Por Visconde de Taunay (1872)
Pereira, depois de todas aquelas explicações que o anão parecia ouvir com satisfação, disse, voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da sua cabeça:
—Agora, meu filho, vai ao curral grande e apanha para mim uma mãozada de folhas de laranjeira da terra... daquele pé grande que encosta na tronqueira.
Mostrou o homúnculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.
Ia Cirino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:
—Ó doutor, Nocência quer beber um pouco de água. . . Fará mal?
—Aqui não há limões-doces? indagou o moço.
— E um nunca acabar... e dos melhores.
—Pois então faça sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e dispostos os cobertores ao redor do corpo da menina, acompanhou Cirino que, parado à porta de saída, estava mirando as primeiras estrelas da noite.
—Vosmecê achou doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto trêmula, algum perigo no que tem aquele anjinho
—Não, absolutamente não, respondeu Cirino. Verá o Senhor que, daqui a três dias, sua filha não tem mais nada.
—Malditas febres!... Quando não derrubam um cristão, o amofinam anos inteiros... Eu não quisera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia .. As moças quando não são bonitas, é que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões-doces... Que cabeça! . . .
Adiantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto à boca chamou com voz forte:
—Ó Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe a certa distância
O mineiro pôs-se a assobiar com modulações à maneira dos índios.
Houve uns momentos de silencio; depois veio correndo o anão e, chegando-se para perto, mostrou por sinais que não ouvira bem o recado.
—Uns limões-doces, já!... Nocência está com sede...
Disparou o pequeno como uma seta, sumindo-se logo na densa escuridão que já se espessara entre as árvores do pomar.
CAPÍTULO VII
O NATURALISTA
A minha filosofia toda resume-se em opor a paciência as mil o uma contrariedades de que a vida está inçada.
(Hoffmann, O Reflexo Perdido).
Serena e quase luminosa corria a noite. No paro campo do céu cintilava, com iriante brilho, um sem-número de estrelas, projetando na larga fita da estrada do sertão, misteriosa e dúbia claridade.
Pelo caminhar dos astros havia de ser quase meia-noite; e, entretanto, a essa hora morta, em que só vagueiam à busca de pasto os animais bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pó, outro montado numa besta magra e já meio estafada.
Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida vara na mão rangendo diante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por um grande ligam
Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o selim, com as pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apesar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gázeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito louras. O seu traje era o comum em viagem: grandes botas, paletó de alpaca em extremo folgado, e chapéu-do-chile desabado. Trazia, entretanto, a tiracolo, umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaisquer outros instrumentos especiais, e na mão segurava um pau fino e roliço, preso a uma sacola de fina gaze cor-de-rosa.
Homem de meia-idade, de fisionomia vulgar e balorda, era o camarada, e, pelos modos e impaciência com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao gênero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atrás o inábil recoveiro, em seguida fechando a marcha, o viajante encarrapitado na magra cavalgadura.
Houve momento em que, depois de algumas pautadas de incitamento, pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fora de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.
Provocou a relutância, porem, uma chuva de verdadeiras cacetadas que ecoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.
—Burro do diabo! berrava ele. Mil raios te partam, bicho danado! Arrebenta de uma vez!... Vá para os infernos! Entrega a carcaça aos urubus!
Durante uns bons minutos, o cavaleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azêmola se desse afinal por convencida e avançasse, ou então estourasse.
—Juque, disse ele de repente com acento fortemente gutural e que denunciava a origem teutônica, se porretada chove assim no seu lombo, você gosta?
O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:
—Ora, Mochu, isto é um perverso sem-vergonha, que deve morrer debaixo do pau. Esta vida não me serve!...
—Mas, Juque, replicou o alemão com inalterável calma, quem sabe se a cangalha não esta ferindo a pobre criatura?
—Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este infame, este...
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.