Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Eu tenho bastante confiança na prudência da nossa “Bela Órfã”; mas não sei se seria justo deixar somente ao juízo de uma criança a solução de objeto tão grave.
– Querias pois, Mariana, tornou-lhe com seriedade Anacleto, que sem consultar a essa interessante órfã, dispuséssemos de sua mão, de seu futuro, de sua vida inteira?... suponhamos que ela não ama a Salustiano. Quererias tu que a sacrificássemos à paixão, aos caprichos desse homem!... oh! não, minha filha; os sacrifícios deste gênero são horríveis... eu os compreendo.
O velho olhou fixamente para Mariana, que sentiu passar por seu rosto uma onda de rubor; disfarçou, e depois de serenar, disse:
– Pois bem. E se acaso Celina disser que sim?...
– Nesse caso ela ouvirá minhas reflexões.
– E meu pai dirá...
– Que esse homem não me agrada; que seu único mérito, a só recomendação com que se nos mostra, é ter herdado uma riqueza enorme acumulada por seu pai, homem laborioso e honrado, dir-lhe-ei que há no rosto desse mancebo alguma coisa que transpira baixeza de sentimentos; que há no sorrir constante de seus lábios um sarcasmo eterno, ou incurável toleima, que o torna antipático e pesado a quem o pratica.
– E por conseqüência?...
– Por conseqüência eu falarei horas inteiras para convencer Celina de que não se fará ditosa desposando semelhante homem. Se ela porém teimar... paciência; deixá-la-ei ir; e rogarei a Deus por ela.
– Vê-se bem que meu pai não olha com bons olhos para Salustiano.
– É verdade; ele reúne em si o egoísmo do inglês e a frieza do alemão; e não tem a honra nem de um nem de outro.
– Mas como então consente que esse homem freqüente tão assiduamente nossa casa?...
– Mariana, certas considerações, que os homens mutuamente se devem na sociedade, fazem que nem de nossa própria casa sejamos absolutos senhores. E além disso, não é por minha causa que Salustiano aqui vem.
– Por quem, então?...
– Não fui eu que o convidei, Mariana.
A filha de Anacleto fez-se pálida de súbito, e levantando a cabeça, perguntou:
– Que quer dizer o senhor?
Ficou Anacleto em silêncio por alguns instantes. Suportou com imperturbável sangue frio o olhar vivo, ardente e penetrante de sua filha, fito em seu rosto, e depois respondeu:
– Nada.
Mariana deixou cair de novo a cabeça sobre a face palmar da mão, que ela estendia no peitoril da janela, e disse:
– Felizmente que meu pai tendo a honra do inglês e do alemão, não tem contudo o egoísmo do primeiro.
– E por quê?...
– Porque a frieza do alemão, essa meu pai tem.
Anacleto sorriu e depois tomando um ar sério, falou à filha:
– Enfim, Mariana, preciso é que nos compenetremos bem do que devemos a essa menina que nos foi confiada. Lembra-te de que ela é uma órfã, e de que seus pais foram em vida amados pelo povo, e deixaram um nome que é ainda hoje abençoado.
– É verdade.
– E portanto, nós temos primeiro sobre nossas cabeças Deus que nos observa atento. Porque órfão deve ser, e é a criatura predileta da Providência. O órfão é a criatura isolada que não tem pai para velar no seu futuro, que não tem mãe para morrer por ela, e que portanto deve ter os olhos de Deus fitos em sua fronte; fitos sobre seus tutores. Mariana, os olhos de Deus estão pois sobre nós ambos: velemos por Celina.
– Sim... velemos.
– Oh! e tenhamos compaixão... tenhamos piedade desses restos respeitáveis, dessas cinzas amadas de um pai desvelado, de uma mãe extremosa, que a morte precoce arrebatou à sua filha. De dentro do sepulcro seus esqueletos nos observam... e de cima... da eternidade suas almas nos acompanham, e vêem como cuidamos nós da sagrada deixa que nos legaram. Mariana, velemos por Celina.
– Sim, meu pai, é assim.
– Oh! e tenhamos também cuidado com este povo que amou tanto aos pais da nossa pupila; não queiramos, ao passar pelo meio dele, ouvir suas maldições. Tu sabes como Celina é amada... tens ouvido que sua casa teve o nome de – Céu, e nós mesmos, acompanhando a gratidão popular, a chamamos “Bela Órfã”: até agora, pois, bênçãos... ah! temamos que chegue também uma hora de pragas. Mariana, velemos por Celina!
– Sim... mas silêncio... eu sinto suas pisadas.
Com efeito, Celina entrou nesse momento na sala, e dirigiu-se a seu avô.
De ordinário melancólica, a melancolia era nela um encanto. Algumas vezes, risonha, o seu sorrir era um feitiço. Dessa vez Celina vinha com leve sorriso nos lábios.
– Sabe, meu avô? disse ela a Anacleto, a nossa boa vizinha, a velha Irias, lhe mandou pedir licença para visitar-nos, e agradecer-nos o que ontem por ela fizemos.
– Agradecer-te, menina, foi provavelmente o que ela mandou dizer. Pois então que venha...
– Sim, disse Mariana, vai mandar-lhe dizer que venha, nós ouviremos dela com prazer o teu elogio.
– Eu já respondi que viesse, em nome de meu avô.
– E fizeste bem... mas parece que chegou...
Ouviu-se ruído junto da porta da sala.
– Oh!... é ela!...
– Vai recebê-la, disse Anacleto.
A menina correu à porta.
– Entre! exclamou ela, nós a esperávamos com prazer.
A porta abriu-se em par. Celina não pôde reter um pequeno grito, e recuou dois passos.
Era Salustiano.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.