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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Felisberto – Ela me basta, honrado amigo.

Felisberto (Canta) – Que bom negócio, Que vou fazer;Oh que ventura!Oh que prazer! Adriano – Que chuva de ouroEstá-me a chover!Oh que ventura!Oh que prazer! Felisberto – Parto depressaSem mais tardar, E o seu dinheiro Vou já buscar. Adriano – Parta depressaSem mais tardarE o meu dinheiro Vá já buscar. CENA XII Adriano (só) — Eu disse uma chuva... qual chuva! É uma inundação! É um dilúvio de prosperidade! Entremos na investigação das necessidades do nosso toilette, e primeiro que tudo ponhamos nossas antigas misérias no meio da rua! (Abre a gaveta e vê o relógio) oh! O que quer dizer isto!... o meu relógio?... o relógio, que eu havia empenhado no Monte de Socorro?... aqui anda obra do gênio do bem ou do pé-decarneiro; mas... oh! Que raio de luz!... sim, é o gênio do bem... Celestina! Não há dúvida... foi ela... com o fruto do seu trabalho... sim, foi ela! E eu fiz chorar aqueles belos olhos! Ah! eu sou um rico orgulhoso e mau! Graças, porém a Deus, que tudo se pode ainda reparar. Senhora Beatriz! Senhora Beatriz! morta ou viva, e ainda que rebente no caminho, a senhora Beatriz irá buscar-me Celestina... senhora Beatriz! Ela me há de trazer a minha bela celestina! (APARECE BEATRIZ e CELESTINA, ADRIANO cai aos seus pés.)

CENA XIII

Celestina, Adriano e Beatriz. – Celestina recua, ficando Adriano de joelhos aos pés de Beatriz

Adriano - (De joelhos e com os olhos baixos) – E eu cairei aos seus pés pedindo-lhe o meu perdão, e lhe direi: Tu que és bela como um anjo, pura como um raio de sol, meiga como a pombinha do vale, perdoa-me!... esqueci por um instante que tu eras cheia de graças, e se sentimentos nobres, e que só querias, antes de tudo, um nome, o nome daquele a quem amas... oh! Bem... eu te ofereço o meu nome e a minha mão! (Toma a mão de Beatriz e beija-a) Ah! tu me perdoas!... (Levanta a cabeça) Ora... e esta! Com que estava eu falando!... (Vê CELESTINA) Ah! tu estás aí!

Celestina – E te compreendi bastante, Adriano.

Beatriz – E eu também, senhor Adriano, e se não fosse tão escrupulosa já teria abraçado a Vossa Senhoria excelentíssima! (À parte) Nunca ouvi tantas ternuras do meu defunto Pancrácio.

Adriano (Mostrando o relógio) – Minha Celestina, eu adivinhei tudo!

Beatriz – Consegui retê-la no meu quarto: suas lágrimas puseram-me o coração em cinco pedaços, e como sei por experiência própria que os namorados brigam e fazem as pazes trinta vezes por dia...

Adriano – Mas agora, Celestina, tu me desprezas?

Celestina – Não, não, meu amigo, tudo está esquecido.

Adriano – Eu te desposo, minha Celestina, e a felicidade entrará em nossa casa com o ato do nosso casamento.

Celestina – E ficará para sempre morando conosco.

Beatriz (Limpando os olhos) – E eu ainda a chorar... vejam só! E isto me fazia esquecer, que hoje o excelentíssimo senhor meu amo tem sido procurado por toda a cidade em peso: tenho lá dentro um balaio cheio de cartas e bilhetes de visita: eu vou buscar. (Entra e volta logo)

Adriano – Que nova miséria será esta?...

Celestina – Não é miséria, Adriano; são os milagres do dinheiro, que é o senhor onipotente de quase todos.

Beatriz (Trazendo um balaio cheio de cartas e bilhetes) – Eis aqui as provas de que Vossa Senhoria excelentíssima tem a seu favor a opinião pública.

Adriano – Vejamos: misericórdia! Um balaio de cartas e de bilhetes de visitas!... Oh! Dinheiro! Oh! Miséria da humanidade!... ora, comecemos pelas cartas: (Tira uma e lê) oh! A primeira é do tal editor, que rejeitou minhas músicas: (Lê) miserável! Vê, Celestina, agora, agora ele me envia uma escritura, pela qual se obriga a imprimir pelo preço que pedi as mesmas composições que ontem rejeitava, sob pena de uma indenização de um conto de réis pago por aquele que se arrepender!...

Celestina – Que ventura! Tuas composições vão, portanto, aparecer! Tu vais ser conhecido... todos te vão aplaudir, e te fazer justiça.

Adriano (Depois de ler outra carta) Esta também não é má! Sou admitido na orquestra o teatro de S. Pedro de Alcântara pelo competente diretor com todas as condições por mim propostas: eis aqui o contrato assinado! Havia de ser bonito se eu aparecesse agora tocando tímpanos ou ferrinhos!...

Celestina – E essa carta?... será ainda algum novo obséquio?...

Adriano (Depois de ler) – Oh! Lá se é! Nada menos do que a empresa do Provisório que me compra a propriedade da minha ópera por dois contos de réis, e que se obriga a pô-la em cena dentro de um ano!...

Celestina – Oh! Isto sim é que é uma grande felicidade! Todos apostaram sobre quem mais faria para te colocar a salvo da pobreza!

Adriano – Sim! Agora que já de nada disso preciso, curvam-se todos ante o meu dinheiro: oh! Sim! Abrem-me os braços, quando já estou acima de seus favores: este mundo, Celestina, tem uma alma de bilhetes de banco, e um coração de monjolo!

Celestina – Paciência... é preciso sofrêolo, porque é o mundo que temos... e pela minha parte por ora não desejo mudar-me para outro.

(continua...)

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