cheia.

DIONÍSIA (Canta dentro.) – Sou terna e já me inflama

Aquela viva flama.

Que abrasa o coração:

Pressinto que a andorinha

Não fica mais sozinha.

E vai fazer verão...

CINCINATO (Canta.) – Por mim estou em brasas...

Se queres, bate as asas,

Me deixa ser ladrão;

Vamos tecer um ninho,

Voa, meu passarinho,

Vamos fazer verão.

DIONÍSIA (Dentro.) – Ah! ah! ah! ah! (Rindo-se.) mamãe, já viu moço mais engraçado! (Cincinato vai para a frente, mas observa.)

(continua...)

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