Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Amor, minha cara amiga, é uma vã mentira; amor não é mais que uma das muitas quimeras com que a fantasia nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço... o amor não é mais que a flor de um só dia, que abre de manhã e antes da noite está murcha...
— Raquel!... pensar assim com dezesseis anos!... dizer que o amor é uma quimera!... flor de um dia!... oh! pois bem! mas essa flor tem um aroma que há de embriagar; que deve adormecer-nos num belo sono cheio de sonhos, do qual só deveríamos acordar para passar de suas delícias para as do paraíso!...
— Honorina! eu tenho medo de ti!... pensa bem nisto: o amor é uma hora de felicidade em chamas, que levantam altas labaredas; mas que se extinguem cedo para deixar após a cinza e o fumo da indiferença ou do aborrecimento, que tolda para sempre o horizonte da vida dos amantes, se o zéfiro da amizade não vem a tempo para limpá-lo.
— Oh! pois bem, Raquel, a desgraça de toda a minha vida... o horizonte dela toldado pela indiferença, ou pelo aborrecimento; mas uma só hora dessa felicidade em chamas, que tão cruelmente pintaste!... oh! sim!... o amor de um homem que se misture com a minha vida e com o meu futuro; que comigo faça um só ente; que se esqueça do meu ouro; desse ouro vil, para se lembrar de mim só... como eu me lembrarei só dele!... ah! Raquel, um amor de poeta! um amor de fogo, ainda que acabe na desgraça e na morte; mas que seja sempre o mesmo amor, deve ser bem belo!...
Os entusiásticos e nobres pensamentos da moça foram interrompidos por soluços, que quase a sufocavam. Ela chorava, e tinha razão para chorar.
Alma tão ardente e angélica, tão cheia de poesia e de imaginação, devia doer-se, sentindose presa em um mundo todo de matéria, de gelo, e de torpe positivismo.
A educação tinha arrojado essas duas moças para dois extremos, ambos perigosos. Uma, acostumada a ouvir com santo amor filial todos os conselhos de seu pai desde os primeiros anos; afeita a olhar para o mundo sempre pelo lado pior; tendo aprendido a amar a virtude, menos pelos encantos desta do que pelo horror que deve inspirar o vício; escutando a todas as horas a voz de uma moral fraca, grandiosa, mas fria e melancólica; abafou, sem talvez o querer, dentro do coração, os sentimentos brilhantes, arrojados e ardentes, próprios da sua idade. O amor é por ela considerado uma mentira ou um abismo; e, orgulhosa da sua educação e da sua prudência, ri-se do mundo e para o mundo.
Uma moça pensando como Raquel pode causar surpresa; mas certamente faz entristecer, porque a sua sensibilidade é o perfume da beleza.
A outra, criada longe do bulício da sociedade, separada do grande mundo pela vontade da sua família, porém ao mesmo tempo instruída com esmero; tendo até então conversado somente com os livros, imaginou o que não podia ver; cresceu na solidão, como uma flor, pura, inocente, cheia de deleitosas fragrâncias; a solidão alimentou, acendeu, inflamou a sua imaginação brilhante que voou livremente... ela sonhou com um mundo... com cem amigas... com um belo mancebo... esposo e amante, e todo o seu sonho era encantador... feiticeiro... adorável! tanto tempo, dezesseis anos fechada consigo mesma... com a alma repleta de ternos e ardentes sentimentos, e sequiosa de generosas impressões, ela que lera romances e poesias, ela que se fizera poeta na soledade e no retiro... pensava no amor com religioso encantamento; separava desse ente ideal, mavioso, angélico e vivificante toda a idéia material e bruta... não, não separava; antes, nunca se tinha lembrado ela, virgem e inocente, que se pudesse ligar uma só dessas miseráveis idéias, com aquele filho mimoso do coração, amamentado, criado, embelecido, endeusado pela imaginação.
E, portanto, ambas essas moças se enganavam com o mundo, e talvez que o seu erro seja para ambas funesto.
É possível que um dia desperte no coração de Raquel o sentimento, que aí dorme, e nesse caso terrível deverá ser a reação.
E Honorina achará nesse mundo, em que vai entreter o seu belo sonho de poesia? haverá nesse mundo, que, sem talvez estar tão pervertido, como o pinta Raquel, é, todavia, egoísta, mau, e enregelado; haverá nele ainda um homem, que compreenda a alma dessa mulher-anjo que pede ao céu um amor de poeta de fogo?... dessa nobre moça, que com a ponta do pé arrojará para longe de si o cofre de ouro do homem que ela não amar, e que pretender possuí-la?...
Oh!... se a realidade fria e negra aparecer sempre, desmentindo a sua imaginação alva e fervente!... quanto não custará a essa criatura angélica o arrastar a vida por este nosso campo de misérias!...
Mas Raquel, que primeiro escutara admirada a linguagem sentimental e entusiástica de sua amiga, apertou-a contra o peito, vendo-a chorar tão tristemente; e, como se antevisse os perigos que ela ia correr com tão inflamado espírito, exclamou quase sem sentir:
— Infeliz da minha Honorina!...
— Sim, sim, Raquel, bem infeliz; porque vivo neste mundo de ambições e de vergonhas, onde tu dizes que se ama a mulher pelo seu dote.
— Nada de tristezas agora... e tanto mais que, se fores enganada no teu amor, saberás olhar de bem alto para o homem a quem comprares com o teu dinheiro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.